Furtado
de Antas[1],
ao descrever os principais talvegues da cidade do Porto no início do século XX,
assinala aquele que “tem origem entre o
cimo da Rua do Bonjardim e a Rua de São Brás” e desce até à Praça de
Almeida Garrett atravessando a Rua do Paraíso entre o Bonjardim e Camões, a Rua
João das Regras (antiga Rua Duque do Porto), a Trindade, o antigo Laranjal e as
atuais Avenida dos Aliados e Praça da Liberdade. Recebia ainda a água que vinha
da encosta sudoeste do Monte de Salgueiros e oeste do Alto da Fontinha. A área que integra este talvegue é muito rica
em água, e aí se formam alguns regatos que formam um dos ramos, o principal
curso de água, que, ao juntar-se ao que vinha do Bolhão em frente à Igreja dos
Congregados para dar origem ao Rio da Vila. Era aí que se encontrava o
manancial de Camões, o terceiro dos “seis
mananciais de primeira classe de águas potáveis”[2]
da cidade do Porto.
O
Manancial de Camões, localizado na quinta de Santo António do Bonjardim que pertenceu
a Gonçalo Cristóvão, fidalgo do Bonjardim, foi adquirido, em 1829, pela Câmara
Municipal do Porto, através da sua Junta das Obras Públicas, para que a sua
água pudesse servir a população. Aquela quinta abrangia uma área limitada pela
rua de Bonjardim e o Largo da Regeneração, hoje Praça da República. Gonçalo
Cristóvão ofereceu à Câmara o terreno que serviu para abrir ruas, com a
condição de uma delas ter o seu nome, o que foi aceite em 1838. As Ruas de
Camões[3]
e de Gonçalo Cristóvão são duas delas. Na sequência da abertura dessas ruas, a
Câmara reservou para si um terreno onde instalou o seu Horto Municipal[4]
que dava para o Largo de Camões onde, em tempos antigos, se fazia a feira dos
carneiros, e que desapareceu, em 1938, quando
foi construída a estação de caminho-de-ferro da Trindade da linha do Porto à
Póvoa de Varzim. Esta estação, que terminou o seu serviço em 2001, foi entregue
ao Metro do Porto que a remodelou e a pôs ao serviço do metropolitano em
dezembro de 2002.
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Figura 1 – Planta do Horto Municipal na Rua de Camões, com o traçado da linha de caminho de ferro para a Póvoa de Varzim (Fonte: Arquivo municipal do Porto, descarregado de 24/10/17 de https://goo.gl/KW6ZqH) |
A
água do manancial de Camões servia aquele horto onde, em 1846, foi construído,
para a receber, uma arca que apenas durou sete anos. Depois de removida essa
arca, a água passou a cair num tanque do Horto, seguindo depois em tubo de grés
até uma bica existente na Praça de Camões e, a partir daí, em tubo de chumbo
que foi substituído, em 1864, por uma caleira em pedra até à esquina das Ruas
de Camões e Almeida Garrett[5].
Desta rua para sul manteve-se o tubo de chumbo. A água do manancial de Camões
alimentou a Fonte da Trindade, o chafariz do Largo do Laranjal, a Fonte da Rua
Sá da Bandeira, que ficava na esquina desta rua com a de Sampaio Bruno, a fonte
do pátio do edifício da Câmara Municipal do Porto situado na Praça Nova, hoje
Praça da Liberdade, e a Fonte do Largo de S. Bento das Freiras (Praça de
Almeida Garrett). A água daquele manancial também era usada no Hospital da
Ordem da Trindade que a recebia diretamente por meio de um tubo de chumbo. No
blog “Ruas da minha terra – Porto”[6] faz-se referência à existência, em 1957, nas traseiras de um prédio da
Rua Gonçalo Cristóvão “de uma lindíssima fonte com espaldar de pedra
artisticamente trabalhada” que terá pertencido ao fidalgo do Bonjardim. Esta
fonte foi adquirida, em 1927, pelo Conde da Covilhã. Bourbon e Noronha
considerou a água deste manancial “pouco
límpida, coberta de uma leve espuma branca e parasitas vegetais”, era ”de gosto desagradável e algumas vezes,
principalmente no verão, dotada de cheiro levemente amoniacal”. Vinte e
três anos mais tarde, J. Bahia Júnior, 1909, verificou que, sob o ponto de
vista bacteriológico e químico, a água deste manancial que brotava nas Fontes
da Rua Sá da Bandeira, dos Paços do Concelho e no Chafariz do Laranjal era de
péssima qualidade, obrigando a marcá-las com o triângulo negro, sinal de água
imprópria para consumo.
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Figura 2 – O Horto Municipal e o Palacete das Lousas, onde esteve a Escola Comercial Raul Dória, espaço ocupado hoje pelo edifício do Jornal de Notícias (Fonte: J. Bahia Júnior, 1909: pp 10) |
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Figura 3 - Mapa da área que incluía a propriedade de Gonçalo Cristóvão, realçando-se a Ribeira de Liceiras, um dos ramos do Rio da Vila, a Praça do Laranjal e a Igreja da Trindade (C) |
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Figura 4 – Área de influência do Manancial de Camões, embora
outras minas e ribeiros tenham contribuído para o abastecimento
|
Próximo deste
manancial, a norte, existia outra mina com entrada no Horto Municipal que abastecia
o Chafariz da Feira dos Carneiros ou
Chafariz de Camões, que foi construída,
em 1891, no local onde hoje se encontra a confluência da Rua Alferes Malheiro[8]
com a Rua de Camões, a sul do sítio onde se realizava a Feira dos Carneiros e
onde hoje se encontra a estação de metro da Trindade. Esta fonte mudou-se para o
Jardim dos SMAS. A fonte apenas tem uma bica e tem gravada a legenda C. M. P. –
1891. Terá, segundo J. Bahia Júnior, sido anulada quando foi construído um muro
de vedação que a incorporou parcialmente. Este autor e a sua equipa
inspecionaram a mina que a abastecia, por meio de um tubo de chumbo, e que
tinha a entrada no Horto Municipal, um pouco a norte da entrada do manancial de
Camões. Como resultado da inspeção, J. Bahia Júnior deduziu que a água teria
qualidade duvidosa devido às infiltrações negras e amarelas reconhecidas ao
longo da mina.
Figura 5 – O Chafariz da Feira dos Carneiros instalado nos jardins dos SMAS |
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Figura 6 – O Chafariz da Feira dos Carneiros ou de Camões em 1909 (fonte: J. Bahia Júnior: pp 50) |
A
água que vinha do Manancial de Camões alimentava em primeiro lugar o Chafariz
do Largo do Laranjal que foi construído no local onde existiu a
Fonte do Olho do Cu, em 1853-54, com parte das
pedras que pertenceram ao Chafariz do Largo de São Domingos[9].
Quando da abertura da Avenida dos Aliados, em 1916, foi transferido para os
Jardins dos SMAS, tendo aí sido reconstruído em 1943. Atualmente encontra-se no
Largo da Trindade Em 1911 foi colocado um fontenário
com água da “Companhia”, tornando inútil o chafariz que, em 1916, foi
desmontado e reconstruindo nos jardins dos SMAS, sendo posteriormente colocado
no Largo da Trindade e adotando o nome deste largo. Este chafariz tem duas
taças, a maior na parte inferior que tem à volta do seu rebordo a legenda Dicatum Communi Reip. O Chafariz do
Largo da Trindade está classificado como Imóvel de Interesse Público desde 1938
com a designação de Chafariz da Rua de S. Domingos. O mesmo manancial terá
abastecido a Fonte da Trindade construída em 1805, entretanto demolida
pela autarquia em 1853 (Silva, G, 2014)[10]
quando do rebaixamento daquele Largo. As pedras desta fonte foram guardadas no
lameiro das Liceiras e daí seguiram para a rua Firmeza para a construção da
fonte que recebeu o nome desta rua, depois mudada para a Praça das Flores. A atrás
referida Fonte do Olho do Cu é reconhecida num auto de averiguações de
25 de junho e 16 de julho de 1804 por Sousa Reis, citado por J. Bahia Júnior, 1909.
Esta fonte rasa localizava-se, aproximadamente, na área onde atualmente se
encontra o tanque construído durante a última renovação da Avenida dos Aliados.
Era a Fonte do Olho do Cu, assim designada porque ficava a um nível bastante
inferior ao da rua e obrigava os utilizadores a curvarem-se excessivamente para
usar a sua água, onde havia uma bica que deitava a água para uma pia.
Não
muito longe do Chafariz do Largo do Laranjal a Fonte da Neta, que assim
se chamava por estar perto da Viela das Netas, na Viela dos Tintureiros, servia
uma pequena quantidade de água que nascia no mesmo sítio da Fonte. É muito
pouca a informação sobre esta fonte. Segundo Gomes Leite, esta fonte era pouco
usada porque a sua colocação era pouco vantajosa.
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Figura 7 – Chafariz do Largo do Laranjal (Fonte: J. Bahia Júnior, 1909: pp 12,) |
Figura 8 - Chafariz do Largo da Trindade |
A Arca do Laranjal situou-se no Largo do
Laranjal e depois Largo da Trindade, junto ao muro da Quinta do Laranjal pelas “muitas laranjeiras que neste campo havia
antigamente”[11].
Dento da quinta existia uma arca que recebia a água nascida numa mina da Rua do
Estevão. Partindo dessa arca, a água, que era de má qualidade, seguia em tubo
enterrado até ao exterior da quinta onde existia uma bica associada a uma pia
que servia o público. Gomes Leite apelidava, sem justificar, esta fonte de
ridícula. Baltazar Guedes informa que desta arca a água seguia para sul
encanada, alimentando diversas pias no seu percurso até à Porta dos Carros; a
partir daqui “embaraçava-se” com o
cano que seguia para o Convento de São Domingos pela Rua dos Canos até se
juntar à água do manancial de Paranhos no sítio da Ponte Nova, abastecendo, a
mistura das águas, os chafarizes de São Domingos e das Congostas, seguindo a
parte sobrante para o rio da Vila. A construção desta arca e sua fonte é
anterior a 1669, data em que foi concertada. Em 1854, esta fonte foi anulada
devido Chafariz do Laranjal.
O Chafariz ou Fonte dos Paços do Concelho,
também conhecido como do Bico do Pelicano,
foi construído antes de 1826 recebendo água que era considerada como má por
Gomes Leite e má e muito salobra por J. Bahia Júnior, tendo sido substituída,
em 1850, pela água que vinha do manancial de Camões. Com a demolição do edifício da Câmara, o chafariz foi transferido para os
jardins do Palácio de Cristal, onde aí se encontra. A água desta fonte era, por
vezes, aproveitada para alimentar as cisternas dos bombeiros.
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Figura 11 – A Fonte do Pátio dos Paços do Concelho (Fonte: J. Bahia Júnior, 1909: pp 12) |
Figura 12 - A antiga Fonte do Pátio dos Paços do Concelho embelezando os jardins do Palácio de Cristal |
A Fonte da Rua
de Sá da Bandeira existiu na esquina das ruas
do Bonjardim e Sá da Bandeira, encostada ao prédio onde esteve o Café
Portuense, área mais tarde ocupada por um moderno prédio onde se instalou o
Banco Pinto de Magalhães. A fonte, que foi construída em 1848, era abastecida
pela água do manancial de Camões vinda de uma pia que existia junto ao muro do
quintal dos Paços de Concelho que alimentava três fontes: a Fonte do
Pátio dos Paços do Concelho, a Fonte da Rua de Sá da Bandeira e a Fonte do
Largo das Freiras de S. Bento. A fonte tinha duas bicas,
uma dedicada a particulares e a outra aos aguadeiros. A fonte foi demolida e
substituída, pouco antes de 1948, por uma marquise envidraçada. Em 1909, a água
que a abastecia era considerada por Bahia Júnior de má qualidade, merecendo a
sua marcação com o triângulo negro
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Figura 13 – A Fonte da Rua de Sá da Bandeira (Fonte: J. Bahia Júnior, 1909: pp 12) |
Descendo a rua do Bonjardim
a partir da Praça do Marquês de Pombal encontra-se à esquerda, numa reentrância
do alinhamento dos edifícios, em frente à Rua do Paraíso a Fonte de Vila Parda que é datada de 1859 e foi restaurada em 1940. Esta
fonte substituiu outra, construída antes de 1613, porque a água terá escasseado
na mina primitiva devido à construção de algumas casas. A sua instalação remonta ao séc. XVI, sabendo-se que já existia em 1597. Terá sido mudado
para a rua do Bonjardim por volta de 1629, tendo adoptado o nome de uma
estalagem próxima. J. Bahia Júnior, 1909, escreveu que a antiga fonte era abastecida por nascente própria “situada um pouco acima dela, aonde havia uma arca, ao norte do qual
estava ainda outra nascente” que pertenceu aos Religiosos Carmelitas que a
cederam quando passaram a receber água do aqueduto de Paranhos. Noronha, 1885,
diz que “a água nasce na rua Bella da
Princeza em uma mina, indo alimentar a fonte de Villa Parda. No trajecto a água
segue a mina e depois por tubos de chumbo no pior estado de conservação,
rompendo-se repetidas vezes.” J. Bahia Júnior diz que “a
sua nascente, não visitável, junto da travessa de Santa Catharina, de onde vem
até á fonte em canalização de chumbo”. Para Balthazar Guedes a água que
abastecia a primitiva fonte era de “gentil
sabor e leveza” porque nascia numa fraga. J. Bahia Júnior sublinhou que ela
tinha “sobre cada uma das bicas o
triângulo negro”, marca da sua má qualidade, comprovada pelas análises
bacteriológicas apresentadas no estudo de J. Bahia Júnior. Como acontecia em muitas das fontes visitadas por este autor, o lado do seu tanque semicircular os
recantos são aproveitados para mictórios”. Atualmente, metida no seu
pequeno recanto, a fonte de Vila Parda é, com a sua arquitectura simples,
encimada por um bonito jarrão decorado, uma nota de graciosidade nesta rua do
Bonjardim.
Figura 14 – A Fonte de Vila Parda |
Caminhando
a partir da Fonte da Vila Parda para ocidente e passando pelo portão norte do
Quartel General entramos na Rua de Cervantes, antiga Travessa de Salgueiros,
onde se encontra a Fonte da Lapa, que foi construída inicialmente junto
do portão do então Quartel de Santo Ovídio ou de Infantaria 18, na parte norte,
no centro do Largo da Senhora da Lapa onde havia um jardim (J. Bahia Júnior,
1909). Esta fonte pode ter sido o chafariz da Rua de Santo Ovídio[12]
referida em 1758 e que terá sido considerada para obra de pedreiro em 1597. A
Fonte da Lapa recebia a água de uma mina localizada junto da Capela-Mor da Real
Capela que antecedeu a Igreja da Lapa. Sendo o sítio pouco decente (Gomes
Leite), e como as paredes do acesso à fonte ameaçassem ruína, a fonte foi transferida,
em 1818, para o lado poente desse largo, por baixo da Alameda, na atual
localização, do lado sul do Hospital da Lapa, continuando a deitar a água com a
mesma origem pelas suas duas bicas. Apesar da seca deste ano, 2017, a fonte
continua a lançar a água de uma das suas bicas para o tanque. Lamentavelmente,
como em grande parte das fontes e chafarizes da cidade, os vândalos não
respeitam o património de todos chegando ao ponto de destruir o granito para
arrancar um tubo de bronze.
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Figura 15 – A Fonte da Lapa em 1909 (Fonte: J. Bahia Júnior, 1909: pp70) |
Figura 16 – A fonte da Lapa em 2017 |
No Campo da Regeneração, mais tarde Santo Ovídio e, nos nossos dias, Praça da República, existiu um manancial que alimentava alguns poços privados e uma de serventia pública, a Primeira Fonte da Rua Almada, próxima do n.º 60 da Rua do Almada, que debitava três anéis e seis penas de água. Esta fonte foi concluída em 1795 A Segunda Fonte da Rua do Almada, situada na área das Hortas, era abastecida com água que nascia junto da Travessa da Trindade, nove penas de água (Gomes Leite, 1836), enviando as suas vertentes para o tanque do chafariz da Praça de D. Pedro (da Liberdade). Esta fonte encontra-se no Museu Militar no Largo Soares dos Reis. O espaldar desta fonte tem a inscrição 1787, data em que foi comprada a sua água, mas a sua construção apenas foi concluída em 1790. De acordo com os resultados apresentados no estudo de J. Bahia Júnior, a água das duas fontes era, sob o ponto de vista bacteriológico, de muito má qualidade.
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Figura 17 – A Primeira Fonte da Rua do Almada, vendo-se o triângulo negro por cima da bica (Fonte: J. Bahia Júnior, 1909: pp70) |
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Figura 18 - A Segunda Fonte da Rua do Almada. Também tinha o triângulo negro, embora não seja claramente visível na fotografia (Fonte: J. Bahia Júnior, 1909: pp70) |
A Fonte da Arca ou da
Natividade situava-se perto da muralha fernandina, no Campo das Hortas[13],
próximo da Rua das Hortas, hoje Rua do Almada. A frente da fonte estava
alinhada com um renque de choupos[14]
plantado no século XVI[15]. A construção
desta fonte, com desenho do arquiteto Manuel Garcez que dirigia então a obra do
Convento de Santo Elói, terá tido início em 1608 e foi reformulada nos anos
1677 – 1682 seguindo um desenho do Padre Pantaleão da Rocha. Esta fonte recebia água dos ribeiros que
corriam pelo campo das Hortas, e, pelo menos, a de um deles era classificada
então como muito límpida, leve e com propriedades curativas para algumas
doenças. Para Balthazar Guedes, a sua qualidade e frescura era conhecida em
toda a cidade. A frontaria da fonte tinha três corpos separados por cornijas,
estando a primeira acima do solo da Praça, a segunda assentava sobre o segundo
corpo com outra cornija a cerca de três metros, e sobre esta existia uma
frontaria semicircular com um nicho de pedra lavrada ladeado por duas colunas
de granito. Este nicho abrigava uma imagem de Nossa Senhora da Natividade ali
colocada durante a remodelação. Estas colunas assentavam numa sacada com grades
de ferro e duas lanternas nos cantos. Como estava a um nível inferior ao solo
da praça, o acesso a um largo tanque era feito através de uma escadaria. A
água, abundante, era lançada por quatro bicas de bronze inseridas nas bocas de
igual número de carrancas em granito, duas das quais se encontram nos jardins
do Palácio de Cristal. A parte superior do oratório era rematado pela terceira
cornija em forma de curva. Pelas descrições da época, a fonte provocava espanto
a que a via pela primeira vez dada a sua espetacularidade e por ser a mais
perfeita da cidade, tendo-se ainda convertido num lugar de devoção a Nossa
Senhora da Natividade.
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Figura 19 - Planta mostrando a convexidade da Praça Nova, lado sul, desde Santo Elói até à Porta de Carros (Fonte: Arquivo Municipal do Porto, descarregado em 19/11/17 de https://goo.gl/Vp8GFq) |
O aumento de tráfego de
viaturas, animais e pessoas levou a alterações da área urbana, uma das quais
foi a demolição da Porta dos Carros em 1827, à qual se seguiu a da Fonte da
Arca em 1833, neste caso por ordem direta de D. Pedro IV para permitir o
alargamento da Praça Nova. O brasão da cidade e as grinaldas foram embelezar o
edifício onde funcionava a Câmara e encontram-se hoje no roseiral do Palácio de
Cristal. Três das carrancas da fonte foram levadas para a Praça de D. Teresa.
Desconhece-se o destino da quarta. No período entre 1794 e 1797 foi construído,
por decisão da Junta das Obras Públicas, um novo tanque com espaldar com cinco
bocais em cinco panos separados por pilastras. Quatro do pano tinham ao centro
florões que ornavam os bocais. O pano central tinha uma carranca. O tanque
ocupava o espaço hoje ocupado pelo Banco de Portugal, com a sua fachada virada
para oeste. Recebendo a água do Campo do Meloal, foi apelidado de Chafariz da Praça de D. Pedro. Para
além das serventias naturais, o tanque funcionava como reserva para combate a
incêndios.
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Figura 20 – O Tanque da Praça Nova segundo o desenho de Joaquim Vitória Vilanova (fonte: Santos Silva, 2006) |
Com
a abertura da Avenida dos Aliados foi inaugurada a fonte popularmente chamada
como Fonte da Menina Nua, embora tenha sido intitulada pelo seu autor, o
escultor Henrique Moreira, como Fonte da Juventude. Inaugurada no dia 1
de dezembro de 1929, foi considerada uma obra simples, bela e elegante, embora
a sua nudez não tenha sido muito bem aceite pelos falsos moralistas. Trata-se
de uma fonte prismática com quatro carrancas nas suas faces que representam as
quatro estações. A menina, na realidade uma mulher[16],
está sentada no topo do prisma com os pés apoiados na carranca virada para sul.
Figura 21 - Fonte da Menina Nua na Avenida dos Aliados |
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Figura 22 – Pormenores da Fonte da Menina Nua na Avenida dos Aliados |
[1] Furtado de Antas, A., C.,
(1902), Insalubridade do Porto, Dissertação Inaugural apresentada à Escola
Médico-Cirúrgica do Porto.
[2] Souza Reys, H., D., (1984),
Manuscritos Inéditos da Biblioteca Municipal do Porto, II Série – 3.
[3] A abertura desta rua
obrigou a cobrir o rio de Liceiras que, antes da cobertura, servia de lavadouro
para as mulheres da vizinhança.
[4] Bourbon e Noronha, 1885.
[7] A
área da figura 2 abrange, de norte para sul, a Largo da Lapa, o Campo da
Regeneração (atual Praça da República), as Ruas do Duque do Porto (João das
Regras), de Gonçalves Cristóvão, das Liceiras (Alferes Malheiro), Praça da
Trindade, Fernandes Tomás, Passos de Manuel, da Cancela Velha e a Praça de D.
Pedro. De oeste para este destacam-se a Rua dos Mártires da Liberdade, Rua do
Laranjal, em parte ocupada pela Avenida dos Aliados, a Rua do Bonjardim e a Rua
de Sá da Bandeira que, então, terminava na Rua Formosa.
[8] Esta rua chamou-se Travessa
da Doida e depois Rua de Liceiras.
[9] REIS, Henrique Duarte e Sousa – Apontamentos para a
verdadeira história antiga e moderna da Cidade do Porto. Volume I. Porto:
Biblioteca Pública Municipal do Porto, 1984. p. 184.
[11] Balthazar Guedes, segundo documento da
A.H.M.P-PUB/05969 (1), fls. 1-9. de 25 de junho de 1806 transcrito por Teixeira,
2011.
[12] Terá sido a atual rua dos
Mártires da Liberdade. Também terá recebido os nomes de 16 de maio e da Sovela.
[13] Este campo chamava-se, no
século XV, Casal de Novais, tendo passado a ser conhecida, depois da
remodelação da fonte, por Largo da Natividade. A praça, aberta no princípio do
século XVIII, denominou-se sucessivamente: Praça Nova das Hortas (1711), Praça
da Constituição (1820), Praça Nova (1823), Praça D. Pedro V (1833), Praça da
República (13 de Outubro de 1910) e Praça da Liberdade (27 de Outubro de 1910).
Muitos conhecem-na pela indicação que constava nos carros elétricos de outrora
que se destinavam à “Praça”.
[14] Segundo Balthazar Guedes, os choupos ou olmos não
eram bons vizinhos da fonte porque criavam “raposos” (charutos de raízes) nos
canos impedindo a passagem da água.
[15] Santos Silva, R., 2006.
Praça da Liberdade: 1700-1932. Uma história de Arquitectura e Urbanismo no
Porto. Volume 1. Dissertação de Mestrado apresentada à Faculdade de Letras da
Universidade do Porto.
[16] Aurélia Magalhães Monteiro,
falecida em 1992 com 88 anos, serviu de modelo a conhecidos escultores.