terça-feira, 6 de setembro de 2016

parte III

A partir do século VI a cidade ultrapassou os limites da velha cerca e estendeu-se preferencialmente pela encosta ocidental do morro da Sé, em direção à Ribeira. A parte negativa deste progresso teve a ver com os assaltos de que a cidade passou a ser alvo, havendo mesmo notícias da sua destruição, no final do século X, por parte dos Mouros. A partir do século XII, a cidade iniciou a abertura de novas ruas e espaços públicos, algumas das quais ainda hoje se mantêm. Para compreendermos aquela época, vale a pena  passar os olhos pela descrição que Armindo de Sousa faz na “História do Porto” [1] da povoação limitada pela “cerca velha”. Sobre o viver das suas gentes, escreveu: “Homens e bichos, vivos e mortos, partilhavam o recinto, que vimos estreito, numa algazarra de barulhos e odores. Dentro da cerca havia de tudo: moradas de gente, cortes de animais, oficinas infectas, estrumeiras, sepulturas, o açougue, as enxercas, os curtidoiros, a Sé mais a sinagoga, a masmorra, a casa da tortura, os excrementos e os lodos perpétuos. A cidade era uma criatura a tresandar. É certo que havia um poço. Era uma fonte de chafurdo [2], perto do cemitério ou no cemitério mesmo [M. J. BARROCA, 1984 e 1987; e História da cidade do Porto, I]. ...E também não se inventara ainda a preocupação da saúde pública nem o luxo da higiene privada”. Aquelas condições sanitárias condicionaram o futuro da qualidade da água usada pelos habitantes do Porto e a dos seus rios e ribeiros.

Poço da Casa Museu de Guerra Junqueiro, na Rua de D. Hugo

No século X os cristãos procuravam reconquistar a península ibérica aos Muçulmanos. Nessa tarefa, foram apoiados por centenas de monges e cavaleiros franceses, entre os quais Henrique de Borgonha que, pelos seus feitos, foi recompensado pelo Rei Afonso VI, do Reino de Leão, com a mão de sua filha ilegítima Teresa e com o Condado Portucalense. Procurando controlar o seu território, logo designou os prelados para as dioceses de  Braga, Coimbra e Porto, neste último caso na pessoa de D. Hugo, também de origem francesa, que foi sagrado Bispo de Porto em março de 1112. O novo Bispo, que encontrou no alto de Pena Ventosa um pequeno burgo desgastado por assaltos e invasões, procurou recuperá-lo começando por construir a Sé, em substituição de uma pequena ermida, tornando-a o “pólo central de toda a malha urbana” [3]. Em redor da cerca estendiam-se terrenos ainda incultos cujo limite estava no fundo da íngreme escarpa, junto ao Rio Douro. Onze anos depois da sua sagração, D. Hugo outorgou carta foral aos moradores “presentes e futuros”, “diploma fundamental para a história política, jurídica e económica da cidade” [4]. O objetivo central do Bispo foi o de atrair povoadores para engrandecer a povoação.

Vista atual do Morro da Sé

Em 1120, a rainha D. Teresa concedeu a D. Hugo um vasto território limitado pelo Canallem Maiorum (Canal Maior, atual Rio da Vila) até ao Rio Tinto, concretamente no lugar de Noeda na freguesia de Campanhã, e do Douro a Arca d’Água. Oliveira Ramos e outros historiadores estão convencidos que os limites do couto iam desde Germinaldi (Germalde era o nome da elevação a que se chama hoje monte da Lapa) até ao Douro, seguindo a linha do Rio da Vila. Posteriormente, D. Afonso Henriques estendeu-o até Contumil, Asprela, Monte dos Burgos e Carvalhido [5]. Passados alguns anos, durante o episcopado de Pedro Rabaldes (1138-1145), foi fixado para a cidade, a partir de Portus, o topónimo Portu [6].

No Porto, a partir do reinado de D. Sancho I, os conflitos entre os bispos, os burgueses e a coroa eram frequentes e de diversa natureza, a que não era alheio o rendimento gerado pelas trocas comerciais e marítimas que aumentavam de dia para dia. Apesar daquelas querelas, a cidade foi-se alargando durante os séculos XII e XIII, começando a construir-se habitações na margem direita do Rio da Vila e subindo pela encosta Sul do Monte Vitória, num território que D. Afonso III considerava seu porque o Rio da Vila limitava o couto do Bispo. D. Julião Fernandes reagiu insistindo que o Canal Maior referido na doação de D. Teresa designava o Rio Frio [7]. Obrigou mesmo os seus súbditos, sob pena de excomunhão, a chamar de Cividade ao Rio da Vila, e apropriou-se, em 1249, da zona entre os dois rios que vinha ganhando importância pelas muitas mercadorias que por ali transitavam. Em 1325, D. Afonso IV pôs um ponto final na contenda construindo ai a Alfândega do Porto.

O Rio da Vila [8], para além de se ter chamado Cividade, e, antes, Canal Maior, também recebeu as designações de Pelames e dos Carros devido aos lugares por onde passava. Este Rio resulta da reunião, na antiga Porta dos Carros, que ficava a poucos metros da atual Igreja dos Congregados, de dois ribeiros: um deles, com um percurso de cerca de 1770 m, nasce, ou nascia, no monte de S. Brás entre o cimo da rua do Bonjardim e a rua de S. Brás, atravessa a rua do Paraíso entre Bonjardim e Camões, local onde servia os lavadouros da Trindade, passa por baixo da Igreja da Trindade e do edifício da Câmara Municipal do Porto, segue pela Avenida dos Aliados e pelo lado nascente da Praça da Liberdade, entrando na Praça Almeida Garrett; o segundo, que tinha um percurso da ordem dos 1370 m, nasce na vertente oriental do Monte dos Congregados (Furtado de Antas, 1902), próximo do cruzamento das ruas de Santa Catarina e Gonçalo Cristóvão, no lugar da Fontinha, desce, paralelamente e a oeste da rua de Santa Catarina, por Fradelos, Bolhão, e sob a atual Rua Sá da Bandeira até ao ponto de encontro com o primeiro. Recebia ainda as águas de toda a encosta sudoeste do Monte de Salgueiros e oeste do Alto da Fontinha. “O curso do rio da Vila seguia ziguezagueando pelas traseiras das casas da Rua das Flores, torcendo um pouco abaixo da Ponte Nova para o lado da extinta Rua da Biquinha, a meio da qual, em pronunciada curvatura, flectia para a Rua de S. João e em linha recta dirigia-se ao Rio Douro.”(O Tripeiro, Série VI, Ano VI). Neste último troço, com 720 m, o rio da Vila, que recebia as águas da encosta da Sé e de Vitória, fazia mover alguns moinhos à boca da Rua do Souto, na Rua de Cangostas e junto à Ponte Nova [9]. A sua entrada no Douro não é agora visível porque aqui foi aplicada, na década de 1990, uma técnica local em que o rio foi entubado até ao meio do Douro. Assim se desvia da vista de todos a carga poluente, escondendo o que de mau ainda acontece no saneamento da cidade do Porto. Também tiveram que migrar para a nova “foz” as inúmeras tainhas que antes pululavam no Douro, importantes “contribuintes” para a despoluição do Douro, passe a ironia.

A Rua das Flores e a Rua dos Canos em 1813. A azul, troço do Rio da Vila,
a céu aberto naquela data.
Fonte: 
http://doportoenaoso.blogspot.pt/2013/01/barroquismos-vii-13-2-parte.html
Rua Mouzinho da Silveira

Quando da construção da Muralha Fernandina houve necessidade de encanar o troço superior do rio no então Largo da Feira de São Bento (hoje Praça de Almeida Garrett). O entubamento do rio continuou quando João de Almada mandou abrir a Rua de São João, em 1765, e durante a construção da Rua de Santa Catarina das Flores (1521-1525), atualmente Rua das Flores. O troço desta rua entre a Praça de Almeida Garrett e a Rua de D. Maria II (atual Rua de Trindade Coelho) assumiu o nome de Rua dos Canos tanto pelo encanamento do Rio como por outras canalizações que passavam no seu subsolo e que abasteciam de água as zonas mais baixas da cidade, particularmente ao Convento de S. Domingos [10].

Largo de S. Domingos

O Rio da Vila recebia, desde a formação do burgo, todos os lixos e imundícies produzidos nas suas imediações, as descargas dos tanques da curtimenta de peles, os lixiviados dos Aloques da Biquinha, depósitos de lixo e estrume da CMP existentes nas traseiras dos edifícios da Rua das Flores, depósitos esses fechados em 1854, as escorrências das ruas e das fossas de uma boa parte da cidade. Estas contaminações faziam com que o rio fosse uma fonte de maus cheiros a ponto de haver muitas reclamações dos habitantes da zona, que levaram ao seu encanamento, em 1875, quando da abertura da Rua de Mouzinho da Silveira [11]. Sabia-se que a água do rio era causa de doenças, e, segundo Ribeiro da Silva, 1985, a própria Vereação estava consciente, em 1613, dos prejuízos que a água do rio acarretava para a saúde pública. Com o encanamento do rio desapareceu o seu lamaçal que tantos detritos acumulava, prejudicando os moradores. Apesar de totalmente encanado, a sua contaminação agravou-se ao longo dos tempos devido a ligações clandestinas de esgotos domésticos. Dizia D’Andrade Júnior [12], em 1895, que “dentro dos muros corria o Rio da Vila ...que servia para levar as imundícies”.

Rua de São João

O encanamento do Rio da Vila e seu afluentes não os libertou da contaminação. Em 2001, Reis (2002) [13], determinou a qualidade da água do Rio da Vila num ponto de amostragem da Rua Mouzinho da Silveira, reconhecendo-se que esta é a linha de água mais poluída do Porto, com valores da Carência Química de Oxigénio superiores às de efluentes domésticos. Transportava naquele ponto, em média, cerca de 10,6 ton/dia de carga orgânica [14] (com valores pontuais variando entre 8,5 e 16,2 ton/dia). Face aos valores obtidos para o Índice de Qualidade Geral (IQG) [15], a água deste rio foi classificada como sendo de qualidade péssima.

Para além do seu total encanamento e dos ribeiros que lhe dão origem, o rio da Vila tem sofrido desvios sempre que o progresso tem que avançar. A instalação do metro do Porto foi um dos casos, do qual se realça o difícil desvio na Praça Almeida Garrett. Temos agora as obras de restauro e de modernização do Mercado do Bolhão que já tem dado alguma polémica. Uma parte da rua Fernandes Tomás, próximo do mercado do Bolhão, assenta em estacaria, o mesmo acontecendo na rua de Passos Manuel, próximo da rua de Sá da Bandeira, parte desta rua nas proximidades do atual teatro Sá da Bandeira (outrora do Príncipe Real) e em parte da Rua de 31 de Janeiro, antes de Santo António (Furtado de Antas, 1902). Num dos projetos da reconversão do Mercado previa-se a construção de um túnel pedonal que o ligasse ao parque de estacionamento subterrâneo da Praça de D. João I. Tal ligação foi considerada tecnicamente inviável pela Direção Regional de Cultura do Norte devido ao fato de, no subsolo da Rua Sá da Bandeira, correr um ramo do Rio da Vila. Entretanto o arranque do desvio da linha de água teve início em agosto de 2016, mas, segundo o Jornal de Notícias de 17/8/16, o Ministério Público está a investigar a existência de um eventual crime nesse processo, na sequência de uma queixa apresentada pelo arquiteto autor do projeto de 1998 para o Bolhão, que alega que “há, pelo menos, duas questões relacionadas com o projeto e o processo do mercado que violam a Lei de Base do Património Cultural”. O arquiteto afirmou ao jornal “Público” que o “desvio de uma linha de água que atravessa todo o imóvel para as ruas Sá da Bandeira e Fernandes Tomás pode ser perigosa e criar problemas até às construções envolventes”. Onde desaguará este caso?

Trajeto do Rio da Vila e seus afluentes 

Legenda: 1 - Igreja dos Congregados; 2 - Avenida dos Aliados; 3 - Igreja da Trindade; 4 - Mercado do Bolhão

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O Rio Frio ou Rio do Carregal ou Rio de Monchique, que em tempos remotos, serviu como baliza, de acordo com o desejo e interesse do Bispado, aos extremos dos territórios de doações Régias feitas aos dois Cabidos  da Catedral e Colegiada de Cedofeita [16]. Nasce nas proximidades da atual Rua da Torrinha, segundo Furtado das Antas, 1902 [17], “nos terrenos compreendidos pelo pentágono formado pelas ruas da Boa Hora, Rosário, Torrinha, Cedofeita e Breyner, atravessa a rua do Breyner a meia distância entre Cedofeita e Rosário, e segue pela praça do Duque de Beja”,  passa pelo Jardim do Carregal [18], por baixo do Hospital de Santo António (foi encanado, em 1769 para sobre ele se construir o hospital), desce pela encosta ocidental do monte da Vitória até Miragaia, e corre, até à construção da Alfandega Nova, ao longo do areal da praia de Miragaia, desaguando então no Rio Douro num local próximo da Fonte da Colher. Atualmente desagua na área da Alfândega Nova, no sítio onde esteve a Porta Nobre, em Miragaia. O rio Frio está, atualmente, totalmente encanado no seu percurso de 1,4 km. Com o seu encanamento e ocupação do solo, a qualidade da sua água foi-se deteriorando e o ribeiro transformou-se em esgoto, embora diluído. Em 2001, Paula Reis (2002), qualificou a água do Rio Frio num ponto de amostragem próximo da sua foz (Miragaia), verificando que ele transportava, em média, cerca de 1,6 ton/dia de carga orgânica expressa como oxigénio (com valores pontuais que variaram entre 1,1 e 2,3 ton/dia). Para a Ribeira de Massarelos, e de acordo com o valor obtido para o IQG, a água deste rio foi classificada com a qualidade péssima.

Primitiva topografia do sítio do Carregal e suas imediações. Fonte da imagem:
 
http://portoarc.blogspot.pt/2013/04/rio-frio-e-fontes-que-alimenta.html











[1] Sousa, A. 1995. Tempos Medievais – in História do Porto, direção de Luís A. De Oliveira Ramos. Porto Editora. Porto. p. 120-253
[2] As fontes de mergulho ou chafurdo (cobertas ou arcadas) são constituídas por um tanque em que se mergulha o balde. O tanque deve ser protegido por uma abóbada de pedra ou outro material por forma a impedir o acumular de impurezas. O acesso faz-se normalmente descendo dois ou três degraus.
[3] Sousa Assunção, D. 2010. O Morro da Sé – reflexões de um passado para o futuro. Universidade Fernando Pessoa, Porto.
[4] Ricardo Jorge, 1897. Origens e desenvolvimento da população do Porto – Notas históricas & estatísticas. Typographia Occidental, Porto.
[5] Oliveira Ramos, 2000.
[6] AFONSO, José Ferrão – A imagem tem que saltar, ou o rebate dos signos. A cidade episcopal e o Porto intramuros no século XVI: propriedade ritual, representação e forma urbana (1499-1606). Dissertação de tese de doutoramento apresentada à Universidade Politécnica de Catalunya, Escola Técnica Superior d’Arquitectura de Barcelona, Departament de Composició Arquitectònica. Barcelona, 2008, Vol. I, p. 23., citado por Afonso, D. B. B. 2012. A rua na construção da forma urbana medieval: Porto, 1386-1521.
[7] Diogo Teixeira, 2011, atribui a este rio o nome de Canal Menor.
[8] O vale do rio da Vila terá correspondido ao trajeto da calçada romana de Lisboa a Braga, que seguiria aproximadamente por onde é a rua do Bonjardim. A Cividade pode ter sido uma estação dessa estrada. Vereaçoens – anos de 1390 – 1395.
[9] Francisco Ribeiro da Silva. 1985. O Porto e o seu termo (1580-1640). Os homens, as instituições e o poder. II Volume. Dissertação de Doutoramento em História Moderna apresentada à Faculdade de Letras da Universidade do Porto.
[10] Isabel Maria Ribeiro Tavares de Pinho. 2000. O mosteiro de São Bento de Ave Maria do Porto, 1518/1899 – Uma arquitetura no século XVIII. Vol. I. Dissertação de Mestrado em História de Arte apresentada à Faculdade de Letras da Universidade do Porto.
[11] As Águas do Porto, EEM, pretende abrir a visitantes o troço, com cerca de 350 m, do rio da Vila no percurso entre a Estação de S, Bento e a Praça da Ribeira[11], embora o troço entre o Largo de São Domingos e aquela Praça seja feita à superfície. Neste trecho o rio escoa através de um túnel em granito, com 2,5 m de largura e 3 m de altura, construído durante a abertura da Rua Mouzinho da Silveira.
[12] D’Andrade Júnior, A. 1895. Breves apontamentos sobre as águas dos poços do Porto. Dissertação Inaugural à Escola Médica-Cirúrgica do Porto.
[13] Reis, P. A. S. C., 2002, Situação atual dos rios e ribeiros do Porto. Dissertação de Mestrado apresentada ao Departamento de Engenharia Biológica da Escola de Engenharia da Universidade do Minho.
[14] A carga orgânica foi determinada pelo produto entre o caudal e a Carência Química de Oxigénio, expressa como o oxigénio equivalente necessário para oxidar os redutores presentes na água, a maior parte dos quais integrados na chamada, pelos químicos, matéria orgânica. As águas naturais puras têm quantidades pequeníssimas, mesmo insignificantes, de matéria orgânica.
[15] O IGQ tem por objetivo comparar amostras sucessivas de uma estação de amostragem ou entre amostras de estações diferentes. O seu valor é obtido pelo somatório ponderado dos parâmetros analíticos físico-químicos e bacteriológicos considerados na caracterização de cada amostra. Quanto maior for o valor de IQG maior é a qualidade da água; entre 85 e 100 a água é excelente; se o IGQ for menor do que 50 a água é considerada péssima.
[16] Apontamentos para a verdadeira história antiga e moderna da cidade do Porto, de Henrique Duarte e Souza Reis, volume concluído em 25 de Junho de 1867, publicado em Manuscritos inéditos da Biblioteca Pública Municipal do Porto, II Série – 4, Porto 1991.
[17] Furtado das Antas, A. C., 1902, Insalubridade do Porto. Dissertação Inaugural apresentada à Escola Médico-Cirúrgica do Porto.
[18] O topónimo Carregal deriva da existência de Carregas, plantas próprias de terrenos pantanosos.

terça-feira, 30 de agosto de 2016

parte II

  
Face aos testemunhos encontrados nas últimas décadas, muitos e credenciados autores são de opinião que a origem da cidade do Porto reside num castro da idade do bronze (período que vai de 3.000 a.C. até cerca de 1.200 a.C.), que se formou no morro, hoje conhecido por Morro da Sé, identificado como Pena Ventosa, provavelmente assim chamado pelos fortes ventos que o atingiriam. Este morro reunia condições excecionais para a criação de um povoado fortificado com capacidade para controlar uma bacia hidrográfica e zonas de aptidão agrícola e de exploração de recursos naturais [1]. A fortificação da povoação traduziu-se na construção, no século II a.C., da primeira muralha do Porto.

Pormenor da maqueta do Porto medieval: morro da Sé com a sua igreja e paço. 
Fonte: Arquivo Municipal do Porto. Cota F-C/CMP/8/279(6) (11).

Aspecto da cerca primitiva em torno do Morro da Sé

O romano Décimo Június Brutus, comandando o seu exército, procurou e conseguiu, a partir de 138-136 a.C., submeter ao poder de Roma a região entre Douro e Minho, tomando posse do morro de Pena Ventosa [2], em 74 a.C., que se manteve até à invasão da região pelos Suevos. Como aconteceu em todos os territórios ocupados, os novos ocupantes romanizaram o aglomerado, que entretanto adquiriu o nome de “Castrum Novum Portucale”, mais tarde documentado na forma Portucale castrum novum. A área do aglomerado não ultrapassaria nessa época os três hectares e meio. No fundo do morro, na margem do Rio Douro, desenvolveu-se o “Portus Cale”, a atual Ribeira, embarcadouro que foi o grande motor do desenvolvimento da cidade.

Rua das Aldas uma das primeiras da cidade do Porto
 
Rua da Pena Ventosa uma das primeiras da cidade do Porto e ainda cheia de vida

Em 409, a pedido do ocupante, os suevos e outros povos entraram na Península Ibérica e por cá ficaram devido ao esvaziamento da autoridade romana. A ocupação sueva não durou muito tempo: apenas um século e meio, foram expulsos pelos Visigodos que, por sua vez, acabaram por sucumbir à ocupação Muçulmana no ano de 711. Os muçulmanos descreveram os hábitos daqueles que viviam na povoação ocupada, entre os quais destacavam a má prática de não se lavarem nem mudarem de roupas. A luta contra a ocupação muçulmana da Península Ibérica teve início, em 722, nas Astúrias. Apenas em 868, surgiu uma importante figura da cidade do Porto: Vimara Peres, que, auxiliado por cavaleiros da região, se encarregou de integrar o povoado no novo poder e se tornou o primeiro conde de Portucale. Foi a partir dessa data que a cidade assumiu um papel de destaque no desenvolvimento da região entre o Douro e o Minho e que esteve na origem do Condado Portucalense.

Estátua de Vimara Peres que se encontra junto da Sé do Porto

A descrição que fazemos do desenvolvimento da cidade do Porto até à chegada de Vimara Peres justifica-se como enquadramento de um outro fator que foi decisivo para a fixação do Homem na Pena Ventosa e no Morro da Cividade, para onde se estendeu o primitivo povoado, morro este esventrado para ali passar a Avenida da Ponte. Esse fator é, nem mais nem menos, a água, abundantemente disponível perto daqueles morros, porque na constituição do seu subsolo predominava o “granito do Porto”, que permitia a infiltração da água no maciço rochoso e a acumulação de reservas a acessível profundidade. Além de abundante, a água que naqueles tempos se alojava nos mananciais teria boa qualidade, obviamente reconhecida pelo tipo de materiais que com ela contactava e, sobretudo, pela manifesta falta, ao contrário do que passou a acontecer nos tempos posteriores, de poluidores renitentes. Recordemos que naqueles tempos a impermeabilização do solo era limitadíssima, garantindo que a maior parte da água da chuva se infiltrasse no subsolo. À água de profundidade, acrescentava-se a do Rio da Vila que estava a um passo dos dois morros; esta corrente de água permanente, que deslizava a céu aberto em direção ao Douro pelo vale da Sé, não sofria, naqueles séculos, os maléficos efeitos da ocupação excessiva do solo e do desenvolvimento de pequenas indústrias, como a da curtimenta de peles.

Escarpa dos Guindais – as escorrências de águas
 pela escarpa revivificam a natureza

Quem passeia ao longo da marginal do Douro entre as pontes de D. Luiz I e de D. Maria Pia durante o mês de agosto pode reparar a presença na Escarpa, dos Guindais de algumas manchas de vegetação verde no meio da secura de verão. A aproximação a essas zonas revela a existência de exsurgências de água no maciço granítico, formando fontes naturais e regos com água mais ou menos abundantes. Se subirem ao Passeio das Fontainhas, admirarão o brotar de água, com origem no Manancial das Fontainhas, na vandalizada Fonte do mesmo nome e dos seus lavadouros. A escarpa dos Guindais, como vimos riquíssima em água, alimentou, algumas fontes e chafarizes que entretanto desapareceram: Aguada, Carvalhinho, Ribeira, Areia ou Guindais, Lágrimas e/ou Malmeajudas, a seguir recordadas.

Escarpa dos Guindais – quem teria a coragem de ali fazer uma horta

A Fonte da Aguada ficava junto ao Douro, próximo das escadas da Aguada que se situam no extremo da atual Rua Gomes Freire, no limite da alameda das Fontainhas. Por elas se desce até à Avenida de Paiva Couceiro. Ao longo da escada, abaixo da antiga linha do caminho de ferro entre Campanhã e a Alfandega, se pode ver o brotar de água das fendas do granito formando pequenas fontes aproveitadas para a rega de pequenas hortas espalmadas nas fragas. Perto destas escadas, terá existido a Fonte da Aguada, reconstruída em 1785, no caminho que seguia para o Esteiro de Campanhã. Era abundante a água que dela brotava, alimentando também lavadouros. A sua água, que era límpida, pura e cristalina, servia para abastecer os barcos que traziam ou levavam algumas mercadorias para o Porto. Segundo Germano Silva, como a água desta fonte era de elevada pureza, quando embalada em barris, a sua qualidade era garantida por longos períodos, mesmo quando os barcos sulcavam paragens com temperaturas mais altas. Em setembro de 1863, Gavand determinou a sua dureza total, ou grau hidrotimétrico ou crueza como se dizia então, da água desta fonte, verificando que ela era macia (para os químicos, a dureza total era de 56 mg/L CaCO3).

 
Escarpa dos Guindais – fonte improvisada

O Chafariz da Ribeira, localizada no centro da Praça da Ribeira, foi construído em 1678. Era alimentada a partir do Manancial Malmeajudas através da Fonte a ele associado e referida por Manuel Pereira de Novais como Fonte dos Guindais. Durante a remodelação da Praça da Ribeira, concretizada entre 1776 e meados da década de 1780, o chafariz foi desmantelado para facilitar o intenso tráfego de carros de bois e pessoas que acorriam à descargas dos barcos, tendo sido substituído pela Fonte da Ribeira cuja edificação terminou em 1783.

A Fonte de Malmeajudas, com origem no manancial do mesmo nome, localizava-se na zona dos Guindais, provavelmente próximo ou mesmo na então Calçada das Corticeiras. Pouco se sabe desta fonte, embora exista uma referência à sua existência em 1669, ano em que foi adjudicada a obra da condução da sua água para o Chafariz da Ribeira. Esta reduzida informação pode-se integrar no parágrafo seguinte, e daí resultar a hipótese de que esta e a das Lágrimas são a mesma fonte.

Calçada das Carquejeiras, antes da Corticeira

Para Aurélio de Oliveira [3], a Fonte das Lágrimas, construída em 1745, era um fontenário ornamental desenhada por Nazoni para a Câmara do Porto. Existem muitas dúvidas sobre a sua localização, podendo ter estado entre a Ribeira e a Quinta da China, admitindo-se até que ela ter-se-á chamado de Malmeajudas. Esta fonte ficava junto ao rio Douro e por ter água incorrupta, servia para abastecer as embarcações que iam para o Brasil e outras paragens [4]. Este atributo não lhe é reconhecido por J. Bahia Junior [5], que sobre a Fonte da Areia testemunhou: “a Fonte da Areia ou dos Guindais, antigamente conhecida pelo nome de Fonte das Lágrimas, apenas pudemos colher a informação de que já existia no ano de 1669, como consta da Memória do Padre Balthazar Guedes, já citada. Parece que a primitiva fonte era no ponto em que ainda se vê um pedaço do arco por baixo das escadas dos Guindais”. Completa a descrição da sua localização adiantando que aquela fonte estava “situada no Cais da Ribeira, tem a sua bica, emergindo do paredão que forma a Avenida da Ponte, formada por um tubo de ferro de grande calibre que a trás encanada desde a sua nascente que fica do lado oposto da Avenida por baixo das Escadas do Codeçal e à entrada da Viela das Panelas, no ponto em que se vê um arco de pedra meio soterrado... Parece ter sido aí a primitiva Fonte dos Guindais, encanada depois de concluída a Avenida da Ponte para o Cais da Ribeira”. Fica a questão: As denominações de Malmeajudas e das Lágrimas representam a mesma Fonte? A informação dada por Bahia Júnior sobre a localização da primitiva fonte é confirmada por Horácio Marçal [6], situando a nascente no subsolo de um armazém da Lada, Junto ao Postigo da Areia.

Fonte da Areia ou dos Guindais. Fonte: J. Bahia Junior, 1909

Sobre a qualidade da água desta fonte, em 1909, vale a pena transcrever o comentário Bahia Júnior: junto da nascente “há inúmeros bolos fecais e todo o local está encharcado em urina, o que se coaduna bem com o que ali ouvimos dizer aos moradores: “...Se nos dessem água boa para aqui, que esta até sabe a mijo!” Isto é muito natural visto como do nível do solo à nascente não deve haver distância superior a 3 metros”. Marçal refere que foi a má qualidade da água que a levou ao seu desmantelamento. A caracterização microbiológica, realizada por Bahia Júnior em 1908/9, comprovou a péssima qualidade da água desta fonte, imprópria para consumo.

Na Quinta da Fraga, junto da então Calçada da Corticeira, hoje das Carquejeiras, em homenagem às mulheres que por ela subiam carregando grandes molhos de carqueja descarregados pelos barcos que vinham do interior, ficava a Fábrica de Louça do Carvalhinho que mudou para as Devesas, Vila Nova de Gaia, no final do século XIX. O nome da fábrica foi inspirado na Capela do Senhor do Carvalhinho, infelizmente em ruínas. Junto ao portão da fábrica situava-se a Fonte do Carvalhinho que recebia a água de uma mina aberta no granito que se encontrava nas suas traseiras. A mina estava protegida por uma porta.

Fonte do Carvalhinho, vendo-se a porta de entrada para a mina (P) que tem uma 
direção perpendicular à entrada e paralela ao frontispício da fonte. Fonte: J. Bahia Junior, 1909


Ruínas da Capela de Senhor do Carvalhinho

Sob o ponto de vista microbiológico, Bahia Júnior considerou, em 1908/9, que a sua qualidade estava no limite das águas toleráveis mas que devia ser condenada porque ele reconheceu, na visita que fez à mina da fonte, a existência de escorrências que, acrescentamos nós, podiam contaminar a água. Nos nossos dias ela seria condenada por ser imprópria para consumo humano. Em setembro de 1863, o valor da dureza total da água desta fonte era moderado (116 mg/L CaCO3) (Gavand, 1864).

Dos morros da Sé e da Cividade seria mais fácil para os seus habitantes acederem à água na zona onde hoje temos a Alameda das Fontainhas e onde, séculos depois, se veio a cavar a mina que veio a alimentar a Fonte das Fontainhas. A propósito do Manancial das Fontainhas, Bahia Júnior atribuiu a denominação de Fontainhas aos “muitos choros d'água que rebentavam em diversos pontos deste local”. Considerava-o como muito antigo, havendo dele notícias desde 1588, e com abundante água. Terá sido este manancial que levou a construir naquele local o Hospital dos Gafos ou Lázaros, para que as suas águas fossem usadas na limpeza do dito estabelecimento.

Manancial da Fontainhas, abertura da sua colateral no ramo principal. 
Fonte: J. Bahia Junior, 1909

O Manancial das Fontainhas situa-se nos fundos dos terrenos localizados no monte da Praça da Alegria [7], acima da Rua Gomes Freire, onde existiu um mercado de peixe, legumes e fruta. Diogo Teixeira [8] cita Baltasar Guedes na sua Memória de 1669 na qual se dava a indicação da importante disponibilidade de água deste manancial que tinha no verão três anéis de água [9], sendo dois para o Colégio da Companhia de Jesus e uma para o povo. A água foi cedida pela Câmara ao Colégio a seu pedido, que, segundo Bahia Júnior, a troco de fazerem “gratuitamente aos Lázaros os sermões quaresmais” e de “construírem à sua custa o tanque de pedra de dez palmos de comprido e oito de largo para os Lázaros se lavarem e em baixo uma pia que servisse para bebedouro do gado”. Parece que os Padres foram maus cumpridores e obrigados a repor várias vezes o acordado. Por Alvará Régio de 1802, foi aprovada a construção da Fonte e Tanques das Lavandeiras, ainda existentes, tendo-se determinado a conclusão desta obra, em 1830.

Fonte das Fontainhas. Fonte: J. Bahia Junior, 1909

Fonte das Fontainhas nos nossos dias onde se destaca os efeitos dos atos de vandalismo

Bahia Júnior explorou, em 1908/9, as minas do manancial e a pia divisória que fornece a água às duas bicas da fonte, tendo ficado impressionado com “tão grande porcaria e imprevidência”. A pedra que fechava a pia divisória não era cimentada e, à sua volta, abundavam “os bolos fecais” e a urina encharcava. Ao longo da mina reconheciam-se “extensas infiltrações negras” e do teto da mina, “em ocasiões de pouca chuva mesmo, goteja em abundância”. Após a concretização de análises microbiológicas em amostras colhidas nas minas e na fonte, o autor admitiu que os resultados obtidos não são concordantes com os dados topográficos, que eram péssimos, enquanto a qualidade da água era sofrível. Justificou a anomalia com a “falta de chuvas que que carreassem produtos de inquinação”. Nos nossos dias, aqueles resultados levar-nos-iam a rejeitar aquela água como potável.

Esquema do trajeto das minas do Manancial das Fontainhas,
 segundo Bahia Júnior, 1909, pág. 98

A Fonte das Fontainhas localiza-se na Alameda do mesmo nome e está voltada para o Rio Douro, recebendo a água de duas arcas do manancial, uma delas próxima da fonte e a outra na Praça da Alegria. A Fonte, como a conhecemos, terá sido posta ao serviço do povo em 1830, mas existe uma Memória do Padre Simão Duarte de Oliveira, de 1669, na qual se diz que a fonte (primitiva?) terá sido feita quando se fundou o Hospital dos Gafos e dos Lázaros e que ficava “retirada das habitações e recreio do povo, da cidade, onde vai tomar sol de inverno e de verão beber excelente água” [10]. Para além da caracterização microbiológica da sua água feita por Bahia Júnior, devemos acrescentar a determinação da dureza total da água da Fonte feita por Gavand, em setembro de 1863, que registou o valor de 86 mg/L CaCO3, valor muito próximo da dureza total da água atualmente servida pelas Águas do Porto, E.M., correspondendo a água macia.

Lavadouros das Fontainhas

Desde finais do século XX que a Fonte e a Alamedas das Fontainhas estão ligadas aos festejos de São João, servindo, há muitos anos, de cascata sanjoanina.  










[1] Joana Sequeira. 2010. História do Porto – Como nasce uma cidade. Das origens ao Condado Portucalense. QN – Edições e Conteúdos, S.A., Matosinhos
[2] A tomada do povoado terá usado o topónimo Cale, devido ao nome do povo que habitava o Norte do Douro – os calaicos – que mais tarde deram nome à região da Calécia ou Galécia.
[3] Oliveira, A.  1984. Um inédito de Nazoni: a Fonte das Lágrimas (na cidade do Porto). Lucerna,  Número extraordinário: colectânea de Estudos de Homenagem a D. Domingos de Pinho Brandão. Centro de Estudos Humanísticos da Delegação do Norte do Ministério da Cultura. Porto., pp. 379-386.
[4] Ferreira Alves, J. J. B. 1988. O Porto na época dos Almadas – Arquitetura, obras públicas. (Volumes I e II). Dissertação de doutoramento em História de Arte apresentada à Faculdade de Letras da Universidade do Porto.
[5] Bahia Junior, J. 1909. Contribuição para a hygiene do Porto. Analyse sanitária do seu abastecimento em água potável. II – Mananciais do Campo Grande, Bispo e Freiras, Cavaca, Camões, Virtudes, Fontainhas, Praça do Marquez de Pombal e Burgal; fontes suas derivadas e fontes de nascente privativa. Dissertação Inaugural apresentada à Escola Medico - Cirúrgica do Porto.
[6] Marçal, H., 1968, O abastecimento de água à cidade do Porto e à Vila de Matosinhos, Separata do Boletim da Biblioteca Pública Municipal de Matosinhos, n.º 15.
[7] Nos nossos dias a praça da Alegria é bastante mais reduzida mas ainda tem um pequeno mercado.
[8] Diogo Emanuel Pacheco Teixeira.  2011. O Abastecimento de Água na Cidade do Porto nos Séculos XVII e XVIII.  Aquedutos, Fontes e Chafarizes. Dissertação de Mestrado em História da Arte Portuguesa Faculdade de Letras Universidade do Porto
[9] O caudal de água que brotava das nascentes expressava-se em penas de água, anéis e manilhas, que estavam relacionados com a quantidade de água que atravessava um orifício circular com a espessura, respetivamente, de uma “pena de pato”, de um “dedo” e de um “punho”. No Porto, 1 pena de água correspondia a 534 litros por dia quando a água era fornecida a particulares a partir de um manancial público, e 636 litros por dia para o caudal das fontes e mananciais municipais. Uma manilha equivalia a 16 anéis, e um anel a oito penas.
[10] Oliveira Ramos, L., 2000, História do Porto, Porto Editora, 3º ed., Porto.