domingo, 15 de abril de 2018

parte X


Procurando seguir o exemplo do abastecimento de água a algumas cidades do mundo desenvolvido como Londres, 1829, Nova Iorque, 1842, Bruxelas, 1857, Madrid, 1858, Paris, 1860, Milão, 1888, e Buenos Aires, 1895[1], em meados do século XIX, procurou-se encontrar uma fonte que pudesse abastecer a cidade do Porto com água de boa qualidade e abundante para substituir a de qualidade duvidosa fornecida por pouco mais de 200 fontes e mananciais. Foi a partir de 1855 que se começaram a fazer estudos para um abastecimento robusto de água à cidade do Porto. O primeiro pedido para que a Câmara concedesse o abastecimento à cidade foi feito, em 15 de maio de 1856, pelo banqueiro Veríssimo Alves Pereira[2] com base no estudo realizado por um engenheiro inglês que aconselhava a captação de água no rio Leça[3], no vale da Travagem. O segundo estudo foi apresentado pelo engenheiro francês Eugène Henri Gavand[4],[5], que o apresentou, em 1864, à CM do Porto, acompanhado de uma proposta para a formação de uma companhia que se responsabilizaria pelo fornecimento de água à cidade. O terceiro pedido de concessão foi feito, em 1873, por um grupo de comerciantes e engenheiros, do qual fazia parte o Barão de Massarelos, que constituíram uma empresa sob a designação de Oporto Water Works Company Limited, mas sem êxito[6] por falta de suficiente capital.
No seu estudo, Gavand reconhecia que a cidade do Porto, face ao progresso alcançado, tinha absoluta necessidade de ser servido por uma “boa e abundante distribuição de água”. Avaliava o autor que a cidade apenas dispunha, em 1864, de nove litros de água por habitante. Como a população aumentava a taxa elevada, e como o abastecimento de água não aumentava com os meios então existentes, a quantidade de água disponível por habitante iria diminuir gradualmente e chegaria à penúria. Em pior situação estava então a cidade de Lisboa em que a disponibilidade de água era, apenas, de cinco litros por habitante por dia.
Para escolher a fonte de abastecimento de água à cidade, Gavand usou três critérios: qualidade, abundância e custos. Para determinar o caudal de água, Gavand baseou-se no critério definido em Inglaterra por uma comissão geral de saúde pública que considerou a necessidade de 98 litros por habitante por dia para satisfazer as necessidades mínimas de uma cidade. Adotando para a população da cidade do Porto o valor de 100 000 habitantes (segundo o censo de 1863 o Porto tinha 88 879 habitantes[7]), foi definido o caudal de 10 000 metros cúbicos por dia. Este critério eliminou de imediato potenciais fontes, nomeadamente os rios Tinto, Torto e Leça. Restavam os rios Douro e Sousa. No primeiro caso, a escolha do local da captação deveria ter em conta o efeito das marés que eram sentidas a 20 km acima do Porto. Esta solução seria muito mais cara por dois motivos: pela distância e pela dificuldade em instalar as condutas para o transporte da água dada a irregularidade do terreno que incluía o atravessamento de quatro vales. Como esta obra ficaria muito mais cara,  a possível captação no rio Douro foi descartada.
O rio Sousa reunia, para Gavand, as melhores condições porque estava a 12 ou 14 quilómetros da cidade, a captação neste rio podia ser instalada a cerca de três quilómetros da sua foz, fora da área de ação das marés, e as suas águas percorriam solos graníticos que garantiriam águas mais puras. Em tempo seco as suas águas eram claras e transparentes, podendo ser servidas sem filtração. O mesmo não acontecia nos dias de chuva em que elas se tornavam turvas e necessitavam de filtração


Figura 1 – Os fontanários em ferro fundido estão muito ligados ao abastecimento de água à cidade do Porto a partir do rio Sousa. Serviam o homem e não se esqueciam dos animais. Então, era assim...

Considerava-se, em meados do século XIX, que uma boa água para beber devia: não ter gosto, molhar bem a boca e o paladar e não ser pesada no estômago, ferver facilmente sem se turvar, não fazer espuma e evaporar-se sem deixar resíduo manifesto, coser bem os legumes, dissolver o sabão com facilidade, e amolecer a pele a lavá-la. Como a química da água estava dando os seus primeiros passos, apenas se podiam associar àqueles princípios os parâmetros dureza total e o resíduo seco, inferindo-se daí que uma boa água devia ter poucos sais dissolvidos e baixa dureza, em linguagem dos nossos dias, devia ser macia. Para a dureza Gavand usou o termo “crueza”, que correspondia, para o autor, aos carbonatos de cálcio e magnésio; ela era determinada por um ensaio hidrotimétrico, e indicada pelo grau hidrotimétrico, hoje conhecido por grau francês. A  água crua, aquela que tinha elevada quantidade daqueles sais, era considerada imprópria para usos domésticos e industriais, porque dissolvia muito mal o sabão, cozia mal os legumes e a carne, diminuía o aroma de todas as comidas e afetava o sabor de infusões de café ou de chá. O fabrico de pão e da cerveja também sofria muito com o emprego de água crua. O maior inconveniente desse tipo de água estava nas caldeiras de vapor devido aos depósitos calcários a que dava origem.
Gavand determinou a dureza de diferentes águas do Porto e arredores. A água mais dura foi a do rio Douro, acima de Arnelas, em tempo seco, com o valor 17 graus franceses. No lado oposto, a água mais macia foi a do rio Sousa, com 1,7 graus franceses em período seco e 1,1 graus franceses depois de algumas chuvas. As amostras recolhidas em fontes, chafarizes e mananciais do Porto e de Vila Nova de Gaia apresentaram valores entre 3 e 12 graus franceses, aceitáveis na água para beber. Os dados recolhidos levaram Gavand a afirmar que a água do rio Sousa era, de todas, a mais pura, e suficientemente abundante para fornecer 100 litros de água por habitante até que a população da cidade atingisse os 1 300 000 de habitantes.
Segundo o projeto apresentado, a água captada seria elevada, por meio de bombas acionadas por vapor produzido em caldeira a carvão, para o alto do monte que ficava ao lado e a uma cota 30 metros superior ao ponto mais alto do Porto. Neste ponto seriam construídos os reservatórios e as bacias filtrantes. Dali as águas desceriam, por meio de dois tubos de ferro fundido para um reservatório colocado no Monte das Antas, que não era o ponto mais alto da cidade, o cume dos Congregados, pico onde não era possível construir nada com a grandeza de um reservatório para água. Do Monte das Antas partiriam dois tubos: um alimentaria a parte alta da cidade, e o outro serviria dois reservatórios que se localizariam no Campo dos Mártires da Liberdade e nas Fontainhas; deste partiria a rede que alimentaria todas as ruas e todos os andares das casas da área principal da cidade. A rede de distribuição seria feita por “canos mestres” que partiriam dos reservatórios percorrendo as ruas principais e se dividiriam em ramais que conduziriam a água às ruas secundarias. Nos ramais colocar-se-iam tubos em ferro fundido e tubos de chumbo, que serviriam os “marcos fontenários, postos de rega, bocas debaixo dos passeios para lavagem das ruas e bocas para incêndio”.


Figura 2 – Aspeto do açude do rio Sousa que foi construído para reter a água que foi, durante 98 anos enviada para o Porto para servir os seus habitantes.

Elaborado o provável orçamento, que atingia o valor pouco superior a oitocentos  contos de reis, Gavand apresentou, em 6 de março de 1864, ao Presidente da Câmara Municipal do Porto, o Visconde de Lagoaça, uma proposta para a criação de uma empresa para abastecimento de água potável à cidade que na qual se admitia, entre outras, assumir a obrigação de dar início ao abastecimento de 9.000 metros cúbicos de água à cidade que perfariam os 10.000 metros cúbicos com a água tradicionalmente fornecida pelos mananciais e minas que alimentavam, em 1864, 61 fontes e chafarizes[8], aumentando a capacidade de abastecimento proporcionalmente ao incremento da população. Estaria também obrigado a filtrar a água do rio Sousa por meio de aparelhos, cujos desenhos seriam submetidos à aprovação da Câmara, a construir duas fontes monumentais, e a dar água a todas as casas e em todos os andares de cada casa, sem custos para os seus proprietários. Para compensar os compromissos assumidos, Gavand solicitava à Câmara compensações que incluíam uma garantia de juro de 5 ½ %. Este juro seria de 6% se tivesse que realizar a planta e o nivelamento da cidade, não existentes naquela data. Reclamava também a posse de todas as fontes e nascentes pertencentes à cidade, a cedência, sem indemnização, dos terrenos necessários para a distribuição, e o pagamento dos equipamentos e construções que deixaria para a Câmara no termo do prazo de concessão.
A Câmara não demorou na resposta, que aconteceu vinte e dois dias depois da entrada da proposta. Na carta - resposta, depois dos elogios do costume, a Câmara declarava, com o maior sentimento, “que não cabe nas suas atribuições meramente administrativas aceitar as bases da propostas de V. S.ª, por isso que abrangem pontos tão complexos, e que tão diretamente intendem com a administração geral do Estado, que só com a cooperação, dificílima de conseguir, dos Poderes Públicos, se poderia com muito custo aproveitar dos resultados do estudo de V. S.ª”. Gavand ainda se esforçou por rebater os argumentos da Câmara defendendo a sua proposta, mas a verdade é que ela foi enterrada sem dó nem piedade a 28 de março de 1846.
Foi, em 1880, que António Pinto de Magalhães Aguiar, após assumir as rédeas da Câmara Municipal do Porto, decidiu pôr em adjudicação pública o abastecimento de água à cidade. Feito o concurso internacional, apenas se apresentou a “Compagnie Générale des Eaux pour l’Étranger“, que a designaremos, como mais tarde passou a ser conhecida por COMPANHIA, a quem foi cedida a concessão. Em 22 de Março de 1882, é assinado o contrato com aquela companhia, aprovado, em 27 de julho do mesmo ano, por Carta de Lei que concedia à cidade do Porto a água dos Rios Sousa e Ferreira. Este contrato, válido por 99 anos, estendeu-se a Matosinhos no princípio do século XX.
As condições do contrato distribuíam-se por 29 cláusulas entre as quais se obrigava a companhia a abastecer de água potável a cidade do Porto à sua custa e por sua conta e risco, devendo fornecer inicialmente 10.000 metros cúbicos por dia, aumentando este caudal proporcionalmente ao crescimento da população de modo a garantir sempre cem litros por habitante e por dia. A companhia era obrigada a fazer nas ruas, largos e praças as obras necessárias para a canalização e distribuição geral[9] e a construir uma fonte monumental na Praça Voluntários da Rainha, hoje Gomes Teixeira. Na realidade, esta fonte não tinha apenas funções ornamentais – servia de meio regulador da pressão, reduzindo-a, para evitar elevadas pressões nas zonas mais baixas da cidade que podiam provocar o rebentamento da canalização. Além disso, dali partiria um cano para o reservatório do Monte de Sobreiros, hoje Pasteleira, que forneceria a estrada marginal, Foz e Matosinhos.
Os trabalhos começaram em março de 1884 e a obra concluiu-se em maio de 1886, chegando a água do rio Sousa ao Porto em junho de 1886. A regularização do abastecimento apenas começou em 1 janeiro de 1887. A captação, filtração e elevação eram executadas no estabelecimento que a Companhia construiu na margem direita do rio Sousa, designado por “Central do Sousa”. Desta Central a água era elevada para o Túnel - Reservatório de Jovim, seguindo daqui em tubo na extensão de 12 quilómetros até ao reservatório geral de Santo Isidro, do qual se fazia a distribuição de água à cidade. Estes elementos eram devidamente ligados por mais de 70 km de tubagens. Devido à sua localização, aquela central foi fragilizada pelas cheias  que reduziam a sua capacidade de captação. Durante 98 anos forneceu água ao Porto, tendo sido encerrada, em 1985, quando do arranque da captação de Lever. Apesar de tudo, especialmente do seu abandono, a Central foi classificada como Monumento de Interesse Público pela Portaria n.º 268/2010 de 19 de abril.


Figura 3 – Edifício da Central do Sousa, abandonado nos nossos dias. Felizmente, foram chapeadas as portas e janelas do edifício. O vandalismo vinha destruindo um tesouro da história do abastecimento de água à cidade do Porto.

Para conhecer a obra concretizada pela Companhia, aconselhamos a leitura das páginas 80 a 116 do livro publicado, em 2001, pelos Serviços Municipalizados de Águas e Saneamento do Porto, da autoria de Alexandra Agra Amorim e João Neves Pinto e com o título “Porto d’agoa”. É uma bela e completa descrição daquilo que foi feito, muito bem documentada. A capa do Porto d’agoa (fig. 4) é um bom retrato da luta que o povo do Porto travou para ter água abundante e de melhor qualidade: os rostos graníticos dos trabalhadores opõem-se ao ar feliz e cheio de esperança da criança que parece querer dizer: o cano é nosso e vai ter água.


Figura 4 - A capa da obra Porto d’agoa, de Alexandra Amorim e João Neves.

Ferreira da Silva[10] reproduz a exposição de Francisco D’Azeredo inserida no Relatórios da Exposição Industrial Portuguesa em 1891 no Palácio de Crystal portuense, Lisboa, 1893: 269-276. Desta interessantíssima descrição adiantamos um resumo. O Estabelecimento Hidráulico do Rio Sousa ocupava um pouco menos de um hectare e meio, onde se encontrava o açude com 41 metros e 50 centímetros acima da linha das cheias, o canal de descargas com comportas, quatro filtros de areia estabelecidos no próprio leito do rio, a oficina hidráulica onde se encontravam as bombas de elevação, válvulas e adufas e tubagem para as diversas manobras da água, e uma oficina de manutenção.


Figura 5 - Planta do estabelecimento hidráulico: açude, filtros, casa das máquinas, canal de descarga, residência do Diretor. Fonte: Ferreira da Silva, 1911.


Figura 6 - Planta da antiga Central de Captação de Água da Foz do Sousa, desenhada pelo Instituto Português do Património Arquitetónico e Arqueológico, descarregada em 18/3/2018 de https://goo.gl/mTTrV7.



Os quatro filtros de areia, agrupados dois a dois, destinavam-se exclusivamente a clarificar a água. Eles eram constituídos por quatro camadas de cascalho grosso e miúdo, e areia grossa e fina. A altura total do meio filtrante era de 60 centímetros, tendo a camada filtrante superior, a de areia fina, 20 centímetros. A superfície total de filtração era de 1.180 metros quadrados que, para o caudal máximo de 15.500 metros cúbicos por dia, correspondia à velocidade de filtração de 13 metros por dia. Para a lavagem do filtro, introduzia-se a água do rio diretamente na galeria filtrante, fazendo com que a água atravessasse de baixo para cima o meio filtrante, arrastando o material que tinha ficado retido no filtro. Tratava-se, pois, de uma lavagem em contracorrente.


Figura 7 - Estabelecimento hidráulico na margem direita do rio Sousa (corte junto à entrada da casa das máquinas, mostrando as galerias filtrantes, os filtros, as grades de resguardo da água que alimentava as turbinas e o começo do açude, onde está uma adufa). Fonte: Ferreira da Silva, 2011.


Figura 8 – Eis o que resta dos filtros da Central do Sousa.

Para elevação da água, a oficina hidráulica estava preparada para receber quatro grupo de duas bombas Girard acionadas por três turbinas Mahler de 100 cavalos cada, ou por quatro máquinas a vapor horizontais de 85 cavalos cada. Assim, em grande parte do ano apenas consumiam energia hidráulica produzida no próprio local, como já o tinha previsto Gavand vinte anos antes. Com a potência total instalada, 640 cavalos, a instalação tinha capacidade para elevar 12.500 metros cúbicos por dia. Todavia, a Companhia, com o acordo da Câmara Municipal, apenas montou, na primeira fase, três turbinas e duas máquinas a vapor, comprometendo seriamente o pleno fornecimento de água no período em que a cidade mais dela necessitava – o verão. Para reforço e para funcionar nas épocas de cheia, a Companhia instalou, em 1908, um motor de gás pobre de 110 cavalos construído pela casa francesa Cail, colocando-o sobre uma plataforma, dois metros acima da oficina hidráulica. O gás era produzido por um gasogénio Lencauchez, e conduzido para um gasómetro de 100 metros cúbicos. O motor acionava uma bomba Gyrard da mesma casa Cail. A capacidade de elevação deste novo equipamento era de 3.500 metros cúbicos por dia.


Figura 9 – O cano de elevação da água para o túnel de Jovim à saída do edifício da Central.

A água aspirada das galerias filtrantes, depois de passar por duas câmaras de ar para amortecimento dos golpes de aríete, era elevada à cota de 140 metros num percurso de 1.197 metros, sobre o monte de Jovim. Como esta cota estava 33 metros abaixo da cumeada, a montanha foi atravessada por um túnel de 483 metros de extensão que funcionava como primeiro reservatório de distribuição, com capacidade para armazenar 6.500 metros cúbicos de água. Deste reservatório saía o cano de ferro com 60 centímetros de diâmetro que conduzia a água para o Reservatório de Santo Isidro (fig. 10), no Porto. A canalização passava pela estrada de S. Cosme do Porto e entrava na cidade pelo fundo da rua do Freixo. Seguia por esta rua, pelas ruas do Heroísmo, S. Jerónimo (desde 1913, Santos Pousada) e Moreira, até entrar no reservatório geral de Santo Isidro, com capacidade para 9.100 metros cúbicos, à cota de 125 metros.


Figura 10 - Reservatório de Santo Isidro, que recebia a água vinda de Jovim. Fonte: Ferreira da Silva, 2011.

Para servir a parte alta da cidade foi construído, à cota de 160,8 metros, o reservatório dos Congregados (fig. 12), com 3.940 metros cúbicos de capacidade, que recebia a água de Santo Isidro impulsionada por meio de bombas aspirantes - prementes movidas por uma máquina a vapor horizontal de expansão e condensação com a potência de 25 cavalos. A zona média era servida pelo reservatório de Santo Isidro. Este podia também servir a zona baixa, mas, para prevenir pressões elevadas na rede, a água era derivada para o reservatório da Foz ou da Pasteleira, com a capacidade de 4.500 metros cúbicos, retornando parte da água à cidade baixa. Entre os dois reservatórios construiu-se a Fonte Monumental da Praça dos Voluntários da Rainha (atual Almeida Garrett), conhecida nos nossos dias por Fonte dos Leões. A fonte tem um tanque octogonal de granito com um pilar central com duas taças, tudo em bronze, caindo a água da taça superior para a inferior e desta para o tanque, provocando o seu arejamento. Quatro leões alados em bronze guardam a fonte, dando a entender que querem garantir a pureza da água. Era desta fonte que se fazia a tomada de água para a Foz, com tubagem de 25 centímetros.


Figura 11 - A Fonte Monumental da Praça dos Voluntários da Rainha, popularmente dos Leões.

Em 1891, a rede de canalizações era de 90 quilómetros, tendo aumentado, em 1911, para cerca de 111 quilómetros. Entretanto, em 1901 e 1902, a Companhia estendeu a sua rede para Matosinhos e Leça a partir da Foz numa extensão de 5.500 metros. O molhe sul do Porto de Leixões também era servido por um ramal com vista à alimentação dos navios.

Figura 12 - Reservatório dos Congregados. Fonte: Ferreira da Silva, 2011.

O contrato feito entre a Câmara Municipal do Porto e a Companhia tinha muitos buracos, como tem acontecido nos últimos anos em situações semelhantes em contratos equivalentes assinados por muitos municípios[11]. Conhecendo-os muito bem, a companhia não cumpria o clausulado, em prejuízo da cidade, apesar de inúmeras multas e ações que a Câmara aplicou para a obrigar a cumprir o clausulado. Por exemplo, em 1900, o consumo diário de água na cidade era ainda de 18 litros por habitante (Maia, 2000), muito menos do que estava estipulado, e muito longe da capitação diária da de Paris, 300 litros, Marselha, 500 litros, Washington, 700 litros, Grenoble e Roma, 1.000 litros (Lobo das Neves, 1903). Recorrendo ao censo provável de 1902, Lobo das Neves[12] regista a capitação de 23,3 litros por dia. Nesse ano, a Companhia forneceu uma média diária de 4.126 metros cúbicos de água, uma boa parte (cerca de 32% nos meses de verão) consumida pelo Município para regas, limpezas, etc.. O aumento da capitação de 1900 para 1902 foi justificado por Lobo das Neves pela abertura de dois balneários públicos, que, segundo o autor, deviam ser instalados mais estabelecimentos desse tipo, servindo de preferência os bairros pobres, os bairros operários. Apelos deste tipo foram feitos por higienistas a partir do início do século XIX, entre os quais se destaca a ação do filantropo escocês William Harley que abriu, em Glasgow, balneários públicos e quatro piscinas[13].
Em 1909, a capacidade para fornecimento de água rondava os 6.500 metros cúbicos contra os 18.000 metros cúbicos que deviam ser fornecidos se o contrato estivesse a ser cumprido. Os baixos caudais de água deviam-se a falta de capacidade do equipamento instalado, deficiente manutenção, e interrupções nas épocas das cheias dos rios Sousa e Douro porque a estação elevatória ficava submersa. Além disso, e por falta de pressão, algumas zonas da cidade, como a Foz, Antas e Monte Aventino, a água escasseava quase por completo.
Mas os problemas do abastecimento não se deviam apenas à quantidade. Bem mais grave era a falta de qualidade, particularmente sob o ponto de vista bacteriológico. Quando Gavand caracterizou a água do rio Sousa; fê-lo de acordo com os conhecimentos da época que se baseavam exclusivamente na análise química. Ferreira da Silva, em 1891, a pedido do Município, confirmou aqueles resultados, considerando que a água “era tão boa e tão própria para as necessidades domésticas e industriais”. Como o Laboratório Municipal de Bacteriologia apenas foi criado em 1888, a análise bacteriológica de água na cidade do Porto apenas começou a ser feita nos últimos anos da década de 1890. Refira-se que foi, em 1891, que Miquel publicou a primeira classificação da qualidade da água com base na “contagem de bactérias totais”. Só em 1907, após segura confirmação em centenas de análises, o Professor Sousa Júnior tornou pública a má qualidade da água do rio Sousa, desde a captação até à torneira do consumidor. Considerava que a saúde pública da cidade não estava devidamente protegida e que era necessário que a água devia ser bem filtrada para que ela não oferecesse perigos a quem a bebesse. Pena que os conhecimentos técnicos na cidade, quiçá no pais, não estivessem atualizados porque a desinfeção da água já era bem conhecida. Koch estudou, em 1882, a ação dos desinfetantes e anti-sépticos em culturas e Calmette descobriu, em 1892, que o bacilo de Koch era destruído pela água de Javel (Beleza, 2014). O primeiro tratamento sistemático com hipoclorito de sódio foi, em 1897, o da água distribuída a Maidstone, Kent (EUA), na sequência de uma epidemia de febre tifóide. Estas experiências e aplicações desenvolveram-se em Inglaterra, França, Alemanha e Estados Unidos da América. Obviamente que esta aplicação teve inúmeros opositores, como hoje ainda tem, que culminou numa ação judicial imposta, em 1908, contra esta aplicação no Tribunal de New Jersey. Este tribunal reconheceu que a desinfeção com “cloreto de cal” era uma medida comprovadamente eficaz na proteção da saúde pública. Estava dado o pontapé de saída para a rápida expansão da desinfeção à base de cloro.
Ferreira da Silva, 1911, continuava a defender a pureza química da água do Rio Sousa, sublinhando que os reparos se deviam apenas à análise bacteriológica. A contagem do total de microrganismos cultiváveis oscilava, em termos médios, entre 100 e 150 bactérias por centímetro cúbico (100 a 150 UFC/mL), considerado, na época, como aceitável. O mal viria do título coli - bacilar, variável de 100 cm3 a 0,1 cm3, com a média geral de 1 cm3 a 10 cm3, valor elevado e intolerável, cuja responsabilidade não se devia, admitia Ferreira da Silva, a contaminação fecal. Diga-se a propósito que, face aos critérios atuais, a água seria classificada como imprópria para consumo humano. O autor considerava que o principal ponto negativo da água se prendia com a coloração amarelada devido ao ataque ao ferro dos canos. Para Ferreira da Silva, higienicamente a coloração não tinha grande significado, embora esteticamente a água fosse rejeitada. Situações mais graves ocorriam com contaminações da água do rio devido ao lançamento de líquidos da maceração do linho e da lavagem de minérios, indústrias que abundavam nos concelhos de Gondomar e Valongo, lembrando a imperiosa necessidade de as autoridades fiscalizarem os rios para garantirem a proteção das captações de água destinada a consumo humano.
Ferreira da Silva lembrou o testemunho de Ricardo Jorge publicado, em 1897, na forma de artigos no Primeiro de Janeiro e no Comercio do Porto[14]. Aquele eminente médico visitou, a captação do rio Sousa e teve a infelicidade de ver o rio com “águas turvas, lodosas e mal assombradas; já não é o límpido Sousa, é o Douro do cais da alfândega nos seus piores dias; parece enxurrada de barrocal em dia de catarata. O rio irmão, o Ferreira, mantém, para contraste, a clareza, mas a confluência tolda-se na mesma sujidade”. A causa residia das descargas da lavagem do minério aurífero de uma exploração mineira instalada a três quilómetros a montante da captação. O estudo laboratorial da contaminação demonstrou que o mal não era sanitariamente tão importante, mas o despejo sem o adequado tratamento devia ser proibido, conforme constava nos códigos civil e penal em vigor, e nos regulamentos dos Serviços Hidráulicos publicados em 2 de outubro de 1886, no Regulamento dos Serviços Agrícolas de 20 de abril de 1893. Apelava Ricardo Jorge que fossem tomadas as medidas necessárias para que situações daquele tipo não se repetissem. Este apelo foi seguido pelo presidente do município, Conselheiro José Novaes, que declarou: “Um rio que serve para abastecimento de uma cidade não pôde ser o despejadouro das minas; acima dos interesses de uma empresa mineira estão os de milhares de cidadãos. Esta questão é, acima de tudo e primeiro que tudo, uma questão de higiene a que outras tem fatalmente, em boa razão, de se subordinar. As leis do país, e o nosso código civil, são expressos em não consentir a exploração de minas com prejuízos de terceiros”.
Como Diretor do Laboratório Chimico Municipal, Ferreira da Silva enviou um documento à Câmara Municipal no qual relatava os ensaios realizados a quatro amostras de água do rio, uma colhida por Ricardo Jorge a três quilómetros a jusante das Minas de Covelo e próximo da captação da água do rio Sousa; a segunda, numa visita de inspeção, colhida dez dias depois da primeira por Ferreira da Silva, que era acompanhado pelo Vice – Presidente da Câmara e pelo Engenheiro Fiscal da Águas, Izidoro Ferreira. Nesta visita, foram recolhidas mais duas amostras, uma a montante das Minas de Covelo e outra no rio Ferreira. No relatório resultante dos ensaios concluía-se que a descarga em causa depreciava a água “na sua pureza e qualidades higiénicas, manifestadas particularmente pela falta de limpeza e de transparência”. Ricardo Jorge, com base nas conclusões de Ferreira da Silva, enviou o seu relatório onde insistia na necessidade de serem tomadas medidas que garantissem a proteção da captação, como, aliás, já tinha sido pedido por Ferreira da Silva, em 1887, e por ele próprio em 1894. Exigia, ainda, que a mina em causa tratasse a sua água antes de a lançar ao rio Sousa. O Governo nomeou, então, uma Comissão de Inquérito que concluiu pela necessidade de fazer cumprir a lei nomeando-se, “para já”, o pessoal indispensável para a fiscalização dos rios Sousa e Ferreira. Como consequência, o Ministério das Obras Públicas, Comércio e Indústria modificou os artigos 219º e 231º do Regulamento dos Serviços Hidráulicos adaptando-os às novas exigências da sociedade.
O contrato assinado entre o Município e a Companhia não salvaguardava,  convenientemente, a garantia da qualidade da água face aos novos conhecimentos alcançados e ao desenvolvimento de novas tecnologias. Por exemplo, o contrato previa que “a companhia empregaria os meios convenientes e indispensáveis para que as águas, que circulam nos casos de distribuição, nunca sejam turvas nem insalubres”. Sem quantificação, a noção de água turva é muito vaga. O termo insalubre não incluiria, em 1882, considerações ligadas à qualidade microbiológica da água. Estas insuficiências viravam-se sempre a favor da Companhia em qualquer Tribunal, apesar dos protestos de conceituados microbiologistas, entre os quais o Diretor do Laboratório de Bacteriologia do Porto, Sousa Júnior, da imprensa e do povo que continuava a preferir a água das fontes, poços e minas. Alberto d’Aguiar[15] participou, como perito, no Tribunal Arbitral numa causa em que estava em jogo a qualidade da água fornecida pela Companhia. Do seu voto depreende-se facilmente que a sua posição era a de defesa dos interesses da Companhia. Segundo  d’Aguiar, a água de abastecimento devia ser caracterizada com base nos princípios aceites pelos sanitaristas em 1910 que, para além do exame topográfico e hidrogeológico do local de origem da água, consideravam como essenciais o exame físico (condutividade, limpidez, temperatura, temperatura, sabor e cheiro da água), o exame químico (resíduo seco, cloretos, sulfatos, sais calcários, matéria orgânica e compostos azotados), e o exame bacteriológico dedicado à pesquisa de agentes patogénicos (tifo, cólera, etc.), contagem total de bactérias cultiváveis a 20 ºC, e determinação dos títulos termofílico e coli - bacilar.
Na sua exposição, d’Aguiar recorre aos trabalhos de eminentes médicos e químicos como Adriano Fontes, Arantes Pereira, Annibal Bettencourt, Sousa Júnior e Ricardo Jorge para demonstrar que a água distribuída pela Companhia era “boa, COMO ÁGUA NÃO FILTRADA”. Alberto d’Aguiar procurava transferir para a Câmara Municipal os maus resultados bacteriológicos conhecidos dado que tinha sido ela que aprovara o tipo de filtros instalados. Insistia ele que não podia “ser mais completa a demonstração de que a água sofreu inocentemente por causa dos filtros; e que estes foram criticados por não serem filtros perfeitos, depuradores bacteriológicos, quando eles nunca foram mais (porque nem a mais se obrigou a Companhia), do que simples auxiliares da depuração mecânica da água, confiada em grande parte à deposição no túnel de Jovim”. Reconhecendo que o tratamento de água instalado não estava preparado para combater a presença de microrganismos, aspeto que não era, segundo ele, da responsabilidade da companhia, o autor desvalorizava os maus resultados dos exames bacteriológicos lembrando que entre os bacteriologistas existiam dúvidas na classificação da água em boa ou má de acordo com o título coli - bacilar. Como resumo da sua opinião, é bastante esclarecedora a seguinte frase: “é por isso que, ainda aceitando o titulo de 1 cm3, encontrado algumas vezes na agua do rio Sousa, nada se pôde provar contra a sua pureza”. Na sua exposição, d’Aguiar, sentenciou que, “a despeito de insuficientemente depurada, a água pode ainda hoje ser tida como salubre e utilizar-se, sem receio algum pela saúde dos seus consumidores”.
Para além do Prof. Alberto d’Aguiar, a Companhia recorreu a outras eminências para defender os seus pontos de vista e, sobretudo, a qualidade da água, como aconteceu com A Fernbach, lente da Faculdade de Ciências da Universidade de Paris, e Joaquim Arantes de Azevedo, Diretor do Instituto Pasteur do Porto. Ambos atestaram a boa qualidade da água, mas Fernbach, numa memória crítica aos relatórios apresentados pela CMP à Companhia sobre as análises químicas e bacteriológicas das águas do rio Sousa, em abril e junho de 1907, vai muito mais longe, tendo afirmado, depois de apreciar os elementos que lhe foram fornecidos, que: “as águas do rio Sousa têm uma grande pureza, comparável pelo menos á das aguas mais puras empregadas para o consumo das grandes cidades”.
Estranha-se que, em 1910, não fosse conhecida nos meios académicos e entre os técnicos da Companhia a técnica da desinfeção que tinha dado os primeiros passos na primeira década do século XX. Pior do que isso, foi necessário esperar até ao dia 7 de maio de 1937 para se iniciar a desinfeção da água de abastecimento à cidade do Porto. O pontapé de saída para esta melhoria foi dada pelo Professor de Higiene da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto Almeida Garrett, imediatamente apoiado pelo também professor de medicina Alfredo de Magalhães, em boa hora Presidente da CMP e pelo seu sucessor, em 23 de maio de 1936, António Mendes Correia, professor de Antropologia da Faculdade de Ciências. O estudo e aplicação do processo de desinfeção foi realizado por uma Comissão com técnicos da Junta Sanitária de Águas da Direção Geral de Saúde, presidida por Carlos Furtado e acompanhado por Agnelo Prazeres e Bernardino de Pinho que escreveu o relatório do trabalho desenvolvido[16]. A comissão foi apoiada laboratorialmente pelo professor da Faculdade de Farmácia Carlos Ramalhão.
Bernardino Pinho reconheceu que a filtração da água na Central do Sousa era precária e que a água era suspeita de inquinação pelo seu baixo título coli - bacilar chegava a ser de 0,01 cm3 e que não ia a mais do 5 cm3. Como a necessidade da desinfeção era mais do que evidente, foi decidido aplicar um derivado do cloro no Túnel – Reservatório de Jovim. Receando o desenvolvimento de maus cheiros devido à reação entre o cloro e os poluentes orgânicos presentes nas águas residuais que eram lançadas nos rios Ferreira e Sousa a montante da captação, optou-se por complementar a desinfeção com a adição de cloreto de amónio antes da adição do derivado do cloro, no caso caporite (hipoclorito de cálcio com o equivalente a 70% de cloro), produzindo-se, assim, cloraminas substâncias mais persistentes e menos reativas com os compostos orgânicos. Nos reservatórios de Nova Sintra e de Santo Isidro foram instalados tanques para o doseamento de bissulfito de sódio para reduzir o excesso de cloro. Passados os ensaios laboratoriais, e construído e instalado o equipamento de doseamento dos produtos, deu-se início à desinfeção da água no dia 7 de maio de 1937. A chegada da água desinfetada aos reservatórios da cidade foi verificada e registada às sete horas desse dia, tendo-se então iniciado o doseamento do bissulfito. O processo não mais parou, tendo, então, ficado como técnico da estação de tratamento o Capitão Farmacêutico José Augusto Fernandes. Atendendo a que, entre 19 de maio e 22 de dezembro, de 150 amostras ensaiadas 19 revelaram a presença de bacilos do grupo coli, foi decidido, 29 de dezembro 1937, interromper a adição do sal de amónio e do bissulfito de sódio, e aumentar a dosagem de cloro de 0,30 para 0,35 mg/L. Nos seis primeiros meses de 1938, de 165 amostras recolhidas, apenas em seis amostras se encontraram bacilos do grupo coli. Este processo foi também responsável pela criação do laboratório dos SMAS dada a necessidade de se fazer permanentemente o controlo das condições de desinfeção.
Apesar de todas as diligências da Câmara, a qualidade do serviço prestado pela Companhia não apresentava melhorias. No relatório que precedeu o Anuário da Câmara Municipal do Porto de 1924 a questão das águas era considerado um magno problema que estava fora da alçada municipal. Todavia, a pressão que a Câmara vinha exercendo fez com que a situação tenha melhorado e a atividade da Companhia tenha sido superior à de muitos anos anteriores, esperando que, com um conjunto de investimentos realizados, a Companhia venha a aumentar a capacidade de abastecimento de 10.000 metros cúbicos para 12.000 metros cúbicos. Deviam, também, ser instalados mais onze marcos fontanários para atingir o número contratual de 60.


CONTINUA....




[1] Alves, J., 2005, Águas do Douro e Paiva SA – Dez anos, 1995 >2005, Águas do Douro e Paiva, Porto.
[2] Amorim, A. A., Pinto, J. N., 2001, Porto d’Ágoa, Serviços Municipalizados de Água e Saneamento Porto.
[3] Marçal, H.,  1968, O abastecimento de água à cidade do Porto e à vila de Matosinhos, Separata do Boletim da Biblioteca Pública Municipal de Matosinhos, n.º 15.
[4] Gavand, E. H., 1864, Estudo sobre o abastecimento d’água da cidade do Porto, Typographia Commercial, Porto.
[5] O Tünel de Constantinopla foi construído por um pelo engenheiro francês de nome Eugène-Henri Gavand, após um processo muito semelhante ao que se passou com a proposta de abastecimento de água ao Porto. É uma linha ferroviária subterrânea em Istambul, Turquia, que liga duas estações, uma em Karaköy, perto da embocadura do Corno de Ouro e da Ponte de Gálata, e a outra no alto da colina de Beyoğlu, junto à Torre de Gálata. Foi inaugurado em 17 de janeiro de 1875. É considerado o segundo metropolitano em serviço do mundo. Não nos foi possível verificar se este Gavand é o mesmo que desejou abastecer o Porto com água do Sousa. Esperamos vir a fazê-lo, eventualmente com a ajuda de algum leitor.
[6] Maia, J., 2000, Transição epidemiológica, infra-estruturas urbanas e desenvolvimento: a cidade do Porto, Análise Social, vol. XXXV: 583-604.
[7] Barbon, F, F., 1864, Elucidário do viajante ao Porto, editado por Jacintho António Pinto da Silva, Porto.
[8] Segundo o Anuário Estatístico da Câmara Municipal do Porto de 1892, citado por Ferreira da Silva, 1911, as fontes públicas produziam 1326 metros cúbicos por dia de água.
[9] Teixeira de Castro, A., 1926, Monografia da cidade do Pôrto, Oficinas da Secção de Publicidade do Museu Comercial, Lisboa.
[10] Ferreira da Silva, 1911, As águas do novo abastecimento do Porto, Revista de Chimica Pura e Applicada, Série 1, Ano 7, n.º 7: 177 – 199.
[11] As lições da história são desconhecidas por muitos autarcas. Que benefícios se colhem concedendo a captação, tratamento e distribuição de água a companhias privadas? Talvez apenas colham malefícios.
[12] Lobo das Neves, A., 1903, Varíola no Porto – 1893 – 1903, Dissertação Inaugural apresentada à Escola Médico-Cirúrgica do Porto, Typographia Occidental, Porto.
[13] Beleza, V. M., 2014, História das piscinas e das suas condições sanitárias, Osminergia, Lda, Porto.
[14] A Revista de Chimica Pura e Applicada, I Série, 6º ano, n.ºs 8, 9 e 10, transcreveu, nas páginas 279 a 289, um conjunto de artigos sob o título “As águas do novo abastecimento do Porto (como se trabalhou para a sua defesa em 1896)”
[15] Aguiar, A., 1910, O que se deve pensar acerca da água do novo abastecimento do Porto e das condições em que é filtrada, Revista de Chimica Pura e Applicada, Série I, Anno 3, Março.
[16] Pinho, B., 1938, A purificação da água de abastecimento da cidade do Porto, Junta Sanitária de Águas da Direção Geral de Saúde, Lisboa.

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

parte IX


O Jardim da Arca d’Água, na Praça 9 de Abril, foi inaugurado em 1928 e deve o seu nome às 3 nascentes de Paranhos (Arca d’Água) que foram o sustento de muitas fontes e chafarizes do Porto, até finais do século XIX. Apresentava então um lago e uma imponente gruta. Na altura da sua inauguração foram plantadas uma centena de plátanos a delimitar as largas alamedas laterais. Desde então, foram efetuadas alterações na sua composição para melhor adaptação aos seus utilizadores. Em 1972, foi inaugurada a escultura de Charters d’Almeida intitulada “A Família”.


Figura 1 – A escultura “A Família” de Charters d’Almeida

O Manancial de Paranhos, conhecido, pelo menos, desde 1120[1], foi, e ainda o é, o mais importante do Porto. Para Bourbon e Noronha, dos sete mananciais da cidade era o único que merecia tal designação. Ele situava-se, bem como a arca fechada com porta e chave, num lugar há séculos conhecido como Arca de Água, na estrada que ia do Porto para Braga, ao quilómetro 3. No tempo de Adriano Fontes[2] chamava-se Largo da Arca d’Água, e era, para este autor, um lugar espaçoso, “aberto e inteiramente descurado e coberto pela vegetação do acaso; é mesmo notável que em tal recinto abundem porcarias de varias espécies, entre as quais sobressai uma grande quantidade de dejectos humanos mesmo junto à Arca. É neste campo que nos últimos anos a Câmara do Porto tem permitido a instalação da chamada Feira do S. Miguel”, que foi para ali transferida, vinda da rotunda da Boavista, em 1903 e aí se manteve até 1916 ou 1917[3]. O autor realçava assim a falta de cuidado que então existia em proteger as fontes de água de abastecimento público, aumentando consideravelmente os riscos da sua contaminação. Este mau princípio aconteceu ali, naquele Largo, como ao longo do percurso do aqueduto, detalhadamente descrito por Adriano Fontes, e nas outras áreas da cidade onde residiam os mananciais que davam de beber aos cidadãos do Porto.


Figura 2 – A entrada para a Arca d’Água, correspondente à parte do Manancial de Paranhos chamada Arca Nova (Adriano Fontes, 1908, pág. 46)

Figura 3 – O local onde se encontrava a edificação da figura 2 e foi substituída pela entrada coberta pela tampa que se vê nesta fotografia.

A abundância de água no manancial de Paranhos era bem conhecida no reinado de D. Sebastião. Como a falta de água na cidade era evidente, os cidadãos do Porto pediram ao Rei que autorizasse a canalização daquela água, para a qual o povo do Porto manteve a oferta de mil cruzados para as despesas da obra. D. Sebastião acedeu ao pedido, mas o Alvará perdeu-se no caminho de Lisboa para o Porto (Fontes, 1908). Apenas em 1579, durante o reinado de Filipe I, II de Castela, foi concedido o Alvará que ordenava a construção do aqueduto que devia levar a água das três fontes de Paranhos para a cidade do Porto. Era o cumprimento de um longo anseio do povo do Porto que se traduzia no título do Alvará de 20 de novembro de 1579: “que se traga a água de Paranhos”. A petição do povo foi acompanhada da oferta de mil cruzados para a ajuda da despesa. O Alvará determinava que os custos da obra fossem cobertos pelas receitas do Rendimento da Imposição do Vinho e do Sal, e dos Sobejos dos Crescimentos das Sisas[4]. A água de Paranhos chegou à cidade em 1607, mas a falta de qualidade do trabalho realizado obrigou a reparações em 1660, pelo que se considera que a obra apenas foi terminada em 1669. A falta de conservação do aqueduto era recorrente, levando o Padre Rebelo da Costa[5]  a escrever que ”bastaria o Manancial copiosíssimo da Freguesia de Paranhos para serviço de toda a Cidade, se a Câmara cuidasse na direcção do seu aqueduto que por ser irregular, roto e arruinado em muitas partes, e estar patente a quem quer extrair água para regar os seus jardins e hortas, segue-se que nos tempos chuvosos ela se converte em lama com gravíssimo prejuízo do Público”. Admitia este autor que era mais importante dedicar o orçamento da Câmara à manutenção do aqueduto do que à “abertura de novas e desnecessárias ruas”.

Figura 4 - As primeiras linhas do Alvará de 1579. Extraído de uma cópia fotográfica de Emílio Biel, reproduzida por A. Fontes, 1908, pág. 38.

A água do manancial rompia em borbotões em três fontes que se reuniam num “magnífico encanamento, largo, espaçoso e solidamente feito”[6], no fundo em duas arcas conhecidas por “Arca Nova” e “Arca Velha”, e daí abasteciam muitas fontes públicas e bastantes particulares. O caudal que daquelas arcas seguia para a cidade era, segundo Balthazar Guedes, de manilha e meia de água, correspondente a 244.224 litros por dia[7]. O Padre Balthazar Guedes foi responsável pela primeira descrição escrita do percurso do aqueduto que vinha para a cidade com água, exclusivamente, do manancial de Paranhos[8]. O encanamento tinha início na Arca seguindo a água até à estrada de Braga onde havia uma bica em pedra (Fonte da Arca) e onde foram construídos os lavadouros[9]. Dali, ele seguia, acima do solo ou em caleira apoiada em arcos, pelos sítios da Devesa do Agueto e do Amial, do lugar de Regado. Continuava seguindo pelo Monte Pedral e, atravessando diversos campos, chegava até à entrada de Cedofeita, um pouco acima do lugar do Ribeirinho. Passando por trás dos Ferradores, alcançava a Porta do Olival onde alimentava o Chafariz do Olival e fornecia três anéis às cadeias. Na Porta do Olival o aqueduto dividia-se em dois: um fornecia meio anel aos Padres Bentos como compensação do anel que de uma sua arca era integrado no aqueduto de Paranhos, e o outro chegava à travessa que ia para a do Ferraz, fornecendo aí três penas (30.528 litros por dia) ao Hospital de Roque Amador. Este aqueduto descia pelo Beco do Ferraz até à Rua das Flores onde se dividia em dois ramos: um dirigia-se para o chafariz que estava abaixo da Misericórdia; o segundo seguia para o Largo de São Domingos, Rua das Congostas e terminava na Fonte da Rua Nova, que também era conhecida pelo nome de Fonte de Paranhos.



Figura 5 - Plano topográfico de todos os caminhos, lugares e propriedades por onde passa o encanamento de água que vem da Arca de Paranhos ao novo Aqueduto de Salgueiros, e daí para a cidade (1826) (Fonte: Arquivo Municipal do Porto).

Figura 6 – Troço do primeiro aqueduto aberto no granito (Fonte: A. Fontes, 1908, pág. 51).

Como o primeiro aqueduto foi feito ao sabor dos interesses dos mestres pedreiros, a sua degradação foi-se tornando evidente, perdendo-se muita água e obrigando a reparações quase permanentes. Para reforçar o abastecimento de água à cidade, em 1790, iniciou-se a construção do aqueduto do Manancial de Salgueiros, com origem na atual Rua Antero de Quental, antiga Rua da Rainha, “junto da casa n.º 79” (Gomes Leite, 1836) que seguia em direção ao lado norte da Rua da Boavista. Em 1825, foi aprovado um novo encanamento para a água de Paranhos que devia incorporar-se ao de Salgueiros e daí seguir para a cidade. A reunião dos aquedutos de Salgueiros com o de Paranhos apenas ocorreu em 1838, data da conclusão da obra. A água seguia em caleiras em granito, em tubos de ferro ou de chumbo, em galerias enterradas e parte a descoberto, tendo este troço uma extensão de 1.300 metros. Ao aqueduto eram ainda acrescentadas águas de outras minas pertencentes a particulares que, por acordo com a Câmara, recebiam uma parte dela na residência que tinham na cidade.

Figura 7 – Pavimento da segunda mina de Paranhos, vendo-se as escorrências de infiltrações (letra O), a caleira de Paranhos (P) e uma pia de sedimentação (Fonte: Adriano Fontes, 1908, pág. 56).

Figura 8 – Cotovelo da mina da Rua da Rainha (Antero de Quental) (Fonte: A. Fontes, 1908, pág. 77).

A descrição do aqueduto de Paranhos feita, em 1836, por Gomes Leite é diferente da de Souza Reys devido às correções que foram feitas no seu percurso inicial. Mas a descrição mais completa e com o sentido de verificar as condições sanitárias da água foi feita, em 1908, por Adriano Fontes. A descrição feita corresponde ao caminho que ele tem agora, embora não possa ser percorrido como ele, e um dos autores deste blog o fez, devido à falta de segurança que o aqueduto oferece. Segundo aquele autor, reunidas as águas, elas são encaminhadas, num percurso de 744 metros (948 m, segundo Chaminé et al, 2010[10]), para a Rua Nova do Regado junto ao Matadouro Novo, onde hoje se encontram os serviços da Direção Municipal de Proteção Civil, Ambiente e Serviços Urbanos da CMP. Para aí chegar passa pelas Ruas do Vale Formoso e da Bica Velha. Na Rua Nova do Regado saíam dois canos: um para as Fontes do Matadouro (exterior e interior); o outro, de chumbo, seguia pelo sítio do Cónego Barreto para alimentar as Fontes de Nove de Julho e da Nataria. O aqueduto seguia então em direção aos campos, hoje totalmente ocupados por habitações, situados a norte da Rua da Boavista e a poente da Rua de Salgueiros, num percurso de 1288 metros. Parte do encontro das ruas de São Diniz e de Serpa Pinto, segue parte desta rua e dirige-se para o Monte Pedral. Neste trajeto alimenta a Fonte da Rua de Burgães, da qual diz Adriano Fontes “não há na repartição das águas a mais ligeira notícia”. Passando a rua que deu nome a esta fonte, atravessa a Rua do Melo e, nos terrenos que foram a Quinta das Beldroegas, junta-se ao Aqueduto de Salgueiros, muito próximo da atual estação de metro da Lapa. A reunião dos dois aquedutos ocorreu em 1892.

Figura 9 – Ponto de encontro dos aquedutos de Paranhos (P) e de Salgueiros (S): caleira de pedra de Paranhos (letras brancas CP), que termina na pia donde parte o cano de ferro (letras negras CP) que conduz apenas a água de Paranhos; caleira em telha de Salgueiros (letras brancas CS) desaguando na pia (ps), e seguindo em caleira de pedra; o cano de ferro que se vê à direita conduz a água à Fonte das Oliveiras (Fonte: A. Fontes, 1908, pág. 57).

Reunidos os aquedutos, as águas de Paranhos e de Salgueiros seguiam, misturadas, até à Arca de Sá de Noronha, onde chegou pela primeira vez em “7 de agosto de 1838 às 9 horas e 10 minutos da manhã”[11], num percurso da ordem dos 1.300 metros. Chaminé et al., 2010, consideram, para além da primeira secção até à rua Nova do Regado (948 m), a segunda secção desde esta rua até à rua dos Bragas (1817 m) e a terceira desde a rua dos Bragas até à Arca de Noronha, na Praça Gomes Teixeira (524 m), perfazendo o aqueduto um total de 3.289 metros. Mais tarde ligou-se à Arca do Anjo que se situava no Mercado do Anjo, junto à Igreja dos Clérigos, aberto em julho de 1839. Devido à diferença na qualidade das duas águas, Ricardo Jorge recomendou a sua separação, o que aconteceu em 1892 com a instalação de um tubo de ferro para a passagem da água de Paranhos.

Figura 10 – A Arca Sá de Noronha, em 2018, vista da Praça de Gomes Teixeira, popularmente conhecida como Praça dos Leões.

O aqueduto comum segue na direção da rua da Boavista, alimentando a Fonte do mesmo nome, entra nos terrenos onde existiu a quinta do Figueiroa, passa os terrenos que pertenceram à quinta de José Ribeiro Braga, e a Rua dos Bragas onde tinha uma derivação para alimentar um anel e meio (1.908 litros por dia) de água às Fontes da Rua de Cedofeita e do Campo Pequeno (Largo da Maternidade) e da Rua do Triunfo (D. Manuel) ou Torre da Marca. A partir desse ponto, o aqueduto sai para a Praça do Mirante e segue para a Rua das Oliveiras onde fornecia duas penas de água a José Braga e Irmã, três penas (3.816 litros por dia) a Manuel Araújo, e duas penas (2.544 litros por dia) ao Visconde de Balsemão. Alimenta ainda a Fonte das Oliveiras. Posteriormente, seguia pelo Largo do Moinho de Vento até à Praça de Santa Teresa onde fornecia água à Fonte da dita praça e quatro penas (5.088 litros por dia) de água para o Recolhimento do Anjo. Também recebiam água deste aqueduto a Fonte da Fábrica do Tabaco, cujas vertentes seguiam para as Carmelitas (duas penas, 2.544 litros por dia), para João Souto (meio anel, 636 litros por dia), Hospital Real de Santo António da Cordoaria (um anel e meio, 1908 litros por dia) e Convento das Carmelitas (meio anel, 636 litros por dia).

O aqueduto principal seguia, em 1836, até à Feira do Pão e Rua do Anjo onde existia uma divisão em dois ramos: um que abastecia a Fonte da Oliveira e a Arca de Sá de Noronha; no outro, a água seguia para as fontes da Praça de Santa Teresa e Rua dos Ferros Velhos. Daquela Arca partiam, a partir de 1839, dois canos que alimentavam o reservatório do mercado do Anjo, a Arca do Anjo, donde saíam vários tubos em chumbo, de entre os quais um primeiro descia a Rua dos Clérigos, Largo dos Lóios e acabava numa pia da Rua dos Caldeireiros. Da pia saíam dois tubos de ferro até à Rua das Flores, dirigindo-se um deles, de ferro, pela rua do Souto ao encontro da Rua de Mouzinho da Silveira para alimentar a bica poente da fonte com o nome daquela rua; o segundo tubo, de chumbo, acompanhava a rua das Flores, o lado poente do Largo de São Domingos e alimentava as duas bicas do Chafariz que aí existia. Dali, passava por São Crispim e Rua das Congostas, onde alimentava o seu Chafariz, terminando no Chafariz do Largo da Ribeira, onde chegou em 1891, substituindo a água do manancial de Malmajudas que foi destruído devido a uma derrocada da escarpa dos Guindais, deixando de abastecer as fontes que dele dependiam, entre as quais a fonte da Rua de São João. A pedido dos moradores da Ribeira, a Câmara mandou canalizar a água desde a Fonte de São Domingos até à Ribeira. Terminava aqui a longa caminhada da água de Paranhos e Salgueiros.

O segundo tubo com origem na Arca do Anjo passava pela Rua da Academia Politécnica, lado nascente do Jardim da Cordoaria, onde alimentava a sua Taça, e terminava numa pia enterrada e mal protegida, donde se abasteciam os Chafarizes do Olival e da Rua das Taipas, Torneira das Sardinheiras e Fonte do Mercado do Peixe, A Fonte do Reguinho ou da Rua Comércio do Porto e a de Miragaia. Deste ramo eram servidos alguns particulares, entre os quais se destacam os Clérigos Pobres, a Cadeia da Relação, Religiosos Beneditinos, Hospital da Cordoaria e Recolhimento do Anjo.

Figura 11 – Interior da Arca de Sá de Noronha, mostrando as pias onde caíam separadamente a água de Paranhos (P) e a de Salgueiros (S) (Fonte: A. Fontes, 1908, pág. 61).

Os dois mananciais forneciam dezanove fontes públicas, começando pela da Arca com os seus lavadouros que ficava muito próxima do manancial de Paranhos e ao lado da estrada que seguia para Braga. Desde a mina sudeste do Largo da Arca d’Água à Rua Costa e Almeida até à Arca do Anjo, onde se misturavam as águas de Paranhos e de Salgueiros, distam cerca de 3.500 metros. A Fonte da Praça da Ribeira era a última que recebia a água resultante da mistura dos dois mananciais.

A.      Fontes e Chafarizes que, a partir de 1892, recebiam, exclusivamente, água do Aqueduto de Paranhos:

·         A Fonte da Arca de Água, instalada na atual Praça 9 de Abril, próximo das nascentes de água do manancial de Paranhos. Em 1825, foi transferida para o lado ocidental da estrada de Braga. Junto a si estavam os lavadouros ainda existentes. A fonte apenas tinha uma bica em pedra rente ao solo. Esta situação levou a Junta de Freguesia de Paranhos, em 1846,  a apresentar, sem sucesso, uma reclamação numa sessão da Câmara.

Figura 12 - Fonte de Arca de Água (F) (Fonte: A. Fontes, 1908, pág. 64)

Figura 13 – Local onde esteve a Fonte de Arca d’Água e agora se encontra um lavadouro sem uso.

Figura 14 – Fonte de Burgães, situada na rua do mesmo nome (Fonte: A. Fontes, 1908, pág. 73).

·         No Matadouro Público de Paranhos foram instalados o Tanque - reservatório do Matadouro ou Tanque das Fressureiras, a Fonte Interior do Matadouro, colocada inicialmente no centro do pátio do matadouro, edificados, talvez, ao mesmo tempo que este estabelecimento, eventualmente, 1844 segundo a ata de 15 de Janeiro desse ano (Fontes, 1908). Este equipamento recebia a água diretamente do aqueduto. Para servir os habitantes da área foi construída a Fonte Exterior do Matadouro e Abegoaria, atualmente do Regado, com o seu tanque. Esta fonte, ainda existente, é monolítica e tem uma única bica.

Figura 15 – Fonte exterior do Matadouro, situada na Rua do Regado (Fonte: A. Fontes, pág. 65).

Figura 16 – Fonte do Regado, em Janeiro de 2018

Figura 17 – Fonte interior do Matadouro (Fonte: A. Fontes, pág. 66).


·         A Fonte da Rua da Bica Velha[12] foi construída em 1718, numa Travessa que ligava o Matadouro à Rua 9 de Julho. Era uma fonte de espaldar e com uma única bica. Dela restam os elementos decorativos que se podem ver no número 199 da Rua Freire de Andrade. Segundo Souza Reys, esta fonte estava sempre imunda porque servia para a lavagem dos miúdos dos bois abatidos no Matadouro Municipal que ficava próximo. Esta foi a razão para a sua transladação, em 1865,  para o lado sul da mesma rua. Como a mudança não resolveu o problema, ela foi desmantelada e reconstruída na Rua da Natária[13], em 1896, passando a chamar-se como Fonte da Natária porque estava nessa rua.

Figura 18 – Fonte da Natária (Fonte: A. Fontes, 1908, pág. 67)

·         A Fonte da Rua 9 de Julho, começou por se chamar do Cano ou do Carvalhido, mais tarde Falperra e finalmente da Rua 9 de Julho, foi instalada na parte nascente da citada rua de Falperra, antes de 1770 (Fontes, 1908). A fonte existia ainda em 1908.

Figura 19 – Fonte 9 de Julho, situada entra a rua deste nome (à esquerda) e a dos Arcos (à direita) (Fonte: A. Fontes, 1908, pág. 68).

A.      Fontes que usavam a mistura de água de Paranhos e Salgueiros mas que, depois de 1892, passaram a receber exclusivamente água do Aqueduto de Paranhos:

·         A Fonte da Rua da Boavista, situada no lado sul desta rua entre propriedades de particulares, terá sido construída entre 1816 e 1822. A fonte foi feita a pedido de Manuel Figueiroa Pinto, proprietário da Quinta de Santo Ovídio, que cedeu os terrenos para a abertura da Rua da Boavista e passagem do aqueduto de Paranhos e Salgueiros. Esta fonte tinha uma única bica que recebia a água de uma pia que se encontrava na traseira da frontaria. Adriano Fontes indignou-se pelo dístico inserido na fonte que informava ser a “Água Boa”, quando a sua contaminação no aqueduto que abastecia a fonte era evidente e como o demonstrou a análise bacteriológica.

Figura 20 – Fonte da Rua da Boavista (Fonte: A. Fonte, 1908, pág. 70).

·         A Fonte da Rua de Cedofeita, esteve localizado na rua que lhe deu o nome no prédio com o n.º 376, em frente da Rua da Torrinha, foi construída, em 1826, sob um arco de cantaria que tinha por cima uma casa particular ainda de pé. Ocupava uma área de terreno cedido por José Ribeiro Braga, proprietário de vastos terrenos naquela zona entre os quais a Quinta do Mirante, por troca de uma pena e meia de água (1968 litros por dia). Em 1893, foi reduzido o tamanho do tanque para que aqueles que ocorriam à fonte estivessem abrigados da chuva. Uma parte da taça e a base desta fonte,  encontram-se nos Jardins do SMAS.

Figura 21 – A Fonte da Rua de Cedofeita no tempo em que o prédio que a incorporava albergava o Colégio Von Hafe (Fonte: Adriano Fontes, 1908, página 39)

Figura 22 – Parte da Fonte da Rua de Cedofeita existente nos Jardins dos SMAS.


·         O primeiro Chafariz do Campo Pequeno, localiza-se na Praça que teve aquele nome, então mais conhecido por Largo dos Ingleses, nos nossos dias Largo da Maternidade. A sua construção terá sido concluída entre 1826 e 1828. Tinha duas bicas encravadas numa pirâmide quadrangular e tanque. O atual Chafariz foi construído, em 1894, no local onde hoje se encontra.

Figura 23 – O Chafariz do Campo Pequeno, construído em 1894 (Fonte: Adriano Fontes, 1908, pág. 30).

Figura 24 – O Chafariz do Campo Pequeno, nos nossos dias.

·         A Fonte da Rua do Triunfo, encostada ao muro do quartel do Regimento de Infantaria 6, na então Rua dos Quartéis, hoje de D. Manuel II, resultou da transferência para aquele lugar, provavelmente em 1902, do Chafariz da Torre da Marca, que terá sido construída entre 1855 e 1863. A partir da Fonte da Rua do Triunfo eram abastecidas as cozinhas do quartel e os seus jardins regados com as vertentes da fonte.

Figura 25 – Fonte da Rua do Triunfo (Fonte: A. Fontes, 1908, pág. 70).

·         Até 1823, existiu no lugar conhecido como Feira do Pão, um Chafariz que foi substituído por outro mais nobre na nova Praça de Santa Teresa, atual Praça Guilherme Gomes Fernandes. A Fonte da Praça de Santa Teresa que tinha junto um grande tanque para armazenar as águas excedentes ao consumo. A fonte tinha três carrancas, duas das quais vieram da Fonte da Natividade que para ali foram transferidas em 1833 quando da demolição daquela fonte. As duas carrancas encontram-se atualmente nos jardins do Palácio de Cristal. A Fonte da Praça de Santa Teresa foi demolida em 1905 e, em lugar situado no ângulo sul daquela praça foi substituída pelo Marco Fontenário de Santa Teresa, que tinha duas funções: servir a população e dessedentar os animais. Este marco fontenário tinha um candeeiro que iluminava o local. Quando, em 1915, se deu a remodelação da praça o fontanário foi definitivamente removido para dar lugar ao monumento a Guilherme Gomes Fernandes.

Figura 26 – Aguadeiros enchendo os seus cântaros no Marco Fontenário da Praça de Santa Teresa (Fonte: A. Fontes, 1908, pág. 71).

·         O Chafariz da Fábrica do Tabaco, ou da Praça do Tabaco ou do Largo do Correio ou dos Ferros Velhos, foi construída a pedido feito, em 1718, por Diogo dos Santos Mesquita e Manoel de Souza Porto, que introduziam no aqueduto, perto da Arca de Paranhos, três anéis de água (90.528 litros de água por dia). O pedido indicava também a necessidade de construir a Fonte das Oliveiras. Esta fonte estava situada na “antiga Rua Rainha D. Amélia (hoje Rua Cândido dos Reis), no espraiado onde funcionou um mercado de Ferros-Velhos” (Marçal, 1968). Fonte, 1908, descreve a chegada da água ao chafariz através de um cano que na parte terminal era “formado de duetos de grés assentes a pequena distância da superfície do solo, conspurcado pela urina e até pelas fezes humanas”. Esta falta de cuidado resultava em forte contaminação bacteriológica da água, tornando-a imprópria para consumo. Em 1864 Gavand determinou a dureza total da água desta fonte, tendo obtido o valor de 5 graus franceses.

Figura 27 – Taça do Jardim da Praça de Carlos Alberto, igual às existentes nos Jardins da Cordoaria e de São Lázaro (Fonte: A. Fontes, 1908, pág. 100).

Figura 28 – Marco fontenário da Praça de Carlos Alberto, igual ao que foi colocado na Praça da Batalha (Fonte: A. Fontes, 1908, pág. 101).


C.      Fontes exclusivamente fornecidas com água do manancial de Salgueiros:
·         Fonte da Rua das Oliveiras - esta fonte, apenas com uma bica, substituiu outra, muito antiga, que ficou soterrada quando se nivelou a rua, foi construída após acordo com a Câmara assinado em agosto de 1718. Em 1810, a Câmara comprou uma faixa de terreno para alargamento da rua das Oliveiras e para deslocar, para nascente, aquela fonte. Em 1842, a Câmara decidiu acrescentar-lhe mais duas bicas, embora apenas funcionassem as duas laterais. Admite-se, ainda que na mesma data lhe tenham sido acrescentados a concha e o peixe. Devido à confusão que ela gerava entre os que passavam e aqueles que queriam abastecer-se de água, em dezembro de 1866 foi removida daquele sítio e mudada, em 1879-1881, para a bifurcação das ruas dos Mártires da Liberdade e do General Silveira, no atual Largo Alberto Pimentel. Em 1908, esta fonte apresentava o triângulo negro junto da bica do lado direito, sinal da falta de qualidade da água (Fontes, 1908). Adriano Fontes sublinhava a falta de critérios com que a Câmara classificava a qualidade da água das fontes, dando como exemplo a falta daquele dístico no Fontanário da Praça Carlos Alberto, que também recebia água de Salgueiros[14] mas com maior risco de contaminação da água em parte do percurso final em canal aberto, enquanto que o da Fonte das Oliveiras se fazia em tubo de ferro.

Figura 29 – A Fonte das Oliveiras, em Janeiro de 2018

·         Adriano Fontes descreve um cano de chumbo que, saindo da caleira de água de Salgueiros na entrada da Rua das Oliveiras, se dirigia, acompanhando um tubo de esgoto, para a Praça Carlos Alberto. Aqui chegando, dividia-se em dois ramos, um alimentando a Taça do Jardim da Praça de Carlos Alberto que se encontrava em frente à Farmácia Lemos, e o outro servia o Bebedouro ou Marco Fontanário da Praça Carlos Alberto, oferecido pela Sociedade Protetora dos Animais[15], colocado em frente à Travessa Sá de Noronha. Este marco fontanário, como alguns outros instalados na cidade, era construído, em ferro fundido, na Fundição do Bom Sucesso. Tinha duas taças: uma, superior, para os cavalos beberem, a outra, inferior, para os cães e gatos. No topo do marco existia um lampião para iluminação. Por baixo do lampião pendia uma placa onde se lia: “Não nos cansemos de fazer o bem. O homem é o rei dos animais mas não deve ser o seu tirano – SOCIEDADE PROTECTORA DOS ANIMAES – FUNDADA NO PORTO EM 1878 – Doado à sociedade por JULIO D’ANDRADE”. Atualmente encontra-se nos jardins do SMAS, na rua Barão de Nova Sintra.



Figura 30 - Marco fontenário da Praça Carlos Alberto (Cliché Alvão)

D.      Fontes que recebiam, a partir de 1839, mistura da água dos Mananciais de Paranhos e Salgueiros
·         Chafariz do Mercado do Anjo - terá sido herdado do Convento de S. José e Santa Teresa das Carmelitas Descalças que abandonaram o convento em 1832. Durante a construção do Mercado do Anjo, inaugurado em 1839, o chafariz foi transferido para o seu centro onde também existia um coletor que permitia repartir a água por outros pontos. O chafariz destacava-se pela grade que tinha sobre a parede do tanque que assim evitava que a sua água fosse usada para lavagens. A este Chafariz estava associada a fonte que se encontrava junto à Escadaria do Mercado, quando se descia deste para a Rua de S. Filipe. Germano Silva chama-lhe Fonte dos Clérigos, assinalando que era junto dela “que funcionavam as barracas das toucinheiras e o setor das flores”. Estas duas fontes, bem como todas as outras que se encontravam no seguimento do aqueduto de Paranhos e Salgueiros, eram abastecidas a partir da Arca do Anjo que se encontrava no limite ocidental do mercado, de costas para o edifício da Academia Politécnica, hoje Reitoria da Universidade do Porto.

Figura 31 – A Arca do Mercado do Anjo em 1908 (Fonte: Adriano Fontes, 1908, pág. 24)

Figura 32 – Chafariz do Mercado do Anjo (Fonte: A. Fontes, 1908, pág. 102)

·         A Taça do Jardim da Cordoaria era idêntica à da Praça de Carlos Alberto. Era abastecida diretamente por meio de um tubo de chumbo que partia da Arca do Anjo. Segundo A. Fontes, a água era contaminada bacteriologicamente no seu percurso devido à existência de pequenas rupturas no encanamento.

Figura 33 – Taça do Jardim da Cordoaria (Fonte: A. Fontes, 1908, pág. 103)

·         Fonte da Praça do Peixe e Torneira das Sardinheiras (ver capítulo VII) eram também abastecidas diretamente da Arca do Anjo em tubo de chumbo colocado ao longo do Jardim da Cordoaria até à calçada que dava acesso ao Hospício dos Expostos e ao Mercado do Peixe. Durante o seu trajeto a água sofria contaminações em diversos pontos do referido tubo.
·         A Fonte de S. Domingos, que adquiriu o nome do Largo onde estava instalada, protegida, bem como o seu tanque, por uma abobada de cantaria. Este reservatório servia para socorro dos incêndios que então ocorriam. Esta Fonte substituiu o Chafariz que existiu no centro daquele Largo;
·         A Fonte do Olival ou da Cadeia, estava encostada ao edifício da Cadeia da Relação, “de boa pedraria e gosto no lavor”. Também recebia diretamente a água da Arca do Anjo, sendo conduzida em tubo de chumbo. A qualidade bacteriológica da água era igualmente afetada pelas contaminações que ocorriam devido a rupturas do tubo.
·         Partindo da Arca do Anjo, um tubo de chumbo alimentava a Fonte das Taipas, a Fonte de Miragaia (ver capítulo 7) e a Fonte da Rua do Comércio do Porto (ver capítulo 7).
·         Um último tubo de chumbo saía da Arca do Anjo e seguia pela Rua dos Clérigos até ao Largo dos Lóios, dirigindo-se, então, para a Rua dos Caldeireiros até uma pia donde partiam dois canos que se dirigiam à Rua das Flores: um deles seguia pela Rua do Souto para abastecer a bica do lado direito da Fonte da Rua Mousinho da Silveira (ver capítulo 4); o outro, de chumbo, seguia em direção ao Chafariz de S. Domingos. De uma pia localizada nas traseiras desta fonte saía um tubo que se dirigia para outra pequena pia enterrada no pavimento da Rua Nova de S. Domingos donde saíam dois canos: um para a Fonte de Congostas (ver capítulo IV) mais tarde substituída pela Fonte do Mercado Ferreira Borges (ver capítulo IV); o outro atravessava a rua Mousinho da Silveira e, seguindo pela rua de S. João alimentava a Fonte do Largo da Ribeira (ver capítulo IV).

Balthazar Guedes, 1669, escreveu que a água de Paranhos era “belíssima e peitoral”[16] . O Padre Rebelo da Costa classificou-a, em 1789, como “pura, claríssima, muito leve, e desobstruente”. Em 1884, Bourbon e Noronha considerava-a como “límpida, transparente, de gosto agradável, leve e sem cheiro”. Três anos mais tarde, Ferreira da Silva também a considerava merecedora dos epítetos que foram dirigidos à água de Paranhos. Nos resultados das análises químicas que ele e a sua equipa realizaram a amostras de água do manancial e de quatro fontes que a recebiam, verifica-se que ela era pouco dura (dureza total média: 6,2 graus franceses) e pouco mineralizada (média de sólidos dissolvidos totais: 197 mg/L). No que diz respeito ao manancial de Salgueiros, a sua água era bastante mais dura (dureza total média: 17,1 graus franceses) e apresentava maior concentração média de sais dissolvidos totais, 419 mg/L, suficientes para conferir sabor à água. A água das fontes servidas pela mistura da água dos dois mananciais apresentava a dureza total média de 9,9 graus franceses e a média dos sólidos dissolvidos totais atingia o valor de 299 mg/L. Estes valores permitem estimar que a água abastecida a partir da reunião dos dois aquedutos correspondia à mistura de cerca de 65% da de Paranhos e 35% de Salgueiros.

Os registos de análises realizadas à água do Porto até ao final do século XIX apenas se referem à caracterização organolética e à análise química, porque estas artes eram as únicas que naquele tempo suportavam o controlo da qualidade da água destinada a consumo humano. A análise microbiológica apenas deu tímidos passos na última década desse século e teve que enfrentar uma dura luta com a química que tinha quase um século de avanço. Recorde-se que foi Louis Pasteur que reprovou, em 1861, a teoria da geração espontânea da vida e que associou a presença de germes ao desenvolvimento de muitas doenças. Poucos anos depois, Robert Koch descreveu o mecanismo da transmissão e difusão da cólera e da febre tifóide através da contaminação com fezes humanas da água utilizada como bebida. Em 1872, Fernand Cohn desenvolveu um meio para “cultivar” bactérias que foi aproveitado por Koch para publicar, em 1881, um artigo em que descrevia o método para exame bacteriológico em placas de gelatina. No ano seguinte, o ágar-ágar substituiu a gelatina, e, em 1887, Richard Julius Petri inventou o disco que tomou o apelido do cientista, Petri. Nascia assim a microbiologia que permitiu compreender a forma como a água e os alimentos servem de veículos para a transmissão de doenças e identificar as bactérias que as causavam. No “Manuel Pratique d’Analyse Bactériologique des Eaux”, publicado por Miquel, em 1891, foram definidas as bases do controlo microbiológico da água, contribuindo decisivamente para uma melhor gestão da água e para o aparecimento de novos processos de tratamento de água, em que a desinfeção terá sido o mais importante para a melhoria da saúde pública. Aliás, hoje não restam dúvidas sobre a supremacia da análise microbiológica face à química na proteção da saúde pública.

Figura 34 – Estufa usada pelo Dr. Miquel

O controlo da qualidade da água da cidade do Porto teve começou com iniciativas pessoais, entre as quais o efetuado por Henry Gavand a diversas fontes e rios, ou por laboratórios ligados à Academia, entre os quais se destacava o dirigido por Ferreira da Silva, lente da Academia Politécnica a partir de 1877. Sobre a presidência de José Augusto Correia de Barros, a Câmara Municipal do Porto aprovou, em 1881, o Plano de Melhoramentos da Cidade de cuja aplicação se esperava que o Porto viesse a ocupar “um lugar muito importante entre as primeiras praças comerciais do continente europeu”[17]. Entre as muitas preocupações das autoridades municipais assumiam lugar importante o abastecimento de água, a qualidade dos alimentos e a instalação de uma eficiente rede de esgotos. Surgiu, então, a necessidade de criar um Laboratório vocacionado para a análise físico-química, para cuja direção foi convidado, em 1882, o Prof. Joaquim António Ferreira da Silva, professor de Química da Academia Politécnica do Porto, que já colaborara com a Câmara no estudo da qualidade da água para abastecimento ao Porto, do qual foi publicado, em 1881, sob a forma de relatório com o título “As águas do rio Sousa e os mananciais das fontes do Porto”. Após a nomeação formal, em 1883, de Ferreira da Silva com seu diretor, o laboratório começou a funcionar em 1884. Em 1888, foi-lhe acrescentado o Posto Fotométrico que tinha por missão principal o controlo da qualidade do gás usado na iluminação de algumas ruas do Porto. Apesar do prestígio científico que o laboratório municipal ganhou e dos louvores que recebeu da Câmara Municipal em 1887, 1902, 1904 e 1907, neste ano, o vereador José Correia Pacheco considerou que o laboratório se tinha desviado dos seus objetivos e que a sua existência passara a ser uma despesa desnecessária porque outros laboratórios apareceram ocupando o seu espaço. Como consequência, o Laboratório foi extinto em sessão da Câmara de 25 de abril de 1907, decisão confirmada em 2 de maio seguinte. Apesar dos protestos de diversas entidades e organizações científicas e de uma sentença do Tribunal Administrativo anulando a deliberação camarária, a Câmara manteve o encerramento e, em 1916, transferiu o laboratório e todos os seus pertences para a Faculdade de Ciências. Foi então, depois de muita luta jurídica, que Ferreira da Silva abandonou o quadro do Laboratório Municipal, deixando as instalações onde se mantinha desde 1911.

Foi Ferreira da Silva que, em 1895, estabeleceu as quatro componentes da análise de águas: o exame físico e organolético, o exame químico, o exame microscópico e o exame bacteriológico[18]. Como este último exame saía da esfera de competências do Laboratório Municipal do Porto, em 1892, na sequência do relatório intitulado “O Saneamento do Porto” apresentado em 1888, a Câmara Municipal do Porto convidou Ricardo Jorge para assumir a direção dos Serviços Municipais de Higiene da Cidade do Porto e o Laboratório Municipal de Bacteriologia. Foi este laboratório que deu os primeiros passos no controlo bacteriológico da água bebida pelos portuenses. Entre junho e  setembro de 1899, grassou no Porto a peste bubónica diagnosticada por Ricardo Jorge que a responsabilidade de controlar aquela epidemia quando aplicou as primeiras medidas profiláticas para erradicar aquela peste. As medidas adotadas, o isolamento dos enfermos e a desinfeção das suas casas, tiveram dois efeitos contrários: Ricardo Jorge foi consagrado nos meios médicos como epidemiologista de renome, e despertaram a ira popular, instigada por grupos políticos e outros interesses. A injustiça e a violência levaram Ricardo Jorge a abandonar o Porto, tendo-se deslocado para Lisboa onde, em outubro de 1899, foi nomeado Inspetor-geral da Saúde, cargo mais tarde chamado de Diretor-geral da Saúde.

Em 1901, António Joaquim de Souza Júnior, que também participou na campanha de erradicação da peste bubónica, foi nomeado chefe do Laboratório Municipal de Bacteriologia. Poucos anos depois, gizou um plano para o estudo das águas de abastecimento público aplicando os métodos preconizados pela escola anglo-americana. Para o efeito, dividiu a matéria em quatro grupos: mananciais de Paranhos e Salgueiros e respetivas fontes; outros mananciais e fontes dependentes deles e as que tem fonte primitiva; poços e águas da companhia. Infelizmente, apenas os dois primeiros grupos do plano se concretizaram através de duas obras fabulosas de Adriano Fontes e J. Bahia Júnior que se traduziram em duas importantes Dissertações Inaugurais apresentadas à Escola Médico Cirúrgica do Porto, respetivamente, em 1908 e 1909. Esses estudos tinham como objetivo principal comparar o exame laboratorial com o topográfico, isto é, verificar como as infiltrações ocorridas ao longo das linhas de condução da água contribuíam para deteriorar a sua qualidade, especialmente a bacteriológica. Foi por isso que Adriano Fontes fez uma minuciosa inspeção aos aquedutos de Paranhos e Salgueiros, identificando os pontos e causas da conspurcação da água e quais os fatores que contribuíam para a sua melhoria.

No referido estudo, Adriano Fontes apresenta os resultados das análises bacteriológicas na seguinte forma: a) número de bactérias, que correspondem atualmente à contagem de microrganismos cultiváveis em placa, que nos dá uma indicação sobre a probabilidade de a água conter microrganismos patogénicos; b) título colibacilar, o volume de amostra de água, em mL, em que se pode encontrar um colibacilo; c) título termófilo, que corresponde à maior ou menor resistência dos germens à ação da temperatura da água. Para classificar a qualidade da água examinada Adriano Fontes aceitou o critério definido por autores americanos que “qualificaram diversamente as águas em puras, razoavelmente puras, suspeitas, provavelmente inquinadas e inquinadas, conforme continham o coli em 100cc, 10cc, 1cc, 0cc,1 ou 0cc,01”[19].

De uma forma geral a água das minas do Manancial de Paranhos, em 1908, era relativamente pura embora ela fosse comprometida durante os períodos de chuva devido a infiltrações. Ao longo do aqueduto essa pureza mantinha-se no percurso de 600 m porque as infiltrações eram pouco significativas dado que os terrenos por onde o aqueduto passava eram quase incultos e pouco ocupados com habitações. Em tempo seco, a água chegava ao matadouro novo com a qualidade aceitável para consumo humano, continuando assim até ao Monte Novo, a 600 m do matadouro. A partir deste lugar até à Fonte da Rua da Boavista, a qualidade da água ia-se deteriorando devido a diversas contaminações por infiltração ou por receber água contaminada de outras minas que reforçavam o aquedutos. No fundo, esta alteração na qualidade da água era um sinal da aproximação à cidade onde a atividade humana era pouco respeitadora do meio ambiente. Adriano Fontes demonstra-o com inúmeros exemplos. Na parte final do trajeto até à Arca de Noronha, a água não sofre poluição sensível porque ela segue em cano de ferro e porque algumas pias de sedimentação podem exercer efeitos positivos. Do conjunto de fontes abastecidas pelo manancial de Paranhos, as das Fressureiras, dos Burgães, dos Ferros Velhos e da Boavista são as que apresentavam água de péssima qualidade qualidade.

O exame microbiológico da água com origem nas diferentes minas que constituíam o Manancial de Salgueiro revelava o seu carácter suspeito devido, sobretudo, à má qualidade da água da mina da rua da Rainha (Antero de Quental), sujeita a “numerosas enxurradas terrosas”. A qualidade da água de Salgueiros mantinha-se praticamente inalterável ao longo do seu percurso em canal aberto até à Fonte das Oliveiras, embora ela se deteriorasse  um pouco abaixo da rua dos Bragas em períodos de chuva. Daqui até à Arca de Noronha, a água não sofria modificações, melhorando, desde aquela arca até à do Anjo onde as águas de Paranhos e a de Salgueiros se misturavam. Todas as fontes servidas por esta arca, exceptuando-se a da Fonte Mousinho da Silveira apresentavam água de suspeita provavelmente inquinada, segundo o critério atrás reproduzido. De qualquer modo, a melhor e mais preferida água da consumida no Porto até à chegada da “água da companhia” (1886) foi a dos mananciais de Paranhos e Salgueiros, sendo a do primeiro melhor do que a do segundo.




[1] Bourbon e Noronha, 1885, Fontes, 1908. É feita menção às fontes associadas a este manancial na carta de doação do Couto do Porto ao Bispo D. Hugo pela Rainha D. Teresa.
[2] Adriano Fontes. 1908. Analyse Sanitária do seu abastecimento de água potável – I – Estudo dos mananciaes de Paranhos e Salgueiros, Tese Inaugural apresentada à Escola Médica do Porto.
[3] Horácio Marçal, 1967, O Manancial de Paranhos e as fontes por ele abastecidas, O Tripeiro, VI Série, Ano VII, n.º 9: 297-300
[4] Diogo Emanuel Pacheco Pereira, 2011, O abastecimento de água na Cidade do Porto nos séculos XVII e XVIII. Dissertação de Mestrado em História da Arte Portuguesa. Faculdade de Letras da Universidade do Porto.
[5] Costa, A., R., 1789,
[6] Souza Reys,
[7] Para Adriano Fontes, “em sessão do Senado de 27 de Novembro de 1770 foi apresentado pelo Procurador da Cidade o padrão da manilha que era «uma medida de bronze com um palmo craveiro de circunferência, tendo dezasseis anéis e o anel oito penas». Depois conseguimos também saber que cada pena corresponde a um rendimento diário de 1272 litros”.
[8] Livro A
[9] Inicialmente esta fonte e os lavadores encontravam-se no lado oriental da estrada de Braga, para reduzir os riscos de contaminação da água aquele conjunto foi mudado para o lado ocidental, aonde aí se encontram atualmente.
[10] Chaminé, H. I., Afonso, Robalo, P.M., Rodrigues, P., Cortez C., Monteiro Santos, F.A., Plancha, J.P., Fonseca, P.E., Gomes, A., Devy-Vareta, N.F., Marques, J.M., Lopes, G. Fontes, M.E., Pires A. &  Rocha, F.. 2010. Urban speleology applied to groundwater and geo-engineering studies: underground topographic surveying of the ancient Arca D’Água galleries catchworks (Porto, NW Portugal). International Journal of Speleology. 39 (1): 1-14.
[11] Fontes, 1908, pág. 23.
[12] Fontes, 1908
[13] Atual Rua Freire de Andrade.
[14] O tubo que levava a água até à Fonte das Oliveiras tem início numa pia situada no aqueduto de Salgueiros, antes de este se reunir com o de Paranhos. O tubo segue, então, pelo aqueduto comum.
[15] A conservação destes fontenários estava a cargo da Sociedade Protetora de Animais. A água era fornecida pala Câmara Municipal.
[16] Balthazar Guedes, 1669
[17] Prólogo do Plano, citado por Alves, Jorge Fernandes e Alves, Rita C., 2012, Ferreira da Silva e o Laboratório Químico Municipal do Porto (1884-1917). In Estudos do Século XX, n.º 1: p 13-30.        
[18] Leonardo, António J. F., Martins, Décio R. e Fiolhais, Carlos, 2011, O Instituto de Coimbra e a análise de águas minerais na segunda metade do sécul XIX, Quim. Nova, Vol. 34, No. 6: p 1094-1105.
[19] - cc corresponde a centímetro cúbico, cm3, o mesmo que mililitro, mL.