segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

parte VI

O Manancial do Campo Grande, para além de alguns lavadouros, alimentava diversas fontes e chafarizes, começando pela Fonte de Mijavelhas e pelos lavadouros públicos que aí existiam, e continuando pelas seguintes fontes e chafarizes: Rua Garrett, Padrão de Campanhã, Rua das Fontainhas, Terreiro da Batalha, Batalha, Alameda (Cemitério do Prado), Largo da Polícia, e, os descritos anteriormente, como o Chafariz da Rua Chã, a Fonte do Largo de S. Sebastião e o Chafariz do Anjo (S. Miguel) ou do Largo da Sé. Como, em março de 1882, foi assinado um contrato para abastecimento de água ao domicilio entre a Câmara e a Compagnie Général des Eaux pour l'Etranger, a água desta companhia passou a abastecer fontes do Porto, entre as quais a das Fontainhas, Batalha, Rua Chã, S. Sebastião na Rua Escura e o Chafariz do Anjo S. Miguel.

A Fonte de Mijavelhas localizava-se junto à nascente do Ribeiro de Mijavelhas que se situava na área que fica por detrás do Balneário Municipal do Campo 24 de Agosto. Segundo H. Marçal, 1968, ela era uma fonte de chafurdo devido à sua localização abaixo do nível da rua. Esta fonte já existia em 1402 atendendo a que foi ordenado, em 12 de setembro daquele ano, em sessão da Câmara Municipal, a sua reparação[1].

Na Revista o Tripeiro[2] pode ler-se que a “Arca do Poço das Patas sofreu, no ano de 1868, uma reparação, e que, à beira da fonte de duas bicas, construíram um tanque provido de três canecas de folha de flandres, presas por cadeias, para uso dos moradores da vizinhança que iam buscar água destinada aos usos domésticos. Isto é, só as ditas canecas é que mergulhava no tanque, evitando-se assim, como manda a boa higiene, a conspurcação da água pelo constante submergir das vasilhas, nem sempre limpas… Para Noroeste, nas traseiras do Balneário Municipal, em ponto fundo borbulhava uma copiosa nascente, cuja água alimentava uma fonte de chafurdo ou de afoga caneco, abastecia um lavadouro grande e outros mais pequenos (destruídos em 1899 aquando da peste bubónica); e, em volumoso regato, deslizava para as bandas do Sul com direcção ao Monte do Seminário, onde se despenhava no Rio Douro. Poder-se-á depreender deste texto que terão existido duas fontes no Campo que hoje é 24 de Agosto? Este relato aponta nesse sentido, mas é importante a confirmação desta hipótese.. Segundo J. Bahia Júnior, a Arca do Campo Grande recebia, depois do desaparecimento do Manancial de Mijavelhas, água do próprio Manancial do Campo Grande, do de Montebelo e algumas minas. A fonte e os tanques associados ao Manancial do Campo Grande foram aterrados e desaparecerem em meados do século XIX.

Figura 1 - A Arca do Campo Grande presente na Estação de Metro do Campo 24 de Agosto

A Fonte da Rua Garrett, localizava-se na Rua que lhe deu o nome – actual Rua de Padre António Vieira, em Campanhã. Era alimentada pela água da mina da Póvoa ou de Gaspar Cardoso, cuja entrada se situava na Calçada da Póvoa. A água era conduzida da mina até à fonte pela Travessa da Póvoa, Avenida Fernão de Magalhães, Rua Ferreira Cardoso, Rua do Heroísmo e Rua Padre António Vieira, antiga Rua Garrett. O trajeto a partir do Campo 24 de Agosto era feito em cano de chumbo. A fonte, reconstruída em 1848, está atualmente nos jardins da empresa municipal Águas do Porto. Desconhece-se a data da sua construção. Na caracterização da água desta fonte efetuada por J. Bahia Júnior, em 1908-1909, verifica-se que a sua qualidade microbiológica era muito má, imprópria para consumo humano. J. Bahia Júnior testemunhou que os cantos abrigados do alpendre da fonte serviam de mictório e, num deles encontrou fezes, concluindo que “...as boas qualidades de recato (do alpendre), o público porco aproveita, para servir dos seus recantos como sentinas e mictórios”.
                                                                   
Figura 2 – A Fonte da Rua Garrett, como se pode apreciar agora nos Jardins da Águas do Porto

Figura 3 – A Fonte da Rua Garrett, que ficava na rua daquele
nome ao lado do prédio n.º 21. A letra F indica a presença
 de fezes (Fonte: J. Bahia Júnior, 1909, pág. 34)

A Fonte do Padrão de Campanhã, segundo Horácio Marçal, 1968, localizava-se em frente à Capela do Heroísmo e foi substituída pela Fonte da Rua Garrett. A Fonte da Rua das Fontainhas é referida por vários autores, como Sousa Reis[3], J. Bahia Júnior, que a localizam na embocadura da rua que lhe dá o nome, abaixo do Hospital de São Lázaro, segundo Marçal, 1968. Esta fonte foi designada por J. Bahia Júnior, 1909, como Fonte do Regato, “colocada antigamente à esquina dessa rua e da rua de S. Lazaro, ao lado do Recolhimento das Órfãs”. Note-se que a Rua das Fontainhas se denominou, primitivamente, de Rua do Regato.

A Fonte Exterior ou da Alameda do Cemitério do Prado do Repouso está localizada no Largo Soares dos Reis, à esquerda de quem entra no cemitério pelo portão norte. A fonte deve ter sido inaugurada em simultâneo com o cemitério, ou seja, em 1839. Esta fonte tem uma única bica situada no centro de um medalhão, caindo a sua água numa taça. A água e a taça são usadas pelas floristas que fazem o seu negócio à entrada do cemitério. As vertentes desta fonte são encaminhadas daquela taça para dois tanques semicirculares com três metros de diâmetro existentes no interior do cemitério, junto ao muro. A água destes tanques é usada para rega e limpezas no cemitério. A fonte é abastecida pelo Manancial do Campo Grande. Tendo como base os resultados dos exames bacteriológicos realizados, J. Bahia Júnior considerou a água como sendo de qualidade má.

Figura 4 - Foto Fonte da Alameda no cemitério do Prado do Repouso

Na Praça da Batalha, no passado uma das mais importantes entradas da cidade, no exterior da Muralha Fernandina e junto da Porta de Cimo de Vila (Silva, 2000), existiram dois chafarizes: um, apelidado do Terreiro da Batalha, era conhecido, pelo menos, em 1678[4]. Era um chafariz triangular[5] que foi remodelado no final do século XVIII e início do XIX, e demolido, em 1830, durante a renovação daquele Largo que deu origem à Praça da Batalha. Com esta alteração, foi então construída, em 1831, a Fonte da Batalha (Marçal, 1968). Tanto o Chafariz como a Fonte foram abastecidos pela água do Manancial do Campo Grande. As vertentes deste chafariz seguiam para o Quartel General, mais tarde e até há pouco tempo Comando da Policia de Segurança Pública, para o Recolhimento das Meninas Desamparadas, edifício atualmente ocupado pela Universidade Lusófona, para o Hospital dos Entrevados e para o Convento das Religiosas de Santa Clara. Segundo Velasques, 2001, e atendendo a fotografias, das quais reproduz uma na sua obra, terá existido, sem precisar datas, um fontenário em ferro fundido, semelhante ao instalado na Praça Carlos Alberto. Próximo dos nossos dias, a Praça da Batalha foi, mais uma vez renovada no âmbito dos projetos da Sociedade Porto 2001, cabendo-lhe uma nova “fonte” com recirculação de água. Tendo nascido “torta”, com perdas notáveis de água, a fonte deixou de funcionar em 2001, Depois de reabilitada, ela regressou à sua função em dezembro de 2004.

Figura 5 – Alçado, corte e planta para a arca de água da Fonte
da Batalha, por Luís Inácio de Barros Lima. 
Documento do Arquivo Municipal do Porto  https://goo.gl/2pqAFH

O Chafariz do Largo da Policia, atualmente do Largo Ator Dias[6], estava colocado ao lado do Recolhimento das Meninas Desamparadas, próximo do local onde se situava a Porta do Sol da Muralha Fernandina. O chafariz recebia a água do Manancial do Campo Grande em cano de chumbo (J. Bahia Júnior, 1909). Os resultados dos exames microbiológicos apresentados na obra deste autor, mostraram que a água tinha qualidade sofrível.

Figura 6 – O Chafariz do Largo da Polícia, ou do Largo Ator Dias,
como hoje é denominado

A água do Manancial da Póvoa de Cima, ou do Bispo e das Freiras, que alimentava o Chafariz de S. Crispim, reunia-se inicialmente com a água vinda da Arca do Campo da Espinheira que pertencia às religiosas de Santa Clara. Mais tarde, essa reunião passou a fazer-se na Pia da Fonte da Rua Firmeza, donde saíam três canos que alimentavam: um a Fonte da Praça ou Mercado do Bolhão; o segundo, a Fonte do Canavarro, onde servia a bica sul; o terceiro, a Arca do Manancial da Cavaca ou da Duquesa de Bragança que pertencia aos Religiosos Mendicantes da Província de Santo António (Capuchos). O Manancial da Cavaca ou da Duquesa de Bragança[7] fornecia 12 penas de água ao Recolhimento de Nossa Senhora da Esperança das Órfãs, ou de S. Lázaro, à Fonte da Rua de Santo Ildefonso colocada no antigo Largo das Almas, ao Chafariz do Convento de Santo António da Cidade e à fonte e ao lago que se encontram no interior do Jardim de S. Lázaro. Herdou o nome de Cavaca da alcunha que o povo atribuiu à família proprietária do terreno onde se encontrava o manancial. A Câmara Municipal, em 1839, tomou posse da arca, da água e do extinto Convento de Santo António, atribuindo ao manancial o nome da rua próxima da arca, ou seja, Duquesa de Bragança. A Arca, que recebia aquela água, a que vinha dos campos de Leira Longa e Malmerendas na Póvoa de Baixo, e o excesso da água dos mananciais do Bispo e das Freiras vindo da Arca da Rua Firmeza, pertenceu aos Religiosos de Santo António, cujo convento é o atual edifício da Biblioteca Municipal do Porto. O aqueduto partia da Quinta da Cavaca, atravessava os Campos de Malmerendas até chegar à rua das Oliveirinhas, passava pela Rua Direita de Santo Ildefonso, ou 23 de Julho, que incluía o Padrão das Almas, e chegava a uma pia existente na Rua Murta, atual Morgado de Mateus, que dividia a água para o Recolhimento de Nossa Senhora da Esperança das Órfãs, para o Hospital dos Lázaros e Lázaras, da Rua das Fontainhas, e para a Fonte do Jardim de São Lázaro. Esta fonte dava as vertentes ao Recolhimento das Órfãs. Em uma outra nota, J. Bahia Júnior afirma que “a parte da água que ainda crescia desta distribuição, ia juntar-se no encanamento que nesse ponto passava do Manancial do Campo Grande.  Esta junção ainda hoje se faz, mas, em lugar de ser neste ponto, é na esquina da Rua do Visconde de Bóbeda, tendo portanto a canalização uma direcção contraria à antiga”. O sistema composto pela arca e canalizações começou a ser utilizado em 1891. Os exames microbiológicos obtidos em amostras recolhidas nas duas fontes servidas por este manancial demonstraram que a água deste manancial era de má qualidade (J. Bahia Júnior, 1909), imprópria para consumo humano.

Figura 7 – O lago do Jardim de São Lázaro, na atualidade

O Chafariz de S. Crispim, também conhecido por Fonte de S. Jerónimo ou por Fonte do Largo da Póvoa, hoje Praça Rainha Dona Amélia, foi construído pela Câmara Municipal do Porto em 1891. Ele estava situado quase em frente da Capela de S. Crispim e São Cipriano, no alto da rua de S. Jerónimo, denominada, a partir de 1913, como Rua de Santos Pousada. Aquela fonte, que agora se encontra no Jardim do Palácio de Cristal, “tem duas bicas em direcção oposta e a água chega até elas subindo pelo meio do chafariz e lançando-se no fundo de uma pia, aberta na sua espessura” (J. Bahia Júnior, 1909). Os exames bacteriológicos registados por J. Bahia Júnior mostraram que a água era de má qualidade, estando, por isso, condenada como bebida.

 
Figura 8 – Chafariz de São Crispim ou do Largo da Póvoa, presentemente no Jardim do Palácio de Cristal

A Fonte da Rua Firmeza resultou da reedificação da Fonte da Praça da Trindade, lado poente, desmontada em 1853 (J. Bahia Júnior, 1909). Ela estava situada á esquina da Rua Firmeza e a Rua D. João IV, primitivamente  Rua Duquesa de Bragança e depois Rua Heróis de Chaves, era abastecido pela água do Manancial da Cavaca ou Duquesa de Bragança.  De acordo com J. Bahia Júnior, 1909, era “nas costas desta fonte que havia uma espécie de cano de esgoto onde se reuniam varias águas imundas e que correspondia precisamente ao óculo da abóbada da mina do Manancial da Cavaca donde caíam grossas gotas sobre a caleira e onde as infiltrações eram abundantes”. Apesar disso, a água desta fonte foi considerada por J. Bahia Júnior de qualidade bacteriológica sofrível. Na década de 1950, durante a construção da Escola Soares do Reis, hoje Escola de Turismo do Porto, esta fonte foi transferida para a Praça Dr. Teotónio Pereira, mais conhecida como Praça das Flores.

Figura 9 - Esquina da rua Firmeza com a rua D. João IV, local onde existiu a Fonte da Rua Firmeza

 
Figura 10 - A Fonte da Rua Firmeza (J. Bahia Júnior, 1909, pág. 39)

O nome de Bolhão deriva do copioso bolhão de água que brotava num fundo pantanoso, onde mais tarde se construiu o edifício da Fábrica da Fundição de Metais do Damásio, ou seja, a nascente da entrada da atual Rua do Bolhão. O Mercado do Bolhão começou a ser construído em 1837, mas só em 1851 começaram a ser construídas as suas primeiras barracas. Rodeada por duas rampas que davam acesso à Rua Fernandes Tomás (Marçal, 1968), foi instalada a fonte e o respetivo tanque onde os animais bebiam e as peixeiras lavavam as suas mal cheirosas canastras e oleados (Silva, 2000). Desta fonte há notícias no ano de 1793.

Figura 11 – O tanque do Bolhão, segundo um original de Alberto Ferreira reproduzido em https://goo.gl/xnteIS

J. Bahia Júnior, 1909, refere que a Fonte do Bolhão “tem também a sua nascente própria que, juntamente com esta fonte, fornece alguns consortes. A sua nascente não é visitável e está situada na rua da Duquesa de Bragança, nas traseiras do prédio n.º 160, cujo poço lhe corresponde. Segue deste ponto a sua canalização em grés atravessando a rua em direcção a poente até á Rua do Malmerendas e descendo esta até ao encontro da Rua de Fernandes Tomás, seguindo-a, pelo lado norte, até à pia divisória colocada ao lado da Capela das Almas, em que se vê um óculo fechado com tampa do ferro. Não foi fotografada esta pia por falta de luz e por haver aí dentro um grande extravasamento de gás de iluminação e temermos algum desastre se quiséssemos fotografar à luz do magnésio. Descendo esse óculo, vemos imediatamente por baixo dele uma pia rectangular de 1 metro proximamente por lado e 0,80 m de profundidade, recebendo de um lado o cano de grés aferente e partindo do lado oposto o cano eferente que lança a água em uma segunda pia de pequenas dimensões, seguindo depois em cano de chumbo até á fonte. A pia está completamente desprotegida, podendo cair dentro dela a água que em ocasião de chuvas possa passar entre a porta de ferro e as pedras em que esta assenta. Da Fonte do Bolhão que era alimentada por quatro bicas, restam hoje apenas duas em actividade e metade do seu tanque acha-se também destruído em consequência das projectadas obras a fazer neste local”. Em setembro de 1864, Gavand, no seu estudo sobre a qualidade das águas do Porto, verificou que a água desta fonte era macia, com uma dureza total de 31 mg/L CaCO3. Sob o ponto de vista bacteriológico, J. Bahia Júnior considerou a qualidade da água como má, devido, sobretudo, à sua conspurcação na pia existente ao lado da Capela das Almas. Refere ainda que a qualidade daquela água piorou a partir de 1899.

A Fonte do Largo do Padrão, do Senhor do Padrão das Almas, do Padrão, do Poço das Patas ou de Santo Ildefonso, localizava-se no Largo do Padrão, na esquina das ruas de Santo Ildefonso (antiga 23 de Julho) e a antiga Rua do Meio, atual Coelho Neto. Esta fonte, que apenas tinha uma bica, era abastecida pela água do Manancial da Cavaca ou Póvoa de Cima (Velásquez). Desconhece-se a data da sua construção, sabendo-se que foi reconstruída em 1891, tendo sido reinaugurada com ruas iluminadas e com uma festa na qual atuou a banda de música de Matosinhos (Marçal, 1968). Para Silva, 2000, “foi muito utilíssima não só para os moradores do sítio mas até para os próprios animais que por ali passavam em abundância especialmente de manhã na vinda para os trabalhos da cidade e ao anoitecer, no regresso ao campo”. Em 1909, devido a seca prolongada, o manancial secou e a fonte passou a ser abastecida com água da companhia. Como noutros casos, esta fonte tinha duas bicas, uma para a população em geral e a outra para os aguadeiros. Enquanto servida pela mina da Cavaca, a água desta fonte era bacteriologicamente muito má (J. Bahia Júnior, 1909).

Figura 12 - Fonte do Largo do Padrão (J. Bahia Júnior, 1909, pág. 47)

O Chafariz do Convento de Santo António da Cidade localiza-se no Claustro daquele antigo Convento, ocupado, desde 1842, pela Biblioteca Pública Municipal. Naquele espaço funcionou, entre 1710 e 1789, o Hospício Franciscano. O convento, pertença dos frades menores reformados de São Francisco,  começou a ser construído em 1783 e, em 1832, data em que os frades o abandonaram como consequência da decisão do Governo Liberal de extinguir os Conventos, ainda não estava completo. O Chafariz ostenta a data de 1789, ou 1831 segundo uma ficha do IHRU (Instituto Da Habitação e da Reabilitação Urbana[8].O chafariz tem um tanque quadrangular com semicírculos nas quatro faces que recebe a água de uma taça com forma equivalente à do tanque.

Figura 13 – O Chafariz do Convento de Santo António da Cidade, atual edifício da Biblioteca Municipal do Porto

 A Fonte do Jardim de S. Lázaro, possivelmente um lavatório onde os sacerdotes lavavam as mãos antes e depois dos atos litúrgicos (Silva, 2000), está esculpida em mármore branco e com tons rosados, com duas bicas que abrem para uma taça semicircular apoiada numa coluna central em forma de pêra. Na parte superior uma prateleira trabalhada de folhas suporta um vaso de flores. A pia está encostada e enquadrada por um suporte de mármore em que dois pilares se encimam por volutas que apoiam o frontão semicircular envolvido numa grinalda e tendo ao centro uma concha. A parede de granito onde o conjunto se encosta é encimada por dois pináculos e tem ao centro uma outra concha. Esta fonte pertenceu à sacristia do extinto Convento dos Religiosos Dominicos, cuja Igreja foi demolida para ampliar a rua Ferreira Borges (J. Bahia Júnior, 1909), tendo sido transferida, em 1838, para o Jardim de S. Lázaro. Sobre esta fonte há que fazer um sério aviso: ela está-se degradando intensamente porque o seu calcário está sendo atacado pela chuva acidificada pelo dióxido de carbono libertado pelos escapes de automóveis, camionetas e autocarros que passam permanentemente a seu lado. O mais aconselhável será revesti-la por uma película transparente.

Figura 14 - A Fonte do Jardim de S. Lázaro nos nossos dias

Figura 15 – Pormenor da Fonte de São Lázaro onde se reconhece o
desgaste provocado pela chuva ácida

A Fonte do Canavarro, ou Segunda Fonte de Santa Catarina foi reconstruída por volta de 1810, desconhecendo-se a data da sua construção. Encontrava-se à direita de quem sobe a rua de Santa Catarina, logo acima da esquina da rua Firmeza, no local que foi conhecido por Padrão das Almas de Santa Catarina (Marçal, 1968). Tomou o nome do proprietário da quinta que lhe era fronteira, Filipe de Souza Canavarro[9].  A fonte tinha um grande tanque e três bicas, embora apenas funcionassem duas. Uma delas era alimentada pelos Mananciais do Bispo e das Freiras; a outra, por uma mina sita no alto da mesma Rua de Santa Catarina. Desta mina era também abastecida a Fonte Seca, situada também na Rua de Santa Catarina, próxima da travessa do mesmo nome, que já estava seca em 1909 (J. Bahia Júnior, 1909). Bacteriologicamente, a água da Fonte do Canavarro era bastante má.

 
Figura 16 – A Fonte do Canavarro, situada no lado nascente da Rua de Santa Catarina (J. Bahia Júnior, 1909)












[1] “Vereaçoens – anos de 1401-1449”. Documentos e Memórias para a História do Porto – XL Gabinete de História da Cidade. Câmara Municipal do Porto. 1980. p. 168.
[2] O Tripeiro, Série VI, Ano XII
[3] Sousa Reis, H. D., 1984, Apontamentos para a verdadeira história antiga e moderna da cidade do Porto, I Volume, manuscritos inéditos da Biblioteca Municipal do Porto – 2ª Série, Porto.
[4] Gomes Leite, 1836.
[5] Ferreira Alves, Joaquim Jaime B. 1988. O Porto na época dos Almadas – Arquitetura, Obras públicas (período 1757-1804). (Volumes I e II) Dissertação de doutoramento em História de Arte apresentada à Faculdade de Letras da Universidade do Porto.
[6] O actor António Dias Guilhermino, mais conhecido por Actor Dias, nasceu em Maiorca, Figueira da Foz, em 1837, em 1840. Actuou em todo o país, sobretudo em Lisboa e Porto, e trabalhou em vários teatros do Brasil. Por ser seu admirador, Camilo Castelo Branco adaptou para o actor a comedia francesa “O Assassínio de Macário” onde Dias interpretava o papel de “Velho”. Morreu, em 1893, fulminado por uma congestão cerebral quando representava a comedia “Solar de Barrigas” no Teatro Príncipe Real, do Porto. Fontes: Blog “Álbum Figueirense” de 26/10/2004  (https://goo.gl/rZGWnn) e Ilustração Portuguesa N.º 877 de 9/12/1922, pág 19 (https://goo.gl/mAhOjH), consultados em 1/1/2017. No sítio “Toponímia do Porto” (https://goo.gl/PDgUel), consultado na mesma data, afirma-se que o actor Dias nasceu no Porto.
[7] A descrição deste manancial condensa descrições de J. Bahia Júnior, 1909, Gomes Leite, 1836 e Sousa Reis, 1984.
[8] https://goo.gl/hU3h61, consultado em 24/12/2016.
[9] Filipe de Sousa Canavarro, tenente-general, Governador de Armas do Partido do Porto, exercendo este cargo até 24 de Agosto de 1820, altura em que se aclamou a Constituição Politica.

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

parte V

  
Tito de Noronha [1] indica a existência, em 1885, de trinta e seis nascentes que abasteciam água à cidade do Porto. Destas nascentes, vinte e nove alimentavam apenas uma fonte, e das sete restantes apenas a de Arca d’Água merecia o nome de manancial. A quantidade de água fornecida aos habitantes da cidade era insuficiente, tendo acontecido, por exemplo, em 1884, “que a estiagem prolongada secou as nascentes mais pequenas e algumas fontes como a do Bolhão e a da Arca. No Hospital da Misericórdia chegaram a suspender-se banhos a alguns doentes”. Acrescentava Tito de Noronha: “Mesmo nas condições normais, fornecendo as nascentes uma média regular, a água não chega. Os canos de esgoto infetam a atmosfera com as suas exalações mefíticas, mas o Porto espera pelas chuvas para os desobstruir e lavar. O pó na rua é asfixiante, mas o município não tem água para as mandar regar. Depósitos para incêndios não há, e muito menos chafarizes nas praças”. Àquele número de fontes de abastecimento de água, juntavam-se inúmeros poços particulares, que, segundo Tito de Noronha, eram de má qualidade e impróprias como água para alimentação. Sabemos hoje que, então, a água das fontes e chafarizes públicos também não oferecia qualidade aceitável. Naquela data a microbiologia tinha nascido havia pouco e a análise bacteriológica ainda não estava estabelecida na sua plenitude. A análise química já era bastante bem experimentada, mas os critérios de classificação da água baseavam-se em questões relacionadas com a sua utilização doméstica. Em relação ao controlo químico das águas do Porto, Tito de Noronha revela que apenas foram feitos alguns ensaios pelo lente da Academia Politécnica do Porto, António Luiz Ferreira Girão, e os ensaios hidrotimétricos [2] realizados, em 1880, pelo lente da mesma Academia, António Joaquim Ferreira da Silva. Pelo menos, faltou-lhe referir Henry Gavand [3] que no seu estudo de 1864 comparou a qualidade da água usada então no Porto com a dos rios Leça, Douro e Sousa, potenciais fontes de abastecimento à cidade. Apesar da falta de controlo, sabia-se que as fontes, as minas e os chafarizes eram focos de água imprópria e eram responsáveis pelo eclodir de epidemias e pestes.

Até ao final da Idade Média, a falta de qualidade da água não era a única preocupação dos portuenses. Também o era a insuficiência das suas captações à medida que a sua população ia crescendo com a expansão do comércio e a fixação de artesãos. Damião de Peres, citado por Soares da Silva [4], 1999, admitiu que a população do Porto (freguesias da Sé, Vitória, S. Nicolau, Santo Ildefonso, Miragaia, Massarelos, Cedofeita) era, em 1384 e 1427, respetivamente, 4400 e 5670 habitantes. Soares de Barros, também referido por Soares da Silva, estimou, com base no número de besteiros atribuídos à cidade, que em 1417 existiriam 8500 habitantes. Em 1623, D. Rodrigo da Cunha (Cândido dos Santos, 2014 [5]), estimou em 16.086 habitantes a população do Porto, significando que em duzentos anos a população da cidade, pelo menos, duplicou. O aumento da população associado à má qualidade da água captada no espaço urbano obrigou a Câmara e outras entidades a buscar água nos mananciais que existiam à volta da cidade. Já referimos anteriormente o Manancial das Fontainhas, que terá sido, a par do Manancial de Malmeajudas, dos primeiros a enviar água para o núcleo urbano. Mas outros se seguiram, como os de Mijavelhas, Arca d’Água e Salgueiros. Comecemos pelo primeiro.

Furtado das Antas [6] descreve o talvegue [7] que recebia as águas pluviais e as águas das nascentes que brotavam das encostas do monte das Antas e do Alto do Bonfim, a oeste, e, a este, do Monte dos Congregados. Ele tem início na Rua de Costa Cabral, atravessa o Campo 24 de Agosto e termina às Fontainhas na extremidade da Rua Gomes Freire. Andrade Júnior [8] chamava a este talvegue o Vale de Bonfim que era atravessado, em 1895, por um ribeiro que recebia no Poço das Patas as águas provenientes de fábricas, passando depois próximo do cemitério e Seminário Velho (atual Colégio dos Salesianos). Este é o ribeiro de Mijavelhas ou Poço das Patas, ou Bonfim, ou das Lavadeiras. Aquele lugar era uma depressão inundável, por onde corria o dito ribeiro, que foi vencido, em 1700, por uma ponte com arcos de pedra e com quatro metros de largura que ligava as atuais Ruas do Duque da Terceira e do Bonfim, facilitando o trânsito entre o Porto e Valongo. Esta ponte e uma capela próxima foram soterradas, por volta de 1850, quando do nivelamento da zona do Campo Grande. Perto da Ponte existia uma levada que permitia criar coluna de água e regular o caudal de água que abastecia a Quinta de Reimão. A ribeira nascia, segundo Furtado de Antas, 1902, na rua Costa Cabral e seguia as faldas oeste do monte das Antas e do Alto do Bonfim. Passa a este do Monte dos Congregados no vale definido pelos montes dos Congregados, Antas e Bonfim, e pela zona do Campo 24 de Agosto, formando aí uma área alagadiça, os Campos do Cirne, que se estendia entre o cemitério Ocidental e a rua Barão de São Cosme. O curso de água seguia, então, o seu percurso entre o Monte do Seminário e as Fontainhas; hoje, depois de passar o Campo 24 de Agosto, segue pela rua Duque Saldanha desaguando, então, no rio Douro, por meio de exutor submerso, na avenida Gustavo Eiffel, entre as pontes de D. Maria e a do Infante. Esta linha de água totalmente entubada tem uma extensão de 6,56 km.

A bacia hidrográfica desta ribeira tem a superfície de 185 ha [9], que recebe, anualmente, cerca de dois milhões de metros cúbicos. Segundo Borges et al., 2011, o nível freático na bacia se encontra próximo da superfície, com variação sazonal entre 1 e 6 m. Aqueles autores inventariaram na área da bacia diversos poços de grande diâmetro e pouco profundos, um furo da CMP e uma mina – a do monte Tadeu. Atualmente, os poços de bombagem das estações do metropolitano da bacia captam as águas superficiais e subterrâneas que se infiltram nas estações e túneis, sendo, posteriormente, descarregadas na rede de águas pluviais, sendo registados os caudais das estações do Marquês, Campo 24 de Agosto e Combatentes. O caudal médio registado, a partir de novembro de 2010, oscilava entre 26 e 70 m3/dia.

Bacia hidrográfica da Ribeira de Mijavelhas.

Legenda: 1 – Praça Velasquez; 2 - Antigo Estádio do Lima; 3 – Rua da Constituição; 4 – Praça do Marquês de Pombal; 5 – Rua Latino Coelho; 6 – Rua da Alegria; 7 – Avª Fernão Magalhães; 8 – Rua Santos Pousada; 9 – Campo 24 de Agosto; 10 – Rua Gomes Freire; 11 – Foz da Ribeira de Mijavelhas; 12 – Ponte de S. João; 13 – Colégio dos Salesianos do Porto; 14 – Cemitério do Prado do Repouso; 15 – Jardim dos SMAS

 Na campanha de amostragem realizada por aqueles autores foram recolhidas amostras de água para exames físico-químicos e microbiológicos em 17 pontos da bacia. A condutividade da água amostrada variou entre 210 e 768 µS/cm e o pH entre 5,2 e 7,8. Sob o ponto de vista microbiológico, a grande maioria apresentou elevadas concentrações de Enterococos, Clostridium perfrigens, Bactérias coliformes e Escherichia coli. As amostras recolhidas na ribeira foram as que apresentaram contaminação mais grave. Num programa de amostragem realizada, em Junho de 2011, foi detetada a presença de pequenas quantidades, em algumas amostras, de alguns compostos orgânicos como: 1,2-dicloroetileno, clorofórmio, tricloroeteno, dibromoclorometano e bromofórmio. No seu estudo, Paula Reis (2009), verificou que o ribeiro de Mijavelhas descarregava, em 2001, num ponto próximo da sua foz, em média, cerca de 3,5 ton/dia de carga orgânica (com valores diários que variaram entre 0,52 e 5,5 ton/dia). A sua água é, na foz, equivalente a uma água residual doméstica.

Aqui termina a Ribeira de Mijavelhas, passando num aqueduto por baixo 
da Avenida Paiva Couceiro e lançando-se no Rio Douro.

 
O Manancial de Mijavelhas, pertencente, no início da Idade Moderna, à Quinta de Reimão, assim era chamado porque se localizava no Campo conhecido como tal, tendo o seu chafariz sido referido na Crónica d’El Rei D. João I de Fernão Lopes quando aborda a Crise sucessória de 1383/1385. O topónimo de Mijavelhas teve origem, segundo a tradição, provavelmente infundada, por ser ali que as vendedeiras, quando vinham de Valongo e São Cosme às feiras de S. Lázaro, se “aliviavam”, fazendo as suas necessidades. Aquele campo, onde esteve a forca, ali instalada no final do século XIV e transferida, em 1714, para a Ribeira, também se designou por “Poço das Patas”, “porque naqueles terrenos alagadiços, andavam desses palmípedes, Campo Grande ou Campo Grande da Feira e Campo Grande da Feira do Gado, por causa de uma feira de gado que ali se fazia desde 1833 e que para ali havia sido transferida da Póvoa de Cima, junto à Praça da Rainha D. Amélia” [10].

Planta da zona entre a Capela de Santo André e a Rua do Senhor do Bonfim, mostrando a arca de água junto à Ponte das Patas, o traçado do aqueduto que daí parte para a cerca do Convento de Santo António, Campo de São Lázaro e fonte, e o novo traçado proposto, por Teodoro de Sousa Maldonado. Projeto aprovado pela Junta das Obras Públicas, em 1795-06-11. Arquivo Municipal do Porto, descarregado de https://goo.gl/eVDnQ6 em 15/10/2016.
Legenda: A - Capela de Santo André; B - Rua Direita de Santo Ildefonso; C - Campo de S. Lázaro; D - Rua do Reimão (Avenida de Rodrigues de Freitas); E - Ponte das Patas; F – Arca d’Água do Campo do Poço das Patas

Em 1839 este Campo passou a ser denominado de, apenas, Grande, e em 1860 adquiriu oficialmente a atual denominação de Campo 24 de Agosto em homenagem à Revolução Liberal do Porto de 1820. Gomes Leite atribuiu à fonte o nome de Mijavelhas ou do Campo Grande, enquanto à Arca a designou como da Ponte do Poço das Patas. Para além da fonte de chafurdo e da arca de água, ali se construíram, em 1593 (Ribeiro da Silva, 1985a [11]), cinco tanques onde as lavadeiras tratavam uma grande parte da roupa do burgo. Segundo Ferreira da Silva, pelo menos, nos “invernos mais tempestuosos não havia outro sítio onde a água fosse tão limpa e os enxugadouros tão extensos e descobertos”. A presença das lavadeiras naquele local feria a “sensibilidade” dos Vereadores porque, citando o mesmo autor, por ali “corria a estrada pública e as lavadeiras, quase sempre descompostas por necessidade do ofício, estavam naturalmente expostas aos olhares gulosos de quantos passavam”.

Vista da Arca de Mijavelhas recuperada e instalada na estação do metropolitano do Campo 24 de Agosto.

 
A Câmara, porque se achava com direito à água que “estava metida na Arca com Armas Reais [12] em cima na mesma Arca por entenderem os Oficiais dela ser pertença da dita cidade” (Gomes Leite, 1836), decidiu, em 1620, conduzir essa água do Manancial de Mijavelhas para um chafariz que iria ser construído na Rua Chã, tendo recebido oposição de Frei Pedro Vaz Soares Cirne, tutor dos filhos menores e herdeiros do terreno. O projeto da Câmara, iniciado em 1622, apenas se concretizou em 1635, depois de a Câmara ter comprado a água daquele manancial em 1633. Mesmo assim, o Bispo da Diocese e a Companhia de Jesus, alegando prejuízo para as suas quintas, procuraram, sem êxito, embargar a obra (Ferreira da Silva, 1985b).

Escritura de emprazamento de um campo situado junto à água de Mijavelhas que a Câmara do Porto fez a Pedro Anes de Santa Cruz, Documento/Processo, 1455/11/29 – 1455/11/29, A Câmara do Porto empraza, por três vidas, a Pedro Anes de Santa Cruz, escrivão da Alfândega, e a Branca Pires, sua mulher, um campo junto à água de Mijavelhas, pela renda anual de 2 libras da moeda antiga na primeira vida e 4 na segunda e terceira (São Miguel de Setembro). Fonte: Arquivo Municipal do Porto, descarregado de https://goo.gl/k7jPZD em 12/10/2016.

Gomes Leite, 1836, descreve o percurso do encanamento que passava por baixo da Ponte, seguia pela Rua da Murta (que também teve o nome do Mede Vinagre e, atualmente, o de Morgado de Mateus) para o Campo de S. Lázaro. Aqui tinha uma derivação que fornecia um anel de água ao Colégio das Órfãs de S. Lázaro, hoje Colégio de Nossa Senhora da Esperança. Por baixo do jardim, saía do aqueduto uma linha que fornecia um anel de água à Fonte de S. Lázaro, cujas vertentes seguiam também para o Recolhimento das Órfãs. O aqueduto continuava pela Rua de Entreparedes, onde fornecia duas penas de água à casa de Custódio Teixeira Pinto Basto, meia pena à casa de Manuel Guedes e uma pena às Entrevadas de S. Ildefonso ou do Hospital do Espírito Santo. Desta rua seguia até ao Chafariz da Batalha, servindo-o com a água necessária, e fornecendo à Casa Pia meio anel de água, do qual saía uma pena para o Recolhimento de Nossa Senhora das Dores e S. José. Ao atravessar a Praça da Batalha, e a meio dela, uma derivação dava duas penas de água à casa de Florido Roiz Pereira Ferraz. Do outro lado da Praça, no ângulo da Capela da Batalha, saía uma linha de três anéis de água que alimentava o Hospital da Caridade e várias casas próximas. O aqueduto seguia por detrás da dita capela onde se retirava meia pena de água para o Hospital de Nossa Senhora do Amparo dos Entravados e um anel ao Paço do Fidalgo do Corpo da Guarda. Seguindo pela Travessa do Hospital dos Entrevados passava à Rua de Cimo de Vila onde, numa pia, se repartia a água para a Fonte da Rua Cham, uma pena para o Paço da Marquesa, e, seguindo pelo referido Paço, Ruas Cham e da Senhora do Ferro, para o Chafariz de S. Sebastião, aonde terminava o aqueduto. A água era transportada em tubos de ferro até à fonte da Batalha e depois em tubos de chumbo para as fontes de S. Sebastião e da Rua Chã.

Armas Reais da Arca de Mijavelhas colocadas na Estação de Metropolitano do Campo 24 de Agosto.

As Armas Reais existentes na parede que fechava a arcaria pelo lado 
poente da Arca, segundo fotografia de J. Bahia Júnior, 1909.

A abertura de poços na zona do Campo de Mijavelhas para alimentar de água as fábricas de fiação que por ali foram surgindo, secaram o manancial. Anos depois, uma cheia repentina levou a aterrar a Fonte de Mijavelhas e os tanques vizinhos [13] e, assim, acabou a sua utilidade. Desta forma, a arca soterrada passou a ser equivalente a um poço, que havia, então ganho o nome de Poço das Patas. Entretanto, a arca passou a receber água de outras origens, como:
·     De uma mina existente na Póvoa de Baixo, sítio correspondente à zona onde a Rua Santos Pousada confina com o Campo 24 de Agosto, a água seguia em um encanamento que a levava até à Arca. Esta mina dava pouca água, cerca de seis anéis. Por Provisão de 1786 (Gomes Leite, 1836), da água recebida da mina, parte seria depois fornecida a duas casas da Rua Chã ligadas aos proprietários da mina.
·      Mina pertencente a José de Mello Peixoto Coelho e a Bento Luís Correa de Mello (Mina de Melos), localizada na Rua de Montebelo (Botelho et al., 2005/6). J. Bahia Júnior designa esta origem de água como Manancial de Montebelo, cedida à Câmara em 1838. Desta mina, a água era canalizada para uma arca situada num prédio da esquina de Fernão de Magalhães com a Rua das Eirinhas. Esta arca ostentava as armas episcopais de Frei José Maria da Fonseca Évora e a data de 1749. De um dos ramos desta mina saía um cano de chumbo que levava a água pela antiga Rua Ferreira Cardoso, atual Rua Duque de Saldanha, e alimentava a Fonte Exterior do Repouso, a Fonte do Roseiral (junto ao crematório) e os dois tanques semicirculares existentes na entrada norte do Cemitério do Prado do Repouso. Antes da abertura do túnel do Metropolitano, metade da água consumida neste cemitério tinha origem naquele manancial. Aquela estrutura reduziu substancialmente esse abastecimento, recorrendo-se agora a água “da companhia”, incluindo o abastecimento à Fonte do Roseiral. Daquele cano condutor saía uma derivação que seguia pela Rua do Heroísmo em direção à Rua Garrett, hoje Rua Padre António Vieira, onde alimentava a Fonte da Rua Garrett.
·        Mina da Quinta do Prado, onde atualmente se localiza o cemitério do Prado do Repouso. Tito de Noronha, 1885, chama-lhe Nascente do Prado, que alimentava a Fonte do Marquês de Pombal, a mina passava por baixo do cemitério, a três metros de profundidade. J. Bahia Júnior denomina-a de Manancial do Cemitério do Repouso. Esta mina alimentava apenas a Fonte do Marquês de Pombal, situada defronte do Portão do Cemitério ao fim da Rua de S. Vítor. Tito de Noronha classificou a água daquela mina como sendo límpida, de gosto agradável e de boa qualidade, apesar do “tétrico da sua origem”.
·       Mina pertencente ao Visconde de Castelões, localizada na Estrada do Bonfim, ou na entrada da atual Rua do Bonfim. Gomes Leite, 1836, assinalou o fato de ela se encontrar seca. J. Bahia Júnior chama-lhe, impropriamente, Manancial do Campo Grande, referindo ainda que durante a visita que fez que a mina deitava alguma água e que dela vinha um “horrível cheiro”.

Porta de entrada norte do Manancial de Montebelo, com encimado pelas armas episcopais. 
Esta entrada localizava-se no extremo da Rua das Eirinhas, junto à Avenida 
Fernão de Magalhães. Fotografia de J. Bahia Júnior, 1909.

Foto da Fonte do Roseiral antes abastecida com água do Manancial de Montebelo e depois da abertura da linha do metropolitano do Porto passou a ser abastecida com água da rede pública.

O Manancial do Campo Grande alimentava diversas fontes e chafarizes, começando pelo “Chafariz de Mijavelhas” e os lavadouros públicos que aí existiam. Continuando, eram abastecidas as seguintes fontes: a da rua das Fontainhas, Chafariz da Praça da Batalha,  Chafariz do Anjo (S. Miguel), fonte da Alameda (Cemitério do Prado), Chafariz da Rua Chã e a fonte do Largo de S. Sebastião.

A entrada da Mina da Praça do Repouso, segundo J. Bahia Júnior, 1909.

Em 1850, face à constante necessidade de se repararem as estruturas do manancial do Campo Grande devido às torrentes que as danificavam (Borges et al.., 2011), foi todo o resto soterrado para dar origem ao atual Campo 24 de agosto. Sobre a qualidade da água deste manancial, Tito de Noronha, 1885, afirma que a água deste manancial não era límpida e tinha gosto regular. Ribeiro da Silva, 1985 [15], refere que “os médicos de 1622 atribuíam a origem de apoplexias, mortes súbitas e outros danos padecidos por pessoas e animais ao consumo da água de Mijavelhas, cuja poluição resultaria do demolhar do linho produzido pelos lavradores locais”. Da análise química levada a cabo por Tito de Noronha em 1885, apenas se destaca o fato de ser uma água bastante rica em cloretos e com dureza média. Os parâmetros ensaiados não acrescentam elementos que permitam atribuir qualquer perigosidade aquela água. Sob o ponto de vista bacteriológico, J. Bahia Júnior transcreve os resultados obtidos, entre 1894 e 1907, no laboratório da Repartição Municipal de Saúde e Higiene e no Laboratório de Bacteriologia do Porto. Deles, conclui aquele autor que a água da Arca e das fontes que servia era muito má, ou seja, imprópria para consumo humano de acordo com as perspectivas atuais.

Foto do tanque do Prado do Repouso

O Manancial do Bispo e das Freiras ou da Póvoa de Cima, provém da reunião de dois mananciais, um que pertenceu, a partir de 1525, às religiosas Franciscanas de Santa Clara, situado no Campo do Espinheira, no lugar da Póvoa de Cima, próximo da Rua Costa Cabral, e o outro pertencente à Mitra Portuense e também localizado na Póvoa de Cima, a ocidente do primeiro, na Quinta do Lima. Esta mina, segundo J. Bahia Júnior, só no inverno e com chuva abundante debitava água. Nos primeiros tempos da sua exploração a água do Manancial do Bispo seguia pelo campo que depois foi cortado pela rua 15 de Setembro, agora chamada da Constituição, atravessava a rua da Alegria e, dirigindo-se para nascente, reunia-se no campo do Espinheira com a água proveniente da arca situada neste campo que pertencia às Religiosas de Santa Clara. A partir daquele campo seguiam em encanamento único que passava pelas faldas do Monte dos Congregados, também conhecido pelo nome de Monte do Tadeu [16], atravessava a propriedade dos Padres de S. Filipe e o Campo de Malmerendas [17], descia da antiga travessa do mesmo nome para a rua do Caramujo, hoje integrada na Rua Alegria. Daqui o encanamento dirigia-se à Rua Direita ou, mais tarde, 23 de Julho e hoje de Santo Ildefonso, atravessava a Viela do Campinho e, chegando á rua de Entreparedes, corria a par do aqueduto público vindo do Campo Grande até á fonte da Batalha. A partir deste ponto o encanamento seguia até ao Mosteiro de Santa Clara sito junto da atual avenida Saraiva do Carvalho, e finalizava na Fonte do Largo da Sé, atual Chafariz do Anjo, e no Paço Episcopal. Por falta de manutenção, o encanamento perdia muita água pelo que pouca chegava ao Mosteiro e quase nenhuma ao Paço Episcopal. Face a esta situação, o Bispo e as Religiosas ofereceram, em 1885, as minas e respetivos terrenos à Câmara, a troco da água que necessitavam, oito penas à Mitra, vinte e quatro ao Mosteiro e uma para uso na Sacristia do Cabido, ficando a conservação do encanamento a cargo da Câmara.

A Entrada do Manancial do Bispo. Fotografia de J. Bahia Júnior, 1909.

Em 1909, acompanhando a descrição de J. Bahia Júnior, os trajetos tinham sido alterados e a água dos dois mananciais apenas se reunia na pia da Fonte da Rua Firmeza. A tubagem que transportava a água do Bispo atravessava a Rua da Constituição em direção à Rua da Alegria, cruzando-a para nascente, e seguindo pela Rua do Príncipe Real, hoje Latino Coelho, alimentava o Chafariz do Largo da Póvoa ou de S. Crispim. Daqui descia a Rua de S. Jerónimo, atual Santos Pousada, até à Rua Firmeza, por onde seguia até à Fonte. A canalização do Manancial das Freiras seguia pela Rua de Anselmo Braamcamp até à Rua do Moreira, virava então para poente até ao n.º 412 da Rua Duquesa de Bragança, hoje chamada de D. João IV, onde existia uma arca que fornecia alguns moradores. Desta seguia por aquela Rua até à arca da Fonte da Rua Firmeza. Na arca desta fonte a água era dividida, seguindo um cano pela Rua Firmeza, Rua da Alegria e Fernandes Tomás para abastecer a Fonte da Praça do Bolhão, e o outro descia pela Rua Firmeza e subia alguns metros na Rua de Santa Catarina dirigindo-se para a Fonte do Canavarro onde servia a bica sul. Uma terceira saída daquela arca dirigia-se para a arca do Manancial da Cavaca ou da Duquesa de Bragança, donde partia o encanamento para abastecer a Fonte da Rua de Santo Ildefonso colocada no antigo Largo das Almas.

Aspeto do interior do Manancial do Bispo, vendo-se, ao canto da abóbada, 
uma pedra com as insígnias da Mitra. Fotografia de J. Bahia Júnior, 1909.

A água do Manancial do Bispo apresentou-se no estudo de J. Bahia Júnior como bacteriologicamente sofrível. Contudo, a mistura da água dos Mananciais do Bispo e das Freiras apresentava-se, na Fonte da Rua Firmeza, como bacteriologicamente má.

A entrada do Manancial das Freiras. No frontispício pode-se ler: “Câmara Municipal do Porto, 1857”. Fotografia de J. Bahia Júnior, 1909.







[1] Noronha, Tito de Bourbon e, 1885, As águas do Porto, Dissertação Inaugural apresentada à Escola Médico Cirúrgica do Porto
[2] Atualmente, este parâmetro é designado por dureza total.
[3] Eugene Henri Gavand. 1864. Estudo sobre o abastecimento d’água da Cidade do Porto. Typographia Commercial. Porto.
[4] Filomeno Amaro Soares da Silva, 1999, O Porto em Cortes (1331 – 1406), Dissertação de Mestrado em História Medieval da Faculdade de Letras da Universidade do Porto.
[5] Cândido dos Santos,  2014, A população do Porto de 1700 a 1820 – Contribuição para o estudo da demografia urbana. Descarregado da internet em 3/8/16 de goo.gl/pPhXXw.
[6] António Cândido Furtado de Antas, 1902, Insalubridade do Porto, Dissertação Inaugural apresentada à Escola Médico-Cirúrgica do Porto
[7] Talvegue – fundo de um vale ou linha que une os pontos mais baixos do leito de um rio.
[8] António D’Andrade Júnior. 1895. Breves apontamentos sobre águas de poços do Porto. Dissertação Inaugural apresentada à Escola Médico-Cirúrgica do Porto.
[9] Borges, Luísa, Pinto, P., Pereira, A. P., Santos, R., 2011. Étude pluridisciplinaire de la stratégie pilote du bassin versant de Ribeira do Poço das Patas. Projeto Water and Territories. Câmara Municipal do Porto, Laboratório Nacional de Energia e Geologia, Águas do Porto
[10] Germano Silva, 2013, O mede vinagre, Cadernos da Libania, https://goo.gl/00DNxF
[11] Ribeiro da Silva, Francisco, 1985a, O Porto e o seu termo (1580-1690) – Os homens, as instituições e o poder, I Volume, Dissertação de Doutoramento em História Moderna e Contemporânea apresentada à Faculdade de Letras da Universidade do Porto.
[12] Este escudo real no chafariz atribuía relevante importância a este local (Botelho, I., Silva, S., Allen, T., (2005/06), A Pedra de Armas da Arca d’ Água de Mijavelhas. Sua Contextualização Histórica: Dados e Problemas, Sistema de Metro Ligeiro da Área Metropolitana do Porto, Linha C, T04.05
Porto, Campo 24 de Agosto).
[13] Tito de Noronha, 1885.
[14] Santos, M. J., Uma descoberta do Campo 24 de Agosto, Sistema de Metro Ligeiro da Área Metropolitana do Porto, Linha C, T04.05, documento descarregado de https://goo.gl/CsH3OF em 23/10/2016.
[15] Ribeiro da Silva, Francisco, 1985b, O Porto e o seu termo (1580-1690) – Os homens, as instituições e o poder, II Volume, Dissertação de Doutoramento em História Moderna e Contemporânea apresentada à Faculdade de Letras da Universidade do Porto.
[16] A atual rua do Monte do Tadeu está associada ao Monte dos Congregados onde se encontra o reservatório de água da rede de abastecimento à cidade. Na rua do Monte Tadeu existe o miradouro mais alto do Porto que oferece maravilhosas vistas em dias sem neblina.
[17] A atual rua Dr. Alves da Veiga foi rua de Malmerendas, tendo, a alteração ocorrido depois de 1933. A estação de correios que ali estava chamava-se de Malmerendas, tendo encerrado em Junho de 2011.