sexta-feira, 21 de junho de 2019

Parte XV





ANTIGA FREGUESIA DE SANTO ILDEFONSO


Com o aumento da população dentro dos muros, a cidade do Porto estendeu-se para fora do recinto da muralha, resultando daí, em meados do século XVIII, mais duas paróquias: Miragaia e Santo Ildefonso. Embora o arrabalde de Santo Ildefonso, extramuros, fosse muito mais antigo, a freguesia com esse nome foi criada em 24 de junho de 1634, à data com 1790 almas, que tinha como limites: a poente, Miragaia e Couto de Cedofeita; a norte, o Campo de Santo Ovídio e o Couto de Paranhos; a nascente, era limitada por Campanhã; a sul, o limite ia da Porta da Batalha até ao Calvário Novo; daquela Porta caminhava para poente ladeando a muralha Fernandina até ao assento das Virtudes. Dada a desigual distribuição de áreas e de população, esta freguesia, de enorme território, foi desmembrada, em 1841, por um decreto de Costa Cabral que fundava a nova freguesia de Bonfim.
Com data de 8 de Fevereiro de 1956, foi publicado um Decreto assinado por Francisco Higino Craveiro Lopes (Presidente da República), António de Oliveira Salazar (Presidente do Conselho de Ministros) e por Joaquim Trigo de Negreiros (Ministro do Interior) e com o número 40 526 que estabelecia a nova delimitação das freguesias do concelho do Porto. No que a Santo Ildefonso diz respeito, o texto da sua delimitação era o seguinte: com início na Avenida de Rodrigues de Freitas, no cruzamento com a Rua de S. Vitor (vértice comum às três freguesias: Santo Ildefonso, Bonfim e Sé), segue pela Rua de D. João IV até à Rua da Firmeza, Rua da Firmeza, para poente, até à Rua da Alegria, Rua da Alegria, para norte, até à Rua da Escola Normal. Rua da Escola Normal, Rua de Santa Catarina para norte, arruamento nascente da Praça do Marquês de Pombal. Rua da Constituição, para poente, até à Rua de S. Brás e por esta rua, para sul, até à Rua do Paraíso, Rua da Regeneração, arruamento nascente da Praça da República. Rua do Almada até à Rua de Ricardo Jorge, onde fica o vértice comum às três freguesias: Cedofeita, Santo Ildefonso e Vitória. Rua do Almada, para sul, até à Rua dos Clérigos, onde fica o vértice comum às três freguesias: Vitória, Santo Ildefonso e Sé, seguindo, para nascente, pelo arruamento sul da Praça da Liberdade. Praça de Almeida Garrett, Rua da Madeira até à Praça da Batalha e deste ponto até à parede divisória dos prédios n.os 19 e 20 da Praça da Batalha e daqui, contornando a propriedade do Teatro Águia de Ouro, até junto ao cunha sudoeste do prédio n.º 1 da Rua de Entreparedes. Rua de Entreparedes, para nordeste, e Avenida de Rodrigues de Freitas até à Rua de S. Vitor.
Em 2012, deu-se a reorganização administrativa do território (Lei n.º 22/2012, de 30 de maio) levando a freguesia de  Santo Ildefonso a juntar-se às de Cedofeita, Sé, Miragaia, São Nicolau e Vitória para formar uma União.

 Figura 1 – Mapa da freguesia de Santo Ildefonso. Fotografado de Google maps, https://goo.gl/S4x31U, em 24/2/19.

Santo Ildefonso, freguesia essencialmente urbana, foi enriquecida, a partir do século XVIII, com alguns lugares emblemáticos do Porto: As praças da Batalha e dos Poveiros, e as conhecidas ruas de Santa Catarina, 31 de Janeiro, Passos Manuel, Sá da Bandeira, etc, e alguns locais de visita obrigatória para os turistas como o são o Mercado do Bolhão, atualmente em remodelação, “A Brasileira”, antigo café que sofreu enorme benefício e agora é restaurante e hotel, o café Magestic, inaugurado em 1921, a Capela das Almas cujos azulejos das paredes exteriores são dos mais fotografados do país, a Igreja da Trindade, os Paços do Concelho e, claro, a avenida dos Aliados, sala de visitas do Porto, que se estende aos pés daqueles Paços.
Em 1623, D Rodrigo da Cunha fez a primeira contagem conhecida da população de Santo Ildefonso, adiantando os seguintes números: 1150 habitantes, dos quais 150 eram menores. Nos séculos XVII e XVIII o crescimento da população desta freguesia foi notável. Por exemplo, a população aumentou de 22.714, em 1732, para 46.404 habitantes, em 1789. Não admira, por isso, que, em 1841, tenha sido criada a freguesia de Bonfim com uma boa parte do território de Santo Ildefonso, passando, este, a ocupar a área de 1,2 km2, onde habitavam, em 2011, apenas 9.029 pessoas (decréscimo de 37,7% na população entre 1991 e 2011), com o índice de envelhecimento[1] de 309, muito superior ao do concelho de Porto, 195, e ao do país, 129.
A freguesia de Santo Ildefonso ocupa dois naturais vales secundários responsáveis pela existência de importantes reservas de água. Um, o de Fradelos, com início na rua da Fontinha, situa-se entre os montes dos Congregados e da Fontinha; o segundo, a que muitos chamaram de Germalde, orienta-se por entre as ruas de Bonjardim, Camões, passa pela Trindade e junta-se ao primeiro na atual Praça da Liberdade; este vale recebe a vertente oriental do monte da Lapa e a ocidental do monte da Fontinha. As duas linhas de água definidas nos dois vales levam a água até à sua confluência, formando o mais importantes rio que percorria o Porto antigo – o Canal Maior ou rio da Vila. A expansão e o desenvolvimento urbanístico da cidade do Porto escondeu, em parte, esta realidade ocultando a água e planificando o relevo. A impermeabilização do solo, em grande parte ilegal, apressou a viagem da água pluvial para o Douro, empobrecendo os mananciais ou fazendo com que eles tenham, pura e simplesmente, desaparecido. A construção de caves e garagens em profundidade agravou a situação, fazendo desaparecer minas e poços. Esta prática continua desgraçadamente a acontecer.
Os mananciais do Largo da Aguardente (Marquês de Pombal) e Camões e nascentes próprias alimentaram um bom número de fontes que serviam a população da freguesia e quem nela passava. Algumas recebiam a água de mananciais das freguesias vizinhas, destacando-se o de Mijavelhas. No capítulo 4 descreve-se a Fonte da Porta dos Carros que recebia a água de uma nascente sita na Calçada da Teresa. No capítulo sexto descrevem-se as fontes e chafarizes da Batalha, do Terreiro da Batalha, da rua de Santo Ildefonso (Padrão das Almas), do Convento de Santo António da Cidade, do Jardim de S. Lázaro, da Viela das Pombas ou Primeira Fonte da Rua de Santa Catarina, do Canavarro ou a Segunda Fonte da Rua de Santa Catarina, a Fonte Seca ou Terceira Fonte da Rua de Santa Catarina, a da Natividade e a do Bolhão. O Chafariz de Camões ou da Feira dos Carneiros, a Fonte da Praça da Trindade, a Fonte do Hospital da Trindade, a Fonte da Rua do Laranjal, o Chafariz da Praça de D. Pedro, a fonte de Vila Parda foram descritas no capítulo 8. As fontes da rua de Sá da Bandeira, a dos Paços do Concelho e a Fonte do Olho do Cu (capítulo 8), eram abastecidas com água do manancial de Camões. A Fonte da Rua da Alegria, descrita no capítulo 14, recebia a água do manancial do Largo da Aguardente.
Na freguesia existiram, ou existem, mais fontes do que as que já foram descritas. Na praça de Gomes Teixeira existiu um chafariz com o nome do Colégio dos Meninos Órfãos que ficava no terreiro da Graça à beira da Igreja de Nossa Senhora da Graça que desapareceu, entre 1900 e 1905, para dar lugar à Praça Parada Leitão. Por sua vez, a fonte também foi substituída pela Fonte dos Leões. O Chafariz do Terreiro do Convento dos Lóios ou de Santa Maria da Consolação esteve instalado no largo dos Lóios[2]. No centro do Claustro deste Convento foi encontrada uma fonte ou chafariz que era alimentada por um tubo que atravessava uma das sepulturas aí existentes (Seabra, 2012: 21[3]). Deste chafariz a água era distribuída por diversas dependências do convento. Acrescente-se que no Largo dos Lóios existiu um pequeno lago circular de mau gosto, tanto assim que lhe atribuíram o nome de Alguidar dos Lóios, utilizado, segundo as más línguas, para “demolhar o bacalhau das sextas-feiras” (O Tripeiro, n.º 7, abril de 1926).
A construção da Fonte da rua da Fontinha ter-se-á iniciado em 1861 e terminado em 1866, em frente à travessa da Fontinha, para substituir a Fonte Seca sita na Rua da Bela Princesa, hoje a parte norte da Rua de Santa Catarina, que entretanto tinha ficado sem água. Era alimentada, por meio de uma canalização de chumbo, com a água da nascente localizada no largo da Fontinha. Em 1866, foi transferida para a rua das Carvalheiras de Cima e mais tarde, 1942, para o jardim do Porque de Nova Sintra. Esta fonte era simplesmente constituída por um pilar granítico, com uma bica que lançava a água para um pequeno tanque (figuras 2 e 3). A água desta fonte era de má qualidade. Não muito longe desta fonte encontrava-se a Fonte das Musas que foi construída em 1859 e esteve localizada defronte do chafariz de Vila Parda, na rua do Bonjardim. Rebelo da Costa, 1789, considerava que esta fonte servia água que, em bondade, seguia à de Paranhos que era “pura, claríssima, muito leve e desobstruente”. O padre Duarte Simão de Oliveira, citado por Teixeira, 2011, classificava-a como “tosca de boas águas, mas não muitas, no sítio de Santa Catarina”. Opinião contrária refletem os péssimos resultados das análises microbiológicas registadas por Bahia Júnior.


Figura 2 – A Fonte da rua da Fontinha, agora instalada no Parque de Nova Sinta

 Figura 3 – A Fonte da rua Fontinha instalada na dita rua (Fonte: J. Bahia Júnior, 1908:58)

A Fonte de Fradelos, construída em 1702, situou-se na parte alta da atual Rua Sá da Bandeira, na encosta sul do Monte de Fradelos, na travessa que ia da rua de Santa Catarina para a rua do Bonjardim. Essa travessa situava-se atrás do antigo quartel dos Bombeiros Municipais à rua de Gonçalo Cristóvão. Era uma fonte com pouca água, funda, e com lavadouros. As vertentes das fonte seguiam para a quinta dos Maias. A fonte ostentava no frontispício um nicho com a imagem de Nossa Senhora da Boa Hora (Marçal, 1968). De acordo com Bahia Júnior, era a mais imunda fonte de Santo Ildefonso, com o recinto coberto de bolos fecais. Tinha no seu frontispício a imagem de Nossa Senhora da Boa Hora. Velasques refere a existência de algumas pedras desta fonte junto da Igreja de Fradelos. Nascendo naquele monte, corria por ali um pequeno ribeiro, o de Fradelos, que desaguava, em frente da Igreja dos Congregados, no rio da Vila. A água desta fonte era, segundo J. Bahia Júnior, de má qualidade bacteriológica. A norte do lugar de Fradelos erguia-se o monte de S. João do Bonjardim que foi parcialmente desbastado para aí se construir a rua de Gonçalo Cristóvão.


Figura 4 - A Fonte de Fradelos onde se destaca a imundície (Fonte: J. Bahia Júnior, 1908:59)

O Chafariz ou Fonte Luminosa foi oferecida pela seguradora “A Confidente” e foi instalada, em 1966, na placa central da Praça de  D. João I. A fonte estava colocada no centro da rosa dos ventos desenhada no pavimento que indicava a direção norte –sul e era rodeada pelos símbolos do zodíaco. Quando da “reabilitação” daquela praça, a fonte foi dali removida e instalada, em 2006, na Praça do Marques de Pombal. A fonte tem um tanque circular com repuxo no centro cuja água, impulsionada por meio de uma eletrobomba, forma uma copa de água com forma cónica. Na mesma praça encontra-se também um espelho de água de estrutura retangular com um lado na forma de semi-círculo que se opõe ao espaldar onde se assenta um golfinho que lança, pela boca, a água que é reciclada do tanque por meio de eletrobomba.


Figura 5 – A Fonte que foi luminosa, agora instalada no jardim da Praça do Marques de Pombal



Figura 6 – Aspeto de uma das fases da construção da Fonte luminosa (Fonte: Arquivo Municipal do Porto, https://goo.gl/pPJYYj)


Figura 7 – O espelho de água do Jardim da Praça do Marques de Pombal. As pombas parecem esperar que a água chegue ao tanque.


ANTIGA FREGUESIA DE CEDOFEITA
A freguesia de Cedofeita terá nascido à volta da igreja românica de Cedofeita que pertenceu a um convento dos Cónegos Regrantes de Santo Agostinho, sita no Largo do Priorado, provavelmente a mais antiga da cidade do Porto. Uma inscrição existente na frontaria da igreja dá o ano de 559 como o da fundação da igreja. Nessa data, a região compreendida entre Lisboa e o rio Minho era ocupada pelos suevos, associados aos visigodos, vândalos e alanos. A sua construção deveu-se ao rei suevo Teodomiro que se tinha convertido ao catolicismo. Como o edifício original se foi arruinando, sofre uma primeira restauração no século XII. A atual configuração da igreja resulta das alterações que lhe foram introduzidas em 1742. É interessante reconhecer que nesta igreja sempre a pratica cristão foi exercida, mesmo quando da ocupação mourisca mercê o consentimento dado através de uma “Carta de Jusgo” do seguinte teor: “Abdelassis Abhrem Mahomet, por illah illalah senhor da cidade do Porto, e da gente da Nazareth, pela qual ordeno que os Presbíteros e Cristãos do Mosteiro de Cedofeita que moram junto à dita cidade do Porto, e seu mosteiro possuam os seus bens em paz e quietação sem opressão, vexame ou força dos Sarracenos; com a condição que não digam Missas senão com as portas fechadas e não toquem as suas campainhas; e paguem pelo consentimento 50 pesantes de boa prata anualmente e possam sair e vir à cidade com liberdade e quando quiserem, e não vão fora das terras do meu mando sem meu consentimento e vontade; assim o mando; e faço esta carta de salvo conduto, e a dou ao dito Mosteiro para que a possua para seu sossego...»[4]. A última restauração da igreja concretizou-se em 1934.
O termo Cedofeita, especialmente o seu mosteiro, é citado na Bula do Papa Calisto II, de 1120, e a Carta de Doação de D. Afonso II, de 1218[5]. A integração do Couto de Cedofeita na urbe do Porto ter-se-á dado na transição do século XVI para o XVII, mas a integração formal deu-se, em 1710, por decisão da Mesa Grande da Relação a urbe foi estendida, para fora da muralha, para as freguesias de Vitória, Miragaia, Santo Ildefonso, Massarelos e Cedofeita.
Geograficamente, Cedofeita tem como limites os seguintes arruamentos: Rua de Miguel Bombarda, Rua de Diogo Brandão, Rua de Cedofeita (parte), Rua da Conceição, Rua do Dr. Ricardo Jorge, Rua do Almada, parte da Rua de Gonçalo Cristóvão, face leste e norte da Praça da República, Rua da Regeneração, Rua de São Brás, Rua da Constituição (parte), Rua de Cunha Júnior, Trav. do Monte Louro, Rua do Almirante Leote do Rego, Trav. e Rua de Ribeiro de Sousa, Rua do Padre Pacheco do Monte, Rua do Monte Alegre, Rua do Zambeze, Rua do Zaire, parte da Rua de Serpa Pinto, Rua de S. Dinis, Rua da Natária, Rua da Prelada e Rua de Pedro Hispano (até ao viaduto), Rua de 5 de outubro, Rua de Fernandes Costas, Praça de Mouzinho de Albuquerque, Rua de Júlio Dinis, Rua do Padre Cruz, Largo de Alexandre Sá Pinto, Rua da Torrinha, Rua da Boa Hora, Rua do Rosário, Largo da Maternidade e parte da Rua de Adolfo Casais Monteiro que chega até à Rua de Miguel Bombarda.


Figura 8 - Mapa da freguesia de Cedofeita. Descarregado de https://goo.gl/HU3oR3, em 3 de março de 2019.

Atualmente a atividade económica envolve, essencialmente, o comércio o turismo e a restauração. Nos últimos cinquenta anos a freguesia perdeu importantes estabelecimentos de ensino superior público, restando no território da freguesia apenas as Faculdades de Direito e de Farmácia. Em termos de equipamento, encontramos o Hospital Militar, o Hospital de Maria Pia e o Quartel General. População em 2011 – 22.022 habitantes. O índice de envelhecimento da freguesia, em 2011, era de 283, superior ao do concelho do Porto, 195.
A freguesia de Cedofeita desenvolve-se por um planalto que recebe as águas que descem pelo subsolo e superfície de encostas dos montes Pedral, Ramada Alta e S. Brás, reunidas em dois talvegues que definiram dois ribeiros já descritos nos capítulos 3 e 7, o denominado rio Frio e a ribeira de Massarelos. O primeiro nascia na área limitada pelas ruas da Boa-Hora, Rosário, Torrinha, Cedofeita e Breiner e seguia os terrenos entre as ruas do Rosário e Cedofeita, pelo Carregal e Hospital de Santo António e terminava, depois de passar no vale das Virtudes, no rio Douro, por baixo da Alfândega. A ribeira de Massarelos nascia nos terrenos limitados as ruas de Santa Isabel, Boavista, Carvalhosa e Torrinha. A ribeira corria pela rua da Piedade e descia pela rua dos Moinhos até desaguar no Douro na Alameda de Massarelos. O ribeiro ainda está, a céu aberto na descida da rua dos Moinhos. Até quando?
Pela freguesia de Cedofeita passava uma boa parte dos aquedutos de Paranhos e Salgueiros que serviram a cidade do Porto a partir de 1607, embora com uma interrupção entre 1660 e 1669 para reparação do aqueduto. Estes aquedutos alimentavam algumas fontes da freguesia descritas no capítulo 9, nomeadamente: Fonte da Boa Vista, Fonte de Cedofeita, Fonte das Oliveiras, Chafariz do Campo Pequeno, Fonte da Rua do Triunfo. Outras fontes com nascente própria foram referidas em texto anterior, como: Fonte da Lapa ou de Salgueiros (capítulo 8), que pode ter sido apelidado de Chafariz de Santo Ovídio se este não corresponder a uma unidade independente. Mas a abundância de água na freguesia permitiu a existência de fontes suficientes para bem servirem, segundo os valores da época, os habitantes da freguesia.
A Fonte do Paraíso ou Arca dos Tintureiros localizou-se no Lugar do Paraíso, atualmente integrado na rua do Bonjardim, entre a Praça de D. João I e a Rua Formosa (H. Marçal, 1968). Será a fonte da Neta que existiu na Viela dos Tintureiros e que era abastecida com água do manancial de Camões (ver capítulo 8)? Horácio Marçal  dá a entender que eram obras distintas (Marçal, 1968: 9), mas não o prova. Este autor descreve outra fonte, a do Campo da Regeneração, que estava inserta no muro da Quinta dos Pamplonas, a norte do portão principal. Para a banda do sul do Campo da Regeneração (Praça da República) existia um poço de água potável (Marçal, 1968:10).
Uma importante fonte da freguesia foi a de Águas Férreas que se situava no largo das Águas Férreas no extremo da rua das Águas Férreas, atual rua do Melo, perpendicular à Rua da Boavista. A sua nascente foi descoberta em 1784, mas a construção e inauguração da fonte apenas ocorreu, em 1804, a expensas da Câmara Municipal que adquiriu os direitos daquela nascente ao adquirir os terrenos onde ela se encontrava. A fonte tinha duas bicas: a da direita lançava água ferruginosa e a da direita água potável isenta de ferro. Dizia Souza Reys que “as boas águas férreas desta fonte, e tão usadas pelos habitantes da cidade do Porto em várias enfermidades, excitaram o zelo da Câmara Municipal, e aproveitando as mandou fazer uma fonte de pedra e juntou-lhe a construção de uma alameda com assentos para descanso e recreio dos frequentadores destes sítios” (Souza Reys, 1984: 125). Para promover o recurso à água desta fonte, a Câmara Municipal, para além de lá ter colocado um guarda - vigia que controlava o acesso à fonte, arborizou o local e instalou bancos de pedra para doentes e apaixonados, popularizando-se o espaço com o nome de “Alameda da Saúde e do Amor”. As águas das nascentes da fonte das Águas Férreas foram há muitos anos abandonadas por correrem a um nível muito baixo e não permitir quaisquer usos públicos. Foi autorizado o Refúgio da Tutória Central da Infância a captá-las para rega dos terrenos da quinta anexa ao Refúgio e antiga Quinta das Águas Férreas[6]. Foi transferida para o Parque da Cidade em 1995.

Figura 9 - A fonte das Águas Férreas, na sua atual localização no Parque Ocidental da cidade.


Figura 10 - A fonte das Águas Férreas, na sua localização original (J. Bahia. Júnior, 1909: 71)

Segundo Tito de Noronha, a água potável da bica da direita da fonte era boa e agradável.  Atendendo ao grande uso que esta fonte tinha, em 1867, a Câmara mandou, por precaução, o médico António José de Souza caracterizar as águas desta fonte. No seu relatório (Bahia Júnior, 1909: 16), António de Souza concluiu que a água tinha sabor férreo, não tinha cheiro e apresentava em suspensão “corpos entre ocráceos de peróxido de ferro”. Na sua composição química destacava-se a presença “peróxido” de ferro (7 mg/L), cloreto de sódio (56 mg/L), sulfato de magnésio (21 mg/L), sulfato de sódio (11 mg/L), sulfato de cálcio (8 mg/L), carbonato de cálcio (7,5 mg/L), sílica (6,3 mg/L) e matéria orgânica e “albumina” (1,5 mg/L). Concluiu este médico que a água era aplicável “nas moléstias que têm o carácter d’etonia e fraqueza, aplicáveis na “chlorise[7], Escrophulas[8], fluxos mucosos e mus morrhea”. Devemos acrescentar um pormenor muito comum no final de século XIX e em boa parte do século XX: a água seguia da mina até às bicas em cano de chumbo. As análises microbiológicas registadas por J. Bahia Júnior (Bahia Júnior, 1908: 106), a água da bica do lado direito era sofrível, enquanto a da esquerda apresentava o título colibacilar baixo. Todavia, a água medicinal do depósito das águas férreas, apresentava o título ainda mais baixo, isto é, de pior qualidade.
Fonte do Ribeirinho ou dos Ablativos, construída em 1790 e localizada na rua do Ribeirinho, rua Barão de Forrester nos nossos dias, próximo do local onde o metro atravessa esta rua. Encontra-se hoje nos jardins da Quinta do Barão de Nova Sintra para onde foi mudada em 1933 e aí restaurada em 1940. O seu nome deveu-se a “ter numa lápide a inscrição latina composta toda no caso ablativo (Souza Reys, 1984: 191). A água que debitava pela sua única bica vinha de um pequeno ribeiro formado pela água de duas nascente sitas nas faldas do Monte de Germalde (Lapa) e do Monte Cativo.  Da sua bica água caía numa taça. Durante alguns anos a sua água era, aparentemente, de boa qualidade, mas, com o andar dos anos, foi-se degradando.
De Horácio Amaral[9], apresenta-se uma das transcrições da inscrição latina da fonte: “com aprazimento de muitos e desagrado de outros, foram reunidas as águas que corriam sujas e desaproveitadas pelas lajes da rua, e pelas margens do ribeiro, formando charcos imundos, e dificultando a passagem de transeuntes. Assim, as águas conduzidas para esta fonte, tornaram o sítio, até então incómodo e sujo, em belo e cómodo; as águas agora limpíssimas, desalteram os suburbanos sequiosos. Foi esta obra no reinado da piedosa, feliz e augusta Rainha D. Maria I, por diligências de José Ribeiro Vidal da Gama, dos Conselhos de Sua Majestade, Chanceler Portuense, servindo de Presidente do Tribunal de Justiça, no ano de 1790”.
A Fonte dos Ablativos foi transferida, em 1933, para o jardim do Barão de Nova Sintra. Esta fonte é toda em granito, com uma única bica que lançava a água para uma pia semi-circular. Acima da inscrição pode ver-se um medalhão com as armas do Porto usada até 1832.
A água desta fonte foi considerada como boa desde a sua instalação até quase ao final do século XIX. No princípio do séc. XX foi reconhecida como inquinada, mas por pouco tempo porque, entretanto, secou.


Figura 11 - A Fonte dos Ablativos colocada no Jardim do Barão de Nova Sintra.

A Fonte da Carvalhosa recebia a água cristalina de nascente muito próxima, em terreno rochoso, recolhendo-a numa arca onde se inseria uma bica que servia o povo. Como a sua bica estava situada num ponto muito baixo, era bastante incómodo recolher a sua água (Marçal, 1968:10), sendo usada pela gente que vivia perto dela, principalmente a Quinta do Priorado. As suas vertentes seguiam, por volta de 1836, para a Quinta de Francisco Serpa Saraiva (Gomes Leite, 1836: verso da folha 34).
            A Fonte do Monte Cativo estava situada ao fim da rua do Melo. Tinha uma única bica que deitava a água numa pequena pia da qual seguia para os tanques com lavadouros que estavam logo abaixo. A nascente desta fonte encontrava-se a uns 20 metros de distância. As Freiras das Águas Férreas tendo necessidade d'água no seu convento, exploraram uma nascente que está indicada na figura pela letra N, depois do que a água desta fonte diminuiu por lhe ter assim sitio cerceada uma parte com esta exploração, feita a um nível inferior ao da nascente da fonte. Sob o ponto de vista microbiológico, a água da Fonte do Monte Cativo era, em 1900, provavelmente pura, mas em 1907 já era considerada como má (J. Bahia Júnior, 1909: 26).


Figura 12 - A Fonte do Monte Cativo na primeira década do século XX (J. Bahia Júnior, 1909: 71).




[1] Razão entre o número de habitantes com idade igual ou superior a 65 anos e o número de habitantes com idades compreendidas entre 0 e 14 anos, expresso como N/100.
[2] Este convento, fundado em 1491, situava-se junto ao muro da cidade (Muralha Fernandina), no atual Quarteirão das Cardosas,
[3] Seabra, A. L. S. R, 2012, Os Lóios do Porto – de Convento a Palácio, Dissertação de Mestrado, Departamento de Ciências da Vida da Universidade de Coimbra.
[4] Reproduzido de Portal das Freguesias – Cedofeita, consultado, em 2/2/19, em ttps://goo.gl/rvssB7.
[5] Santos Castro, C., P., 2012, A Reforma Administrativa das Freguesias no Contexto de Mudança da Administração Pública – O caso do município do Porto, Dissertação de Mestrado em Direito das Autarquias Locais apresentada na Escola de Direito da Universidade do Minho: 95.
[6] António Maria Trigo, O Tripeiro, Ano V, n.º 4, agosto de 1949: 96.
[7] Clorose - doença feminil caracterizada por uma palidez esverdinhada e excessiva fraqueza (Dicionário Priberam).
[8] Escrófula – aumento do volume dos gânglios linfáticos cervicais, provocado pela tuberculose (Dicionário Priberam).
[9] Marçal, H., 1966, O Tripeiro, VI série, ano VI.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2019

Parte XIV



Bonfim e a água
Em fevereiro de 1831, por divisão das freguesias da Sé, Santo Ildefonso e Campanhã, foi autorizada a criação da freguesia do Bonfim, sancionada mais tarde, em dezembro de 1841, por decreto de Costa Cabral. Esta freguesia desenvolveu-se à volta do Monte das Feiticeiras, onde se construiu o cruzeiro do Senhor do Bom Fim e da Boa Morte e que é, atualmente, ocupado pela Igreja de Bonfim. A freguesia incluía a área que envolvia a urbe do Porto e por onde passavam os caminhos que dela se dirigiam para Gondomar, para Valongo e daí para Trás-os-Montes, passando por Penafiel e Amarante.
A freguesia do Bonfim foi o lugar eleito para a instalação de um grande número de fábricas que a transformaram, a partir de meados do séc. XIX, como o principal pólo industrial do Porto, na qual predominava a indústria têxtil. Com a chegada do comboio à estação de Campanhã, a cidade passou a receber uma mole humana que procurava fugir à pobreza dos campos e era atraída pela perspectiva de uma nova e melhor vida. Tantos foram que os salários baixaram, o desemprego subiu e a habitação escasseou. A miséria instalou-se no Porto e arredores num período que devia ter sido de melhoria da qualidade de vida. Expandiram-se então as ilhas, forma precária de habitação. Pequenas casas com reduzido pé-direito, com o mínimo de divisões, com luz e ventilação escassas, sem água potável e com retrete comum, por vezes com poço não muito longe da latrina. Melhor definição de “ilha” como a de Ricardo Jorge não conhecemos, que cruelmente dizia: “São renques de cubículos, às vezes sobrepostos em andar, enfiados em coxia de travesso. Este âmbito, onde se apilham camadas de gente, é por via de regra um antro de imundície; e as casinhas em certas ilhas, dessoalhadas e miseráveis, pouco acima estão da toca lôbrega dum troglodita” (Jorge citado em Pinto 2012: 13)[1]. Esta miserável forma de viver fez com que a freguesia apresente, no final do século XIX, valores da mortalidade superiores a 30‰ (Pinto, 2012: 6).
Para além da classe operária, também se dirigiram para a área de Bonfim industriais e comerciantes, alguns deles brasileiros de torna-viagem, que construíram alguns palacetes e deram origem ao rasgar de novas ruas e avenidas no lugar onde existiram importantes quintas como a de Cirnes, antes do Reimão. O palácio desta quinta foi comprado pela Junta de Freguesia em 1880, que ainda o ocupa. Muitos desses «brasileiros» investiram largas somas de dinheiro na freguesia, não só nas suas habitações, mas também nas fábricas de tecelagem e cerâmica e em melhoramentos infra-estruturais. Há alguns anos que as fábricas da freguesia fecharam as suas portas, dando lugar a outras atividades económicas, tais como o comércio e a restauração, o ensino e a saúde, as instituições bancárias, as pequenas empresas, os serviços e o turismo. Esta pujante atividade dos nossos dias tem funcionado como impulsionador da recuperação de uma boa parte dos edifícios da freguesia do Bonfim, enriquecendo a cidade do Porto.
A freguesia de Bonfim ocupa uma área de 3 km2. O crescimento populacional da freguesia do Bonfim na segunda metade do século XIX foi explosivo, tornando-se, em 1890, como a freguesia mais populosa do Porto com 22 512 habitantes, posição que manteve até 1930. No último recenseamento, o de 2011, a população residente na freguesia do Porto era de 24 265, dos quais 10 674 homens e 13 591 mulheres, ocupando o quarto lugar atrás de Paranhos, Ramalde e Campanhã.
Figura 1 – limites da freguesia. Fonte: http://www.jfbonfim.pt/Mapas-da-Freguesia, descarregado em 12/11/2018

O Vale de Bonfim, descrito na Parte 5, sempre foi rico em água que se acumulava em mananciais que alimentavam uma boa parte das fontes das freguesias da Sé, Santo Ildefonso, Bonfim e Campanhã. Para além do Manancial de Mijavelhas que terá desaparecido e substituído no uso da água pelo do Campo Grande, foram identificados o de Montebelo e algumas minas que abasteciam a Arca do Campo Grande que partilhava a água com a freguesia de Santo Ildefonso, os mananciais do Bispo ou Mitra, o das Freiras, o da Cavaca, o da Aguardente ou Marquês de Pombal, e o manancial das Fontainhas, o primeiro a alimentar a antiga urbe. Muitas das fontes desta freguesia foram referidas em capítulos anteriores: Fontainhas (Parte 2), Canavarro ou Segunda Fonte de Santa Catarina,  Marquês de Pombal, Exterior e Interior do Prado Repouso  (Parte 5)  e Firmeza (agora na Praça das Flores da freguesia de Campanhã), S. Jerónimo ou Largo da Póvoa, Padrão de Campanhã, Padrão ou Santo Ildefonso e Fonte Seca ou Terceira Fonte de Santa Catarina (Parte 6).


Figura 2 - Planta do Aqueduto de Mijavelhas entre a Capela de Santo André e a Rua do Senhor do Bonfim, desenhada por Theodoro de Souza Maldonado e aprovada pela Junta de Obras Públicas em 1795-06-11. Legenda: A – Capela de S. André; B – Rua Direita de Santo Ildefonso; C – Campo de S. Lázaro; D - Rua de Reimão; E – Ponte das Patas; F – Arca d’Água, donde parte o aqueduto com o n.º 4 que atravessa a ponte no ponto y, e entra na cerca dos Antoninhos (Convento de Santo António) no ponto a, e vai ao Campo de S. Lázaro atravessando o convento no ponto b, onde tem um braço para o Colégio das Órfãs, e continua até C onde tem outro para a fonte Z. Pode melhorar-se o aqueduto fazendo-o descrever a linha n.º 2 atravessando o ribeiro no ponto K mais estreito e com as precauções necessárias, tornando a seguir a linha do velho no ponto h até S, e daí continuar pela travessa e campo até c, deixando um braço para o Colégio das Órfãs no ponto L; G – Rua do Senhor do Bonfim. Descarregado em 12/4/18 de https://goo.gl/LJDhuu.

Das fontes e chafarizes ainda não identificados é justo fazer uma referência especial ao Chafariz de Mijavelhas, mais tarde Fonte do Campo Grande (Velasques, 1991: 194). Esta fonte, de mergulho ou chafurdo, terá sido construída antes de 1384 e alteada, poucos anos antes de 1548, com a construção de uma arca e pavimentação da área envolvente. Foi desta arca que, em 1633, a sua água foi levada até à Fonte da Rua Chã. Em 1819, a arca foi transformada em reservatório arcado, sendo este o que foi reconstruído na estação de metropolitano do Campo 24 de Agosto. Mais modesta era a desaparecida Fonte do Caes, que esteve no muro da Quinta da China, junto ao rio Douro à beira da Estrada Marginal, atual Avenida Paiva Couceiro. Brotava de mina própria, saindo por um pequeno pedestal de pedra e caindo numa pia de modo a que os animais a usassem (Velasques, 1991: 193 -194).
A Fonte da Rua da Alegria, que esteve instalada na Rua que lhe deu o nome, recebia a água do Manancial da Praça do Marques de Pombal que a despejava num tanque existente nas suas traseiras com capacidade para servir de apoio aos incêndios em caso de necessidade. Era este tanque que alimentava uma única bica da fonte e a lançava para um tanque maior e central e deste para dois tanques laterais. A fonte pertenceu aos Padres Congregados do Oratório de S. Filipe (Santo Ildefonso).

Figura 3 - A Fonte da Rua da Alegria (Bahia Júnior, 1909: 42)



Figura 4 - O tanque que se encontrava nas traseiras da Fonte da Rua da Alegria. Este tipo de tanques eram importantíssimos para o combate aos frequentes incêndios que ocorriam no centro da cidade. JBJ pág. 42

A Fonte do Seixal localizava-se na Travessa do Seixal, hoje Rua Aurélio de Sousa. Na realidade era um poço protegido com uma bomba de acionamento manual. A água da bica era recebida por um recipiente ou, então, seguia para o tanque lavadouro. Quando havia água com abundância, o nível do poço subia e acabava por sair pela bica, tornando desnecessária a bomba. Embora protegido por uma porta de acesso, a água do poço sofria da contaminação da libertação urinária e descarga fecal, muito frequente junto à fonte. Como resultado das evidentes contaminações, a qualidade bacteriológica água era considerada como má (Bahia Júnior, 1909: 49; 26).


Figura 5 - Fonte do Seixal (Bahia Júnior, 1909: 49)

Desconhecida da grande maioria dos tripeiros, apesar de se encontrar numa das ruas mais movimentadas do Porto, a Fonte da Rua da Prata está inserida no muro de suporte do morro da Igreja do Bonfim, esquecida entre expositores de publicidade e a vegetação que cresce nas juntas do paredão. Terá sido inicialmente instalada na Rua do Godim, antiga Rua da Prata, muito próximo da estrada que seguia para Valongo, hoje Rua do Bonfim. Dela apenas resta a passagem da sua bica da qual ainda se pode ver um pedaço do tubo de aço, e um pilarete para colocação do vasilhame que se enchia de água. O que era ferro desapareceu pela ação do vandalismo que tem atacado as fontes e chafarizes do Porto. Bahia Júnior, 1909, descreve o Charco de Godim situado ”ao fim da rua do mesmo nome, dentro de um dique de pedra e terra colocado no encontro das duas ruas que aqui se juntam, ambas de declive muito rápido”. Este dique retinha a água por vezes debitada pela mina e a água que escorria, quando chovia, das duas ruas. Facilmente se depreende que a água do charco era de muito má qualidade, mas os habitantes da área não tinham outra alternativa. Pela fotografia que reproduzimos depreende-se que o charco nada tem a ver com a Fonte da Rua da Prata.

 Figura 6 - A Fonte da Rua da Prata perdida e abandonada num paredão da rua do Bonfim

Figura 7 – A simplicidade da Fonte da Prata adaptava-se à sua função, servir os que passavam

Figura 8 - O dique do charco de Godim, seco quando da visita de J. Bahia Júnior. Foto da sua dissertação, na pág. 49

A Fonte da Lomba, situada na rua do mesmo nome que liga a Rua do Heroísmo à Rua de Pinto Bessa, é descrita por J. Bahia Júnior. A água que a abastecia a sua bica nascia a cerca de 25 m da fonte, no meio de um campo cultivado. Da bica, a água caía numa pia donde seguia por uma caleira que a conduzia ao tanque lavadouro. A qualidade bacteriológica da água da mina e da fonte era considerada como boa, exceto quando chovia porque sofria o efeito das contaminações (Bahia Júnior, 1909:103).

Figura 9 - Fonte da Lomba. J. Bahia Júnior, pág. 48

Velasques faz referência à Fonte da Boavista que terá sido localizada na Rua das Antas, recebendo a água da Quinta do Fojo (Velasques, 1991: 191). Infelizmente, não encontrámos outra referência a essa fonte e muito menos à Quinta do Fojo, próximo da Rua das Antes. A mais próxima chamou-se de Quinta das Lameiras que hoje é o Parque de São Roque.

Paranhos e a água
Paranhos é conhecida, pelo menos desde o século X. A freguesia de S. Veríssimo de Paranhos fez parte da Terra da Maia (Marçal, 1954: 1)[2]. Era um conjunto de casais dispersos, com alguns caminhos que convergiam para as portas da cidade do Porto. Dois deles eram muito importantes: a estrada para Guimarães, que saía da Porta dos Carros e passava pela Rua do Bonjardim, e lugares da Aguardente (Praça do Marques de Pombal) e da Cruz da Regateira, lugar que existia na área onde foi construído o Hospital Conde Ferreira, inaugurado em 1883; da Porta do Olival, seguia-se para o Sério (Rua Antero de Quental), pela Rua de Santo Ovídio (depois Rua da Sovela e, hoje, Mártires da Liberdade), ou para o Carvalhido, pela Rua de Cedofeita. O primeiro caminho dirigia-se para Braga, enquanto o segundo seguia para Vila do Conde, Póvoa de Varzim e Viana do Castelo (Marçal, 1954: 2).
Com o desenvolvimento do burgo do Porto, no século XVII a sua população teve que procurar pouso fora dos muros da cidade, começando a surgir quintas e prédios ao longo das estradas que se iam formando. Na sequência da incorporação no concelho do Porto, em 1836, das freguesias de Campanhã, Lordelo do Ouro e S. João da Foz do Douro, a Câmara Municipal do Porto apresentou ao Governo um pedido para que a freguesia de S. Veríssimo de Paranhos fosse anexada à cidade, o que aconteceu em setembro de 1837. Em finais do século XIX, a freguesia de Paranhos mostra um crescimento lento, no qual se distingue a abertura de duas importante ruas:  a da Rainha, atual Antero de Quental e Vale Formoso, e a de Costa Cabral, que seguem as antigas vias de acesso, respetivamente, a Braga e a Guimarães.
No início do século XX, Paranhos  era um aprazível local dos arrabaldes da cidade do Porto, onde existiam belas quintas e casas de habitação. O seu fértil terreno permitia o cultivo de muitos géneros agrícolas, fazendo que as casas de lavoura fossem durante mais algumas décadas a mais importante atividade económica da freguesia. Entretanto, a indústria começou a ganhar alguma importância com a fundação de algumas fábricas de tecidos, curtumes, etc., mas nunca teve a expressão que foi sentida na freguesia de Bonfim.
Atualmente, a freguesia de Paranhos com 6,7 km2 de área, é limitada, a nascente, por Campanhã, a sul, por Bonfim, Santo Ildefonso e Cedofeita, a oeste, por Ramalde, e a norte fazendo fronteira com as freguesias de S. Mamede de Infesta (Matosinhos), Pedrouços (Maia) e Rio Tinto (Gondomar). No ano de 1623 a freguesia de Paranhos tinha 246 habitantes, passando, em 1867, para 466 almas de confissão, segundo as Constituições Sinoidais do Bispado, citadas por Marçal, 1954: 58. Em 1864 apenas era de 3.309 habitantes. Tinha, pelo Censo de 1950, 37.507 habitantes. Em 1991 tinha 50 906, em 2001 48 686 e, em 2011, 44 247, sendo a freguesia mais populosa do Porto.
Depois de Paranhos ter ganho, em 1883, um hospital, o de Conde Ferreira, nos primeiros anos da década de 1950 construiu-se no Lugar da Asprela aquele que começou por ser o Hospital Escolar da Cidade, com a Faculdade de Medicina virada para a Estrada da Circunvalação. Hoje, aquela área está ocupada com importantes unidades de ensino superior e instituições hospitalares. Entre estudantes, professores, técnicos de saúde, doentes e visitantes, para ali se deslocam diariamente mais do que 50.000 pessoas.

Figura 10 - O território da freguesia de Paranhos. Fonte: Junta de Freguesia de Paranhos, mapa descarregado em 18/11/2018 de https://goo.gl/a5bniE

A freguesia de Paranhos é rica em água que se acumula, devido à orografia, nas suas profundezas, destacando-se os importantes mananciais de Paranhos e Salgueiros, que foram descritos na Parte 9, cujos aquedutos transportavam a sua água para o centro da urbe. Paranhos possui alguns regatos de pequena dimensão utilizados outrora pelos lavradores para regarem os seus terrenos de cultivo, pois esta freguesia, no século XIX e inícios do século XX era essencialmente uma terra de cariz rural. Horácio Marçal caracteriza hidrograficamente a freguesia de Paranhos, começando por afirmar que ela, “em rigor, não tem rios ou afluentes, muito embora chame rios a alguns regatos que possui, os mais conhecidos são o das Barrocas, o da Azenha, o da Manga e o da Travessa” (Marçal, 1954: 26-27). Os nomes destes “regatos” não correspondem aos atualmente conhecidos. A Ribeira da Manga, que corresponde à Ribeira da Asprela, resulta da reunião do Rego de Consortes, que pode equivaler à Ribeira de Outeiro, com o da Azenha, que pode ser a Ribeira da Areosa. O regato das Barrocas deve corresponder a um dos riachos, o que nasce na rua da Fonte do Outeiro, que origina a Ribeira do Outeiro. Não encontrámos qualquer informação sobre a localização dos regatos da Azenha e Travessa. Podemos admitir que a construção dos edifícios escolares e hospitalares que ocupam o espaço entre os lugares da Azenha e Asprela modificaram o percurso dos regatos registados por Horácio Marçal. Caso semelhante ocorre durante a instalação da linha Amarela do Metro do Porto. Segundo Marçal, 1954, os ribeiros mais conhecidos foram os das Barrocas, o da Azenha, o da Manga e o da Travessa. Num documento do século XI, reproduzido por Horácio Marçal, 1954: 27, fazia-se referência ao Rio Paramio que não terá sido nenhum dos atrás referidos.
A da Ribeira dos Currais, afluente do Rio Tinto, tem a sua nascente, nas alturas de Currais (monte dos Murganhos) e do monte das Antas, e parte do seu percurso na freguesia de Paranhos. O mesmo acontece com a Ribeiro de Picoutos e a Ribeira dos Amores. O de Picoutos nasce junto à Igreja dos Capuchinhos, no Amial, atravessa a Estrada da Circunvalação e segue para se encontrar com o Rio Leça. A ribeira dos Amores  nasce na freguesia de Paranhos e segue em direção ao concelho da Maia. Afluente do Rio Leça, esta ribeira tem uma extensão de, aproximadamente, 790 m no concelho do Porto, encontrando-se, neste troço, totalmente entubada.
A ribeira da Asprela, também afluente do Rio Leça, tem vários afluentes que nascem no concelho do Porto, na freguesia de Paranhos. Esta linha de água apresenta, na cidade do Porto, uma extensão de aproximadamente 3,7 km (Fernandes, 2009: 28). A ribeira da Asprela encontra-se maioritariamente entubada, com apenas 36% a céu aberto. Uma das primeiras ações de reabilitação de linhas de água da cidade do Porto ocorreu num troço do ribeiro do Outeiro junto do Bairro do Outeiro. Em 2014, a Universidade do Porto deu início ao desentubamento e reabilitação de um troço entre as Faculdades de Engenharia e Economia. Está previsto o desentubamento e reabilitação de um troço da ribeira da Asprela junto do Instituto Português de Oncologia (IPO), o que aconteceu, até 2018, num pequeno troço.
A ribeira da Asprela resulta da reunião de quatro linhas de água, a saber:
1.   Ribeira da Areosa – segundo Neves, 2009: 31, esta ribeira nasce a nascente da auto-estrada A3, na zona da Escola E/B 2/3 da Areosa e traseiras da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto (FEUP). É importante para recolher as águas pluviais que drenam da A3, FEUP e outras instalações. Esta ribeira percorre um canal em betão, em parte aberto, localizado entra a FEUP e a Faculdade de Economia, encontrando-se a céu aberto depois de atravessar a rua Dr. Roberto Frias e até à sua junção com o Ribeiro do Outeiro, nas traseiras da Faculdade do Desporto da Universidade do Porto. Em 2001, as seis amostras recolhidas por Paula Reis, entre julho e outubro, no troço imediatamente antes daquela sua reunião, apresentavam valores da CQO entre 15 e 93 mg/L O2 (Reis, 2002). Os resultados mostram que esta a ribeira está contaminada, mas numa escala inferior à da maior parte das linhas de água do Porto. Mesmo assim, a sua água foi classificada como má pelo Índice de Qualidade Geral.

Figura 11 – A Ribeira da Areosa, num período seco (2018), no percurso ao lado da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto

Figura 12 – A Ribeira da Areosa, num período de chuva (Janeiro de 2019), no mesmo percurso

2.   Ribeira do Outeiro – este curso de água resulta da reunião de dois riachos, um dos quais nasce na rua Fonte do Outeiro, nas traseiras do Hospital Conde Ferreira, atravessa a A3 e junta-se ao outro riacho que nasce a sul da Via de Cintura Interna, VCI,I na rua Dr. Pires de Lima, segue canalizada ao longo das Ruas Augusto Lessa, Vitorino Damásio e Luís Woodhouse, caindo num lavadouro público e daí seguindo em aqueduto ao encontro da ribeira do Outeiro. Na entrada deste aqueduto chegam dois tubos de razoável dimensão com águas aparentemente residuais, cuja origem desconhecemos. Esta ribeira junta-se à da Areosa depois de atravessar a rua Dr. Roberto Frias, dando origem à ribeira da Asprela. O estudo realizado por Paula Reis permite verificar que esta linha de água apresentava uma carga poluidora semelhante à da ribeira da Areosa, tendo sido classificada como de má qualidade.

 Figura 13 – Lavadouro da Rua Prof. Mendes Correia que recebe água do ramo da Ribeira do Outeiro que nasce no lado sul da VCI

Figura 14 – Aqueduto do ramo sul da Ribeira de Outeiro que atravessa a VCI. Dois tubos de importante diâmetro alimentam o mesmo aqueduto. Sublinhe-se que o dia em que se realizou a foto foi antecedido por um largo período sem chuva. A descarga do tubo da direita, semelhante à do tubo da esquerda, tem características físicas que merece uma pergunta: qual é a sua origem?

Figura 15 – Percurso do ramo norte da VCI da Ribeira de Outeiro

3.   Ribeira de Paranhos – nasce na rua de Augusto Lessa, abastece o lavadouro público situado nas traseiras da Escola Preparatória de Paranhos, e segue, canalizada, em direção à Faculdade de Medicina Dentária. Após esta instituição, desagua na ribeira da Asprela. Em 2001, a água desta ribeira, com valores da CQO entre 163 e 499 mg/L O2, era equivalente a esgoto doméstico (Reis, 2002). A autora classificou a água deste ribeiro como má/péssima.

Figura 16 – Reunião do Ribeiro do Outeiro com a da Areosa

Figura 17 – A Ribeira da Asprela nas traseiras da Faculdade do Desporto da Universidade do Porto

Depois de receber as três ribeiras atrás descritas, forma-se a ribeira da Asprela. Embora no troço que rodeia a Faculdade do Desporto (FADEUP) a ribeira não esteja coberta por betão ou material equivalente, a vegetação é tão intensa e densa que ela não se vê facilmente. Depois de atravessar a Rua de Roberto Frias, a ribeira passa, entubada, no Instituto Superior de Engenharia e Universidade Portucalense, e sai nas traseiras do Instituto de Oncologia onde vê o Sol e as Estrelas em poucas dezenas de metros. Regressa ao subsolo que foi ocupado por mais um conjunto de prédios de habitação até atravessar a Estrada da Circunvalação. A partir daí, segue em canal aberto em direção ao Rio Leça. Já acima foi referido que as ribeiras da Areosa e do Outeiro mostravam, em 2002, contaminação com águas residuais. Esta situação mantém-se na Ribeira da Asprela. O estudo realizado, em 2007, por Nívea Vieira (Vieira, 2007: 91-93) comprova que a contaminação era de origem doméstica, como o confirmam as concentrações de nitratos, nitritos e azoto amoniacal.

Figura 18 – A Ribeira da Asprela nas traseiras da Faculdade do Desporto da Universidade do Porto

Figura 19 – A Ribeira da Asprela nas traseiras do Instituto Português de Oncologia

Figura 20 – A Ribeira da Asprela, depois da Estrada da Circunvalação, despedindo-se do Porto e correndo para abraçar o Rio Leça

Para além dos mananciais de Paranhos e Salgueiros que abasteceram a cidade através de muitas fontes descritas no capítulo 9, a freguesia de Paranhos possuía também o manancial do Marques de Pombal que alimentou as fontes da Rua da Alegria e a Fonte Seca da Rua de Santa Catarina. A primeira fonte pertencia aos Padres Congregados do Oratório de S. Filipe. A segunda era assim chamada porque foi reconstruída no lugar onde existiu outra que ficou sem água durante mitos anos até 1852. A Fonte da Rua da Alegria é referida atrás por ter pertencido à freguesia do Bonfim.
Segundo Souza Reys, a freguesia de Paranhos tinha água abundante e de excelente, qualidade, sem que se pudesse separar alguma por ser sofrível ou má, era abastecida por dez fontes, poços e cisternas públicas. Os poços eram três, um na aldeia de Lamas, a Fonte ou Poço da Aldeia de Lamas, outro chamado de Fonte da Bouça, e um outro localizado na Cruz da Regateira (Souza Reys, 1984: 198). Este autor apenas considerava cinco fontes: do Outeiro, do Salgueiral, do Vale e da Manga: Horácio Marçal, 1968 acrescentava àquela lista as Fontes de Baixo, da Aldeia de Lamas, da Travessa, da Cruz da Regateira, que pode ser o poço referido por Souza Reys, e a das Barrocas. Com exceção desta última, que tinha duas bicas, todas as restantes não passavam de cisternas onde a água fresca e saborosa era colhida pelo processo de mergulho de cântaros, e de poços ou comuns. As vertentes da maioria delas corriam para os campos dos lavradores vizinhos e abasteciam também alguns lavadouros.
A Fonte das Barrocas tinha duas bicas. Provavelmente, localizar-se-ia próximo da rua de Costa Cabral, a norte do Hospital Conde Ferreira, na rua ou travessa das Barrocas. A Fonte do Vale, no lugar do Vale (Velasques, 1991: 230) e a Fonte do Outeiro e respetiva cisterna localizavam-se na rua que recebeu o nome da fonte. Para além desta cisterna existiam mais quatro na freguesia de Paranhos: Fonte de Baixo, Fonte do Salgueiral, Fonte do Vale e Fonte da Manga no lugar da Manga. A Fonte da Manga, que deu o seu nome ao Lugar da Fonte e ao Casal da Fonte foi, em 1593, registada nos bens pertencentes ao Cabido. Horácio Marçal acrescenta a esta lista a Fonte/cisterna de Baixo, no Lugar de Baixo e o Poço da Cruz da Regateira, no lugar do mesmo nome, onde a população se abastecia. A água provinha do manancial de Paranhos (Marçal, 1954: 49:51, Marçal, 1968; 22, Souza Reys, 1984: 198, Velasques, 1991: 211 - 218)(Velasques, 1991: 201).

Figura 21 – O fontanário da Rua da Fonte do Outeiro, alimentado com água da companhia. Ele substituiu a fonte que deu nome à rua

Nesta freguesia havia uma nascente que alimentava uma fonte de bica, e os seus lavadouros, de nome Fonte da Azenha (Souza Reys, 1984: 198). Horácio Marçal teve sérias dúvidas que a água desta fonte tenha corrido por uma bica. Velasques localizou-a na rua da Azenha, que une a rua do Amial à de S. Tomé. Existia outra nascente que formava um rego volumoso cuja água era usada para uso doméstico dos habitantes próximos e que se chamava Fonte da Travessa. Este rego também alimentava os lavadouros da rua da Travessa (Souza Reys, 1984: 198, Velasques, 1991: 226). A Fonte da Bica Velha foi construída em 1718 na Travessa da Bica Velha. Em 1896 foi transladada para a Rua da Nataria, adotando, então, este nome (Velasques, 1991: 189). Na área Quinta do Covelo, construída no século XVIII e há muitos anos em ruínas, existiu uma fonte denominada do Covelo na Revisão do PDM de 2018[3] que está descrita num documento de 1440. A Fonte das Fressureiras, apresentava água de boa qualidade bacteriológica em 1905 (Bahia Júnior, 1909: 24). O mesmo autor encontrou-a seca na avaliação que fez em 2008.

Continua...





[1] Pinto, Jorge Ricardo, 2012, A expansão (sub)urbana no Porto romântico. O caso da Freguesia do Bonfim, Percursos & Ideias, n.º 3&4 – 2.ª Série, 2011-2012.
[2] Marçal, 1954, H., S. Veríssimo de Paranhos (freguesia da cidade do Porto) – Subsídios para a sua monografia, Documentos e Memórias para a História do Porto – XXV, Publicação do Gabinete de História da Cidade da Câmara Municipal do Porto.
[3] Revisão do Plano Diretor Municipal do Porto, 2018, Valores Patrimoniais – Mobiliário Urbano e Obras de Arte Pública, Relatório de Caracterização e Diagnóstico, Câmara Municipal do Porto.